um tesouro escondido… na base

Ontem fui à base e saí de lá deprimido. Vivi ali dentro durante cerca de vinte anos e não consigo ficar indiferente ao cenário desolador que lá encontrei. Custa-me ver a casa onde vivi quase abandonada, as ruas vazias, dois ou três carros estacionados à porta dos serviços e a relva por cortar em grande parte das áreas residenciais. O meu destino, no entanto, era o terminal militar. O cenário não era muito diferente. As prateleiras do bar estavam vazias e, não fosse a cara conhecida do empregado, diria que entrara num outro mundo ao estilo daquelas séries de fotografias de locais abandonados, maioritariamente no leste europeu, que circulam pela internet.

O edifício tem aquela monumentalidade que sempre me fascinou. Os grandes pilares revestidos a mármore negro transmitem-nos o dramatismo que as construções do Estado Novo sempre pretenderam revelar. Durante muitos anos aquele foi o terminal civil e militar da Terceira. Já não tem a porta giratória que dava acesso à pista. É curioso que para muitos daqueles que cruzaram o terminal da base, aquela era a última coisa que viam dos Açores antes de partirem para os Estados Unidos onde tantas portas giratórias os esperavam. A antecâmara para o que mais tarde iriam encontrar.

O pavimento de toda a sala de espera é em calçada portuguesa naquele motivo ondulado tão conhecido e característico do que é português. É o mesmo padrão que encontramos na Praça do Rossio em Lisboa, no Calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro, na Praça do Leal Senado em Macau ou na Calle Caridad na ibérica Olivença. Mas este chão monumental é só o aperitivo. O que me levou de regresso àquele edifício que tão bem conhecia e que agora me parecia estranho era outro motivo. Diria mesmo que um dos tesouros mais bem escondidos em toda a Região e que é, simultaneamente, um dos mais desconhecidos e ignorados. Refiro-me ao imponente painel de azulejos de um dos maiores mestres da cerâmica portuguesa do século XX, Querubim Lapa. É curioso que, mesmo a nível nacional e numa pesquisa na internet, esta é uma obra que raramente é abordada. Excetuam-se uma referência na pagina da Câmara Municipal de Lisboa, sem imagem, e uma pequena fotografia monocromática anotada no “Inventário do Património Imóvel dos Açores – Praia da Vitória“ editado pelo IAC.

O motivo do painel é o apropriado para o espaço. Conta uma história. De um lado, a dureza da vida no mar, do trabalho, a pesca. Uma mãe beija o seu filho. Do outro, sob o sol radioso de Querubim e da luminosidade que entra pela janela do edifício que lhe fica contígua, o mesmo casal acena com um lenço branco. Despede-se. Agora, o mar separa-os da vida anterior. Parece que esta nova terra é de fartura… As várias tonalidades de azul e de amarelo dominam toda a cena. A obra está datada e assinada. “Querubim 1961 V.L.”. Só de pensar que esta obra produzida pela fábrica de cerâmica da Viúva Lamego esteve prestes a desaparecer…

Esta é uma obra única nos Açores.  Arriscaria dizer que é a mais importante existente na Região no que respeita a artistas plásticos portugueses, não açorianos, do século XX, e não consta que esteja classificada ou sequer protegida.

Da obra de Querubim Lapa (1925-2016) destacam-se os painéis para a Reitoria da Universidade de Lisboa, para a Pastelaria Mexicana, para o exterior do Casino Estoril ou o revestimento da estação Bela Vista do Metropolitano de Lisboa e nós, surpreendentemente, também temos uma obra dele. Sabiam disso!?

rua de jesus na califórnia

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A Rua de Jesus agora chega mais longe e noutras plataformas.

Ontem, pela primeira vez, a crónica semanal foi transmitida via rádio para as comunidades açorianas radicadas na Califórnia através da Radio Portugal USA. Agora, semanalmente, nas tardes de sábado, esta Rua de Jesus fará a ponte entre o nosso Atlântico e os nossos compatriotas que vivem banhados pelo imenso Pacífico.

Obrigado pela oportunidade e por mais este desafio!

festival de sopas

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O dia era de Sol, mas a cidade continuava vazia. Tinha mais quatro ou cinco pessoas a circularem pela rua o que não era propriamente uma multidão. Aproveitei a oportunidade para falar com algumas pessoas, algumas delas comerciantes, e perguntar-lhes o que pensavam sobre aquele estado de coisas. Ninguém me soube apontar caminhos ou soluções. “Isto está uma desgraça, nunca se viu nada assim.” De facto! Apesar da retoma, a Praia não consegue descolar. Procuram-se culpados e alguém me diz que depois do sismo é que se deu um grande salto. As pessoas de Angra vinham cá acima às compras. Na altura, “coitados”, não tinham nada lá em baixo… Por essa altura a Praia tornou-se cidade e com essa distinção, a Praia tornou-se pujante. Só que isso já lá vai. Eram outros tempos, outro contexto, outras catástrofes.

Não há gente. É esse o sentimento mais frequente que existe por entre os habitantes da cidade e do concelho. Em 2011, de acordo com os Censos desse ano, residiam no concelho da Praia da Vitória 21086 pessoas. Num dia “normal”, em simultâneo, não circularão mais de 20 pessoas na rua de Jesus, isto para ser otimista. Onde andam todas as restantes? Que cataclismo foi este que afastou os praienses da sua cidade? Terá sido a descentralização desenfreada de serviços que fazem com que as pessoas não tenham de se deslocar à cidade e nela fazerem vida? A redução significativa da utilização de transportes públicos e o seu afastamento das praças principais? Ou a alegada urbanização da população que acha que é mais moderno comprar on-line? Infelizmente, no entanto, essa transformação de rural em urbano não se deu a todos os níveis, particularmente nos hábitos sociais.

A cidade é a imagem dos seus habitantes. Persistimos em chamar cidade à Praia porque gostamos muito dela e sabemos que é um ótimo lugar para viver. Contudo, temos noção que de cidade já só tem o nome. Falta-lhe a dinâmica, a urbanidade e a centralidade que uma cidade sede de concelho deverá ter. No período de pré-campanha eleitoral das autárquicas do ano passado desafiei as forças partidárias envolvidas a responderem à questão: “que centralidade se quer para a Praia?”. Ninguém respondeu ao desafio. Que pretensão a minha! Que ingénuo fui! Alguma vez os partidos políticos iriam responder a um simples cidadão com eu? Nunca! Principalmente quando a questão os obriga a pensar para além do imediato. A Praia não pode continuar a ser gerida para o já, para as questões pontuais muitas vezes sem quaisquer repercussões no futuro. Não pode ser gerida como uma mercearia em jeito de deve e haver sem ter em consideração que nela vivem pessoas e que essas pessoas têm filhos e que nem todas dependem dos resultados eleitorais. É preciso sabermos que terra queremos seja a nossa daqui por vinte anos. Qual a sua missão?

John F. Kennedy, em 1961, no seu discurso de tomada de posse, desafiava os americanos a fazerem algo pela sua terra. A frase é célebre e ficou para a História: “não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu país”.  Nós que tanto gostamos dos americanos (Donald Trump é só um incidente) talvez devamos olhar para ela – a frase – e refletir. Que temos nós feito para que a Praia saia do marasmo em que se encontra? Não tem gente? Não, não tem… e nós, ao menos, fazemos lá compras? Vamos aos cafés? Aos restaurantes? Talvez não. Nem sequer andamos na rua para baixo e para cima a polir calçada ao não ser que haja festival de sopas…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia foi retirada da página do programa Vitória.

sair do armário

Não consigo compreender esta mania de receber turistas com ranchos folclóricos ou grupos de homens vestidos de preto e chapéu a cantarem o pezinho. Tenho reparado que, desde que a Praia começou a receber navios de cruzeiro, esta cidade que sobrevive sobranceira ao mar e de costas para ele voltadas, teima em se agarrar ao passado e nele permanecer. Temos medo de ser genuínos e de inovar. Receamos mostrar quem realmente somos e a nossa capacidade criativa. Gostamos de transmitir a imagem que somos um povo simples, conservador, com aquele cheiro bafiento e salazarento de quem tem medo do progresso e de se abrir ao mundo. Aliás, é no Estado Novo que proliferam por todo o país este tipo de animação popular com o objetivo único de criar uma consciência nacionalista e transmitir a imagem romântica de que os antigos, pela vida simples que levavam, eram mais felizes do que nós. Não é por acaso que, num mesmo grupo, se misturam ricos e pobres em que os primeiros vestem os seus melhores trajos para conviverem “democraticamente” com os seus criados que, por sua vez, vivem alegres e contentes por serem trabalhadores a passar fome, mas vestidos de roupa imaculadamente branca como só o povo que trabalha a terra de Sol a Sol consegue ter. Isto não é verdade. A realidade não é esta. O mundo, o nosso mundo, não é assim. Infelizmente, é a imagem que continuamos a querer transmitir de nós próprios. E se dúvidas existem em relação a isto, basta olhar para os mais vistosos, ricos e alegres grupos folclóricos do mundo e perceber de onde vêm e que tipo de regimes existem ou existiam nos países de origem a quando da sua criação. Aliás, nem é preciso ir para longe, é só olhar para a nossa realidade local e vermos quando se deu o aumento exponencial do nascimento deste tipo de associações ou quando os apoios financeiros se tornaram uma prioridade na ação política.

Porque razão não mostramos a nossa realidade? A verdade. Porque razão gostamos tanto de mostrar aos outros uma coisa que não somos? Temos vergonha da Praia do século XXI? Do que hoje por cá se faz? Ou temos necessidade de criar esta fantasia para cruzeirista ver e pensarmos que isto é sempre assim? Enganarmo-nos a nós próprios? Porque razão algumas lojas só abrem em dia de cruzeiro ou montam banquinhas na banda de fora? Porque razão só os turistas de cruzeiro têm direito a ser animados e entretidos? É para esconder que nem sequer temos um museu para visitar? Uma galeria de arte? É para nos esquecermos que não temos como mostrar e divulgar a nossa História e o nosso passado – esse sim verdadeiro – sem ser numa pequena cerimónia a cada 11 de agosto com a qual os praienses nem se identificam?

Quem nos visita fica com a impressão de que não evoluímos culturalmente. Parece que não se faz música a não ser a charamba ou o pezinho. Que não existem artistas plásticos nas mais variadas disciplinas ou que o artesanato não é mais do que o alguidar de alcatra ou os aventais para garrafas de licor. Que não temos capacidade inventiva e criativa que nos torne diferentes e únicos nesta amalgama concorrencial em que se tornaram os Açores na captação de turistas. Se formos iguais aos outros, somos só mais uns. E nesse campeonato, já se percebeu, os outros nãos estão a dormir.

Sempre que escrevo um artigo como este é usual fazerem-me uma pergunta. É sempre a mesma. E qual a receita?! A receita também é só uma: ter coragem para ser diferente e assumir essa diferença. Também aqui é preciso não ter medo de sair do armário.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

Fotografia: Câmara Municipal da Praia da Vitória

la casa de papel

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Li algures que um dos fatores determinantes para o sucesso de “La Casa de Papel” é a originalidade do argumento. Até aqui, nada de novo. É normal que assim seja. Contudo, este argumento tem características especiais, os personagens são de uma riqueza estonteante e diversificada fazendo com que o espetador se apaixone por eles. O mesmo artigo acrescentava que um dos desafios de quem assiste à série consiste em encontrar o personagem com quem se identifica numa espécie de alter ego criminoso. Em conversa de almoço, os meus parceiros de refeição, dizem-me que não é bem assim, que não se identificam com ninguém. Não tenho qualquer dúvida que se um dia enveredar por uma carreira de produção de dinheiro – hipótese bastante remota – estaria bem no papel do Professor. Não seria fácil. Primeiro teria que encontrar um pai da mesma estirpe para me ensinar a arte de gizar tão perfeito plano e depois teria que encontrar a equipa. Nada que não se conseguisse nas redes sociais…

Ainda não vi a segunda parte. Mas a interpretação do Bella Ciao torna épico o momento que antecede o intervalo. Contra o invasor… resistir!

coroada de espinhos

O crescimento é lento. Por isso, demorarão alguns anos para que a minha parede de pedra fique coberta com esta planta verde que consegue sobreviver com a humidade existente no ar. Tecnicamente é uma Tillandsia aeranthos, cravo-do-ar para os amigos, e existe em abundância por estas terras açoreanas onde humidade é o que não falta. Hoje está sol! Um dia bom para apreciar estas plantas aéreas e vê-las crescer… se conseguirem!