terceira tech island

TERCEIRA TECH ISLAND

Todos nós queremos acreditar que os projetos e planos apresentados pelo Governo ou pelas Autarquias são mesmo para avançar, principalmente quando essas propostas são as únicas que existem e a alternativa é nenhuma ou perto disso.

As desconfianças são muitas e acreditar, ou não, torna-se por vezes um ato de fé ou de fé conveniente. Existem fortes razões para isso. Foi o supercomputador que, ao abrigo das medidas para mitigar a redução do efetivo americano nas Lajes, foi parar a Braga. Foram os voos da Delta Airlines que, ao abrigo das medidas para mitigar a redução do efetivo americano nas Lajes, foram parar a Ponta Delgada. É a base de lançamento de satélites que, ao abrigo das medidas para mitigar a redução do efetivo americano nas Lajes, vai parar a Santa Maria. Restar-nos-ia a urgente e necessária descontaminação dos solos e aquíferos. E ainda assim, nem mesmo essa é feita. Fosse ao abrigo de seja lá o que for.

O Terceira Tech Island (TTI) é mais um desses projetos que visam encontrar soluções que colmatem o vazio na economia terceirense deixado pelo acentuado decréscimo da atividade da Base das Lajes. Não sei se esse projeto deriva do PREIT, do AirCenter ou de outro qualquer instrumento de propaganda e não quero acreditar que ele próprio também o seja. Os primeiros dois já mostraram o que são e o que valem. O TTI, contudo, independentemente daquele vídeo promocional inicial que, convenhamos, correu mal, reveste-se de outros contornos. Mais palpáveis, mais sérios e já materializados. Ao menos já existem atividades concretas no terreno sem que sejam simples anúncios ou manifestação de intenções. Acredito no potencial do Terceira Tech Island. É certo que pode não resultar como tantas outras coisas feitas com a melhor das intenções, com o maior dos empenhos e dedicação, e que acabaram por colapsar. Há sempre uma variável que não controlamos ou desconhecermos. Mas, não arriscar não é solução.

Podemos não concordar com tudo o que é preconizado pelo TTI ou com alguns dos seus pressupostos. Podemos até nem concordar com a forma como será materializado ou ter dúvidas relativamente ao seu financiamento, à forma como serão distribuídas as casas ou até mesmo à sua propriedade. Podemos não gostar da pessoa, ou das pessoas, que o gizaram e que são o seu rosto. No entanto, chacinar um projeto na sua totalidade só porque sim é sinal de fraqueza, de mesquinhez e de cegueira política que prefere valorizar os interesses pessoais e partidários em detrimento das necessidades da comunidade. Melhor do que reduzir este e outros projetos a cinzas seria procurar melhorá-lo, acrescentando soluções, propondo alternativas e utilizando os meios disponíveis para, movendo as influências possíveis, fazer com que se tornasse uma realidade. Seria bom para todos. Até para aqueles que procuram um lugar elegível nas listas das próximas eleições regionais e nacionais que, acreditem ou não, já mexem… e de que maneira! Bem sei que as direções partidárias, à exceção do CDS-PP, não iriam gostar. Mas sei que os terceirenses os iriam apoiar. Na realidade, são esses que contam.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

manhãs de pai… e de mãe

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Não é preciso despertador. A Amélia transformou-se num ótimo substituto. É a primeira. O seu choro, concentrado naquele pequeno corpo de bebé de quase dois anos, consegue encher a casa inteira e acordá-la. O pai e a mãe acordam logo a seguir. O Jorge, apesar de dormir a escassos metros da irmã, aguenta mais tempo. Adora a cama!

Habitualmente, a seguir ao choro agudo, vem a primeira palavra do dia “Mãe!” Quase sempre começa por aí, por vezes com variantes. “Mãe… mãe… mãe… pai!” Porra! Ela lembrou-se que eu existo. Faço de conta que não ouvi… “Pai!” Não ouvi nada. “Pai!” Tenho que ir à casa-de-banho. “Pai!” Vai lá tu que eu tenho de me vestir. “Pai!” Acabo por ceder.

Ainda descalço, com o cabelo amassado pela almofada e ramelas nos olhos, desço as escadas. Entro no quarto. Ela espreita por entre as grades da cama. Minha princesa! “Sai!!… Mamã…” Bem achava que não deveria ter sido eu. Da próxima nem me levanto… Que bela desculpa!

A mãe aparece. Tira-a da cama. Segura-a no colo. Troca de fralda. O quarto inunda-se de um odor pestilento. O pai já está longe. “Não quero!” ouve-se. Tem de ser. Choro. Tens que sair da cama. Berros. “Fico em casa.” Vamos comer. “Não quero comer.” A mãe vai fazer papa para a Amélia. “Não.” Então sai da cama e vem comer com a Amélia. “Ela não quer comer papa.” Sai da cama.

A irmã já tem à sua frente a tigela com a papa de cerelac. “Ela não come papa.” Tenta tirá-la. A mãe sai em socorro da filha. Gritaria. O pai ouve e vem ver o que se passa. O rapaz tem mau acordar. Pega na filha e dá-lhe a papa. A mãe prepara a papa para o irmão de três anos. “Não é essa!” Qual é então? “É a da Amélia!” A mãe pega no saco de cerelac e junta-lhe leite. “Essa tigela não é a minha.” A mãe vai buscar a tigela azul. “A papa está mole.” A mãe junta-lhe Nestum. Queres ajuda? “Não! Eu como sozinho.” Que porcaria. Limpa a boca!

E é hora de vestir. Vamos vestir. “Não quero vestir.” Tem que ser Jorge. “Vou assim para o colégio.” Não vais de pijama para o colégio. “Vou sim.” Não, não vais. O pai pega no Jorge. Ele grita, chora, esperneia. Dá-se início ao procedimento. Primeiro, despir. As calças, as meias, a camisola, a fralda. É só chichi. Menos mal. Depois, vestir. As cuecas, a camisola para começar a ficar quentinho, as calças, as meias, os sapatos… “Não quero os sapatos!” Jorge, tens que calçar os sapatos. “Não quero os sapatos!” Não podes ir descalço para o colégio. “Quero os croques.” Who cares!?!…

Pronto, vamos embora?! “Eu fico.” Sabes que temo que ir embora. “Quero ver o Bingo e o Rolly!” Agora não é altura para ver televisão. “Quero ver os PJMasks.” Temos que ir embora. “Quero ver os Super Wings.” Vamos chegar tarde. “Quero ver a Patrulha Pata!” Quando voltarmos do colégio, vês. “Quero ver a Lady Bug!” Jorge, o pai vai chegar primeiro ao carro. “Eu vou chegar primeiro ao carro do pai!” O pai abranda o passo. Deixa-o ir abrir a porta. O pai ajuda. Ele entra para o banco de trás. Senta-se. O pai ajuda a apertar os cintos.

O pai senta-se ao volante. Roda a chave. Pé no acelerador. O carro entra em andamento. A viagem não é muito longa. O Jorge conta-me as histórias do CatBoy, do Romeu, do Chase e da Lady Bug – que também dá saltos – transportando-me para o mundo dos seus super-heróis.

Chegamos ao colégio. Catboy, supersalto de gato! – diz o pai. O Jorge ri-se e, com aquele salto que só ele e o seu herói sabem dar, sai do carro. Vai feliz e já ninguém se lembra da birra da manhã.

“Three Billboards Outside…”

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Como uma praga instalada de assalto, as rotundas das nossas cidades têm sido invadidas por cartazes publicitários. A falta de qualidade gráfica de muitos deles, o seu estado de abandono ou a inexistência de uma manutenção regular fizeram destes alegados símbolos do desenvolvimento civilizacional o postal que marca a entrada de Angra ou da Praia.

Na cidade património, tão escrupulosa na exigência do cumprimento das normas que preservam o título atribuído pela UNESCO, não é possível ver o Monte Brasil ou a Fortaleza Filipina a partir de nenhuma das rotundas da circular. Angra dá-nos as boas vindas com um monte de ferro-velho, escondendo-se à sua sombra. Bem vistas as coisas, tal facto não causa grande estranheza se tivermos em consideração o que se tem passado na Praça Velha com a montagem e desmontagem de barracas que, mais cedo ou mais tarde, poderão transformar-se em estruturas fixas. Sempre se poupavam uns trocos…

A este propósito, partilho convosco um episódio ocorrido comigo há uns meses, num domingo à noite, junto aos Barateiros. Decorria uma daquelas feiras enclausuradas em tenda. Quando virava a esquina para a rua Direita, fui abordado por um turista que, em inglês, me pergunta “where is the downtown?”. A princípio estranhei a dúvida por me parecer ter uma resposta óbvia. No entanto, não quis deixar o visitante sem a informação e lá lhe disse “Here is the downtown and this is the main square!”. O homem olhou para mim com ar de espanto, por momentos nada disse, olha para a barraca, sorriu, e lá disse “ok…!”, seguindo rua Direita abaixo. A sua expressão dizia tudo. Se este acampamento cigano é a “downtown”, como será o resto?! “My God!!”

Infelizmente, este gosto pelas barracas não é um exclusivo da cidade património da Humanidade. A cidade de Nemésio também tem um fascínio por este tipo de estruturas amovíveis. Monta barraca, desmonta barraca, monta barraca, desmonta barraca. É este o corrupio rotineiro da cidade da Praia só interrompido pelo monta e desmonta mastros de iluminação. É bem verdade que a Praça Francisco Ornelas da Câmara já perdeu, há muito, a nobreza que deveria ter e que a caracterizava. As últimas intervenções urbanísticas revelaram-se um desastre, a Praça transformou-se num mostruário a céu-aberto de floreiras, bancos-de-jardim e papeleiras e o edifício onde funciona o secretariado das festas é a imagem do estado de degradação a que a cidade chegou. As barracas, ao menos, têm o condão de o esconder, num processo semelhante à varredela para debaixo do tapete que acaba por levar consigo o que de bom vai aparecendo em frente da vassoura. Vai a estátua, vão os Paços do Concelho, vai a dignidade da cidade.

As rotundas de acesso à Praia também foram invadidas pelos marcianos publicitários. Terminados os períodos eleitorais, passada a época natalícia, muitos desses outdoors estão abandonados. Apresentam restos de anteriores campanhas (políticas e publicitárias) e esperam por novos investidores. De certa forma, espelham o atual estado de coisas. Esperam que alguém lhes ponha a mão. Deixar aquilo para ali ao abandono e a degradar-se é um mau serviço que se presta à cidade. Bem sei que geram receitas, mas são a imagem que nenhum de nós pretende para a ilha. Retirá-los de vez, mudarem de sítio ou dar-lhes um novo propósito é uma opção que tem de ser feita. Como está é que não faz sentido. Por mim, seriam removidos. São um conceito ultrapassado.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A imagem que ilustra este artigo foi captada esta manhã na rotunda do Bairro de Nossa Senhora de Fátima (Joaquim Alves) à entrada da cidade da Praia da Vitória. Só nesta rotunda existem mais três cartazes…

 

fechou a Base, veio a Ryanair

Shoppers carry Primark bags in London

Já de tudo se comprou na Base. Desde televisões a máquinas-de-lavar, passando por calças-de-ganga, sapatilhas, óculos-do-sol ou relógios, até ao ketchup, maionese, coca-cola e whisky. As lojas americanas – os BX’s – forneciam a ilha inteira. Até há relativamente pouco tempo, não havia casa terceirense que não tivesse um eletrodoméstico americano, que não vestisse calças-de-ganga da base ou que não oferecesse, no Natal, aos filhos, brinquedos comprados na chamada “América pechinchinha”. Nas tascas era frequente encontrarem-se os refrigerantes que algum amigo, com cartão, conseguia comprar e os revendia “cá fora”. O mesmo se passava com os chocolates das cestas dos vendedores de batatas-fritas e pipocas ou mesmo com bidons de gasolina que percorriam as canadas do Ramo Grande e abasteciam algumas máquinas aí estacionadas.

Esta situação levou a que por diversas vezes se exigisse ao Governo português que limitasse o acesso dos portugueses a essas lojas. Que proibissem a venda de produtos americanos aos portugueses e que a sua revenda, “cá fora”, fosse fortemente punida. Dizia-se, diziam as organizações habilitadas para o efeito, que esta situação prejudicava fortemente o comércio local. Que era concorrência desleal. E era-o, de facto. Enquanto os terceirenses, em pessoa ou através de intermediários, se abasteciam na Base, gastando lá os seus escudos transformados em dólares, não o fazia cá fora. O que era deveras interessante de ver, eram os favoráveis ao encerramento das lojas com os carrinhos-de-compras cheios, sempre que a Força Aérea lhes oferecia a desejada senha que os permitia entrar no BX. Bem prega Frei Tomás…

A Base fechou os portões e as lojas americanas fecharam as portas. Instalou-se o caos na Terceira e a economia cai a pique.

Entretanto, chegaram as low-cost e com elas o turismo. Os preços das passagens aéreas baixaram de forma drástica, até mesmo na SATA e na TAP. Quem haveria de dizer quer um dia seria possível ir a Lisboa por escassos 134€, no máximo. Como é bom o nosso Governo! A Ryanair era o milagre que todos esperávamos. Isto agora é que vai ser ver turistas todo o dia nas ruas, a comerem nos nossos restaurantes e a frequentarem os nossos cafés. A indústria hoteleira tem dificuldade em acompanhar este boom de visitantes e estes novos americanos pagarão as rendas que se deixou de receber aquando da partida dos yankees. Nasce a nova galinha dos ovos de oiro: o alojamento local… até ver!

Tal afluxo de novos visitantes trazidos pela low-cost de serviço não teve reflexo na dinamização do comércio tradicional, contrariamente ao que sucedeu na restauração e na hotelaria. Antes pelo contrário. A descida dos preços das passagens aéreas permitiu que os terceirenses tivessem maior facilidade em se deslocar ao exterior, a Lisboa e ao Porto. Agora é muito mais fácil ir às compras ao Colombo, ao Vasco da Gama ou ao Norte Shopping com a vantagem de, ao mesmo tempo, se poder ir ver um jogo do Benfica, do Sporting ou do Porto ou mesmo assistir a um megaconcerto no Altice Arena.

Já não precisamos de fazer compras na Terceira. Vamos diretamente ao continente. Em alternativa, podemos ainda comprar online e nem precisamos sair de casa. Contudo, não podemos ser como os tais que exigiam o encerramento do BX e depois iam lá às compras. Não podemos dizer que não se vê ninguém nas lojas quando nós, à primeira oportunidade e agora é fácil, não fazemos compras no nosso comércio tradicional e preferimos gastar o dinheiro em Lisboa.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

a vitória da ignorância

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Há três anos, mais concretamente a 24 de janeiro de 2015, o semanário Expresso publicava na sua secção de ciência um artigo cujo título era uma questão: “Necrópole romana descoberta nos Açores?”.

Virgílio Azevedo, o autor do texto, referia-se à Terceira como sendo “uma ilha misteriosa” fundamentando a adjetivação com a apresentação de alguns dos achados arqueológicos ocorridos na ilha e que, alegadamente, serão pré-portugueses. A coluna romana encontrada em Angra, as construções megalíticas da Grota do Medo, o columbário romano das Lajes e os hipogeus do Monte Brasil são os exemplos apresentados.

Não era a primeira vez que vinha a público a questão dos achados arqueológicos na Terceira. Aliás, já em 2013, por iniciativa do PPM, a Assembleia Legislativa da Região recomendava ao Governo Regional que promovesse “o estudo, de natureza interdisciplinar, e com recurso à recolha de material que permita estabelecer a sua datação, dos achados arqueológicos realizados recentemente na Grota do Medo, no Monte Brasil e na Ilha do Corvo”. À época, ainda não era conhecido columbário das Lajes.

Cinco anos volvidos desde a recomendação do Parlamento, três anos depois do expresso dar projeção nacional ao tema e quase um ano depois da National Geographic ter transmitido um programa em que os achados da Terceira mereceram destaque, por cá, o assunto, se não morreu, está em coma profundo tal é o silêncio que à sua volta se estabeleceu.

Este parece ser um tema tabu para o Governo. Não consigo compreender porque razão. Não entendo o motivo que leva as entidades competentes a não estudar o caso, a não realizar prospeções ou mesmo a assumir que, por razões políticas, não pretende saber o que foi encontrando. Qual o medo? Qual o problema em descobrir-se que, antes dos portugueses, outros povos por cá andaram? Que problema existe em questionar a história e em reescrevê-la se for esse o caso?

A provarem-se as hipóteses que têm sido apresentadas como justificativas da existência dos diversos achados arqueológicos encontrados, outras páginas seriam acrescentadas à nossa história sem que, no entanto, o período pós-descobertas fosse abalado. Antes pelo contrário. Sabendo que outros cá estiveram e não tiveram capacidade para se implementarem e permanecerem de forma duradoura, a iniciativa e o trabalho desenvolvidos pela Coroa Portuguesa seriam certamente valorizados, como valorizado seria o nosso património histórico, cultural e arqueológico. A dificuldade, contudo, seria saber o que fazer com ele já que àquele que oficialmente é valorizado, na prática, é como se não existisse.

Não podemos continuar a olhar para as coisas e ignorá-las só porque a iniciativa não foi nossa. Não podemos continuar a fugir às questões só porque, na discussão, podemos “perder”. Este é mais um daqueles assuntos é que não deverão existir vencedores nem vencidos. Ou melhor, é mais daqueles assuntos em que, se nada for feito, se não for devidamente estudado, haverá um único vencido, o povo açoriano, e uma vencedora, a ignorância, que se arrisca a fazer o pleno…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

abrir a rua de Jesus ao trânsito

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Abrir ou não abrir a rua de Jesus ao trânsito é um daqueles assuntos que, de quando em vez, se aborda na cidade sempre que da sua revitalização se fala. Principalmente os comerciantes. Contudo, a nível público e oficial, esta é sempre uma daquelas matérias tratada pela rama. Dão-se umas opiniões vagas de forma a não haver comprometimento. A razão de tal acontecer só é justificável por incapacidade de se assumir uma posição clara que, acontecendo, vai necessariamente provocar algumas reações negativas. É o normal. Dificilmente se encontram soluções que agradem a todos. Infelizmente, este é mais um daqueles assuntos em que se prefere empurrar com a barriga para a frente em vez de o discutir abertamente, colocando em cima da mesa todas as alternativas possíveis, avaliando os benefícios e as desvantagens de cada uma delas e, no fim, optar e implementar a solução que melhor serve os interesses da cidade, da rua e dos empresários que nela investem. Tal nunca foi feito.

No artigo que aqui publiquei na semana passada sobre o mercado municipal da Praia levantei algumas questões que com ele estão relacionadas, mas que implicam diretamente com uma solução para a rua onde se localiza. Essas mesmas perguntas devem ser feitas quando olhamos para a rua de Jesus e tentamos descortinar uma alternativa para o seu atual estado.

Em primeiro lugar é imperioso saber-se se a rua de Jesus se deverá manter, ou não, como o eixo principal da cidade, aquilo a que noutras localidade se chama “a baixa da cidade”. À partida, pode parecer irrelevante esta questão por a resposta parecer evidente. “Claro que é a rua principal da Praia!” dirá a esmagadora maioria das pessoas. Será? Será que a rua de Jesus ainda é o centro da Praia? Ou este centro já se transferiu para a rua da cidade de Artesia ou para a rua da Graça? Se assim foi, que papel tem a rua de Jesus neste novo contexto? Centro histórico? Área comercial? Polo de atração cultural? Serviços? E como se levam as pessoas até lá? O que fará com que as pessoas saiam de sua casa e se dirijam ao “centro histórico” da Praia da Vitória? A este propósito, também não será descabido definirem-se os limites deste “centro histórico”, mesmo que aproximados e flexíveis.

Geográfica e toponimicamente a rua de Jesus começa no largo do Conde da Praia (da Luz) e termina na praça Francisco Ornelas da Câmara. Quando a rua estava aberta ao trânsito, o eixo da cidade começava no largo da Luz e terminava no largo José Silvestre Ribeiro, sendo possível percorrer todo o centro da cidade de uma só assentada. Contudo, a opção política de encerramento da rua ao trânsito fez com que a rua ficasse dividida em duas e a rua da Alfândega se transformasse numa artéria secundária. Situação esta que se agravou com o encerramento ao trânsito da nossa praça principal. Eu diria que esta é uma situação anti natura. Não é por acaso que, nas festas da Praia, os cortejos de abertura, marchas e todos os outros começam no largo da Luz, descem a rua de Jesus, atravessam a praça Francisco Ornelas, descem a rua da Alfândega e se dirigem à avenida. Este era, aliás, o percurso das urbanas quando, em tempos, atravessavam o centro da cidade. Este é o percurso natural da Praia.

Resta, por isso, pensarmos bem naquilo que queremos para este caminho. Com gente ou sem gente. Com comércio ou sem comércio. Com carros ou sem carros. Com urbanas ou sem urbanas. Coberto ou descoberto. Com rua ou sem rua.

Até lá a rua de Jesus vai-se arrastando e com ela a cidade e a sua vida.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

um mercado vazio

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O mercado municipal da Praia da Vitória é um daqueles lugares onde a negligência dos decisores públicos é bem evidente. Não me refiro às meras operações de limpeza ou de lavagem de cara, tão simples de se fazerem, bastando para tal incluí-las no circuito de laboração da Praia Ambiente. Refiro-me àquilo que poderia ser e não é. Refiro-me à vontade de fazer qualquer coisa com aquele espaço. Refiro-me à necessidade de se avaliar a pertinência da sua existência enquanto mercado.

A praça do mercado é o retrato da terra que o acolhe. É inconcebível idealizar a vida de uma cidade sem um local onde se comercializem os produtos frescos, locais, tradicionais. Em tempos foi o local onde a esmagadora maioria dos praienses ia comprar as hortaliças, a carne, o peixe ou a fruta, em complemento com a Tamar, o Super Luso ou a Casa Costa, onde se vendiam os produtos de mercearia e utilitários para o lar.

Com o tempo a praça foi perdendo importância, que foi sendo ganha pelas modernas superfícies comerciais como o Modelo Continente ou o Supermercado Guarita, restando ao centro histórico o supermercado da Graça com o seu mercadinho de rua, que vai animando o triste largo de Jesus em dias de bom tempo, ou a Essência dos Açores, junto ao mesmo largo moribundo, e que comercializa os nossos produtos locais.

O mercado municipal, mesmo com as obras de modernização realizadas no início do século, tem tido grande dificuldade em reafirmar-se ou em reconverter-se. O estacionamento é difícil e, apesar de se procurar a diversificação do espaço e dos espaços, algo parece não funcionar e as opções nem sempre têm sido as mais adequadas. O local é agradável, acolhedor e também não chove lá dentro. Alguns espaços teimam em continuar vazios e mesmo a existência do simpático Café da Praça não faz com que as pessoas se sintam atraídas a lá entrar. Valha-nos o dia de São Valentim ou o de Finados para ver a nossa praça cheia de gente com o Tiago a não ter mãos a medir na venda de flores e grinaldas.

A verdade é que o centro urbano tradicional tem visto a sua área a reduzir-se progressivamente e, hoje, falar da rua da Jesus e da sua dinamização é falar do troço entre a Praça Francisco Ornelas da Câmara e o antigo BCA que, com o seu encerramento, corremos o risco de ver o centro histórico ficar ainda mais reduzido. Urge uma aposta forte e de inovação para a principal rua da cidade onde o mercado municipal seja parte integrante e não um fardo que tem de ser carregado até se autodestruir sem que ninguém olhe por ele. Atualmente, é um daqueles sítios que, ao passarmos por ele, nem olhamos, como se de um mendigo se tratasse. Preferimos fazer de conta que não existe.

Há uma dúzia de anos, houve até quem já tivesse proposto a sua transferência para outra zona da cidade tornando-o ainda mais periférico. Felizmente, tal não aconteceu. É ali que deve manter-se. No centro da cidade. Na rua de Jesus. Resta saber, no entanto, se é vontade de todos que a rua de Jesus se mantenha como o centro da cidade, se a rua de Jesus continue a ter início no largo da Luz ou se deva permanecer fechada ao trânsito. Ninguém sabe…

Quanto ao mercado municipal, parece tratar-se de um não assunto, sem soluções e sem propostas. Também é só mais um…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

Terceira tóxica

Quem, nas últimas semanas, meses até, seguiu as notícias locais – cá da ilha – ficará com a ideia de que a Terceira se tornou numa espécie de Chernobyl do Atlântico, tantas são as notícias, reportagens e paixões sobre a presença norte-americana nas Lajes e o rasto ambiental deixado pela superpotência estrangeira.

O que motiva as páginas e páginas de relatos escritos sobre esta matéria não é assunto que me caiba a mim julgar ou comentar. Quem sou eu? Um leigo nestas questões de ciência ambiental. A verdade é que muito do que por aí circula tem por base opiniões de outros tão

leigos como eu, rareando as vezes em que o assunto é tratado por verdadeiros especialistas avalizados por entidades competentes e reconhecidas pela comunidade cientifica internacional. Se, por exemplo, eu fosse porteiro da NASA – com todo o respeito por quem ocupada essa nobre função – não faria de mim um astronauta, mesmo que muitas vezes sonhasse andar na Lua.

A contaminação dos aquíferos da ilha Terceira é um assunto sério – muito sério – e não deverá ser tratado com a ligeireza com que muitas vezes é abordado. A questão é prioritária e deverá constituir o centro da ação política nacional no que aos Açores diz respeito. Com isto não

quero dizer que o Governo Regional e a Câmara Municipal devam ficar fora do processo. Antes pelo contrário, têm a obrigação de alertar e pressionar Lisboa no sentido de encontrar a melhor solução para este problema que não poderá ser visto como uma mera arma de arremesso político-partidário, mas um dos temas que exige a união de todos, incluindo a própria sociedade civil que tantas vezes é ignorada.

Caberá necessariamente à Administração Norte-Americana resolver o assunto e assegurar o processo de descontaminação. Disso não restam quaisquer dúvidas. Mas cabe-nos a nós fazer a outra parte, protegermo-nos e garantirmos que, para além da hecatombe económica

decorrente do processo de redução do contingente militar americano nas Lajes, não caia sobre nós uma segunda hecatombe que destrua o que resta da nossa frágil economia e mate, à nascença, a nova galinha dos ovos de ouro – o turismo –, bem como os setores tradicionais.

Vendemo-nos como Natureza pura, como o paraíso na Terra, como paisagem verdejante e garantia de melhor frescura nos lacticínios, na carne ou no mel. Infelizmente, se levarmos a sério tudo o que se tem dito e escrito sobre a contaminação, todos os slogans e epítetos usados para adjetivar a ilha, não passam de mentira e falácia. Tudo estará contaminado, a água que bebemos, a carne e as verduras que comemos, o leite e o queijo, até o ar que respiramos. Será mesmo assim? Será que a contaminação da ilha atingiu tais proporções? Os jornais dizem que sim. As entidades oficiais dizem que não. Os especialistas não se sabe o que dizem.

Com o andar da carruagem, e se continuarmos neste registo de dizer o pior que temos sem nos preocuparmos a propor e a reivindicar soluções, qualquer dia nem precisaremos de procurar um bode expiatório para o culpar de nos boicotar o futuro ou de nos impedir de

crescer e desenvolver. Nós fazemos isso por ele. E já provámos que, pelo menos nisso, somos muito bons!

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

31 de dezembro

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31 de dezembro deveria ser declarado o dia mundial dos desejos, da boa-vontade e da iniciativa, também modernamente conhecida por empreendedorismo. Este é o dia em que se fazem dezenas de planos para o novo ano, que se renovam votos e que se sonha acordado. Aquela noite é que todos somos muito felizes e irradiamos alegria e boa disposição.

Para o ano é que vai ser. Para o próximo ano é que vou conseguir fazer tudo o que era para ter feito nos últimos dias – 364, para ser mais preciso – mas que só hoje me lembrei que, há um ano, tinha essa vontade louca de me realizar.

Para o ano não vai ser assim. Mas não amanhã, que não me dá jeito nenhum. Há de ficar para a próxima segunda-feira…

A todos quantos têm pachorra e paciência para me lerem, votos de um bom ano de 2018. Melhor dizendo, votos de um excelente dia 1 de janeiro. É aí que tudo começa!!

imoralidades de fim de ano

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A dificuldade de entendimento entre si por parte dos partidos políticos é conhecida. Não são raras as vezes que propostas que beneficiariam os cidadãos e o país se vão arrastando nos parlamentos nacional e regional à espera da negociação de detalhes, de desamuos ou, simplesmente, do momento certo para serem aprovadas, tornadas públicas e alguém colher os louros para beneficio eleitoral, a prioridade das prioridades.

Este final de 2017 não foi exceção, à exceção do entendimento entre as forças partidárias, excluindo-se o PAN e CDS-PP. Sim, trata-se de uma exceção que só é possível quando se legisla em benefício próprio. Um clássico.

À porta fechada, sem atas ou quaisquer outros registos, PS, PSD, BE, PCP e PEV, acordaram em alterar-se a lei de financiamento dos partidos. E não foram precisas muitas reuniões. Bastaram nove. É verdade que foi de abril a outubro deste ano o que significa que, enquanto o país estava a arder e enquanto, em público, havia acusações mútuas, incluindo referências a caráter e seriedade, na sombra, fora da vista dos cidadãos, estas cinco forças partidárias conseguiam conciliar propostas e pontos de vista com o intuito de alterar uma lei que os permita financiarem-se como quiserem e sem limites e, pasme-se, pedirem a restituição total do IVA para todas as aquisições de bens e serviços. A nova lei permite, ainda, que pessoas particulares possam pagar despesas de campanha a título de adiantamento.

Sou favorável ao financiamento dos partidos. Sem eles, apesar de tudo, o sistema democrático não funcionaria. Logo, por isso, têm que ter condições para fazer o seu trabalho. Divulgar a sua mensagem, debater a causa pública com os eleitores e estarem em permanente contacto com eles. Claro que este dinheiro não deve ser usado para comprar carros de alta cilindrada, pagar motoristas particulares, ter chefe de gabinete, adjuntos e assessores, nem tão pouco pagar as chamadas despesas de representação de luxo. Isso é para a Raríssimas e, quero crer, na minha infinita ingenuidade, que tal não acontecerá nos partidos que conheço ou julgo conhecer.

Esta foi a pior forma de acabar 2017. Mas o momento de aprovação desta alteração legislativa terá sido meticulosamente escolhido e acertado entre as partes. O período de festas natalícias em que toda a gente anda distraída com presentes e viagens, com a família, as crianças e a confeção de guloseimas, bacalhau e peru é o melhor para se fazerem coisas destas. Imorais e de afrontamento aos portugueses que, contrariamente ao discurso oficial e de propaganda, ainda não saíram da crise, temendo pela chegada de uma nova. Enquanto o povo anda distraído, à socapa, a classe política, eleita por nós e por nós sustentada, não se coíbe de, mais uma vez, nos vir ao bolso – isto para usar uma expressão tão ao gosto do PCP, BE e PEV que tanto gostam de chamar nomes a tudo quanto se mexa.

Portugal tem que deixar de ser uma gigantesca Raríssimas onde se financia, com dinheiros públicos, luxos e mordomias. Os partidos políticos, infelizmente, têm sido disso um bom (mau) exemplo. Endividados até aos colarinhos, criam leis para resolverem os seus problemas e passarem a ter as suas contas a zero. O comum dos mortais, esse, tem mais é que pagar tudo o que deve ou, em alternativa, tem que vender a casa ou passar a viver abaixo das suas possibilidades.

Esta alteração à Lei ainda não foi aprovada pelo Senhor Presidente da República. Fiquemos à espera da sua sensatez.

Bom ano de 2018!