vergonha e esperança

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Vinham investidores da Finlândia e seria instalado um data center. A cidade da Praia tornar-se-ia símbolo da inovação e do pioneirismo. Tudo aqui era exemplo para o resto dos Açores e do país. Falava-se em parcerias com tudo e com todos, criatividade, inovação. A Praia era a terra das novas oportunidades e seria a primeira a conseguir vencer os desafios que decorriam da saída dos americanos e do agudizar de uma crise que saía direitinha e sem espinhas da megalomania e dos devaneios de um primeiro ministro sem escrúpulos que fez da sua ambição desmedida a ruína deste país.

Na Praia da Vitória ainda não se chegou a tanto. Por enquanto. Mas os sinais são cada vez mais preocupantes. Quando tomei conhecimento do conteúdo do último relatório do Tribunal de Contas relativamente a uma auditoria realizada ao Município da Praia, confesso que fiquei sem saber como me sentir. Se triste, se contente. Foi uma mistura contraditória de sentimentos. A primeira reação, acreditem, foi de satisfação. Finalmente, uma entidade credível e respeitada vinha confirmar aquilo que ao longo de anos tenho vindo a denunciar e a chamar a atenção. Finalmente, depois de tantos anos a chamarem-me mentiroso, a chamarem-me tudo e mais alguma coisa – só eu sei o que ouvi pela cara fora – o insuspeito Tribunal veio dizer-me que a razão sempre esteve do meu lado e que o meu trabalho ao longo de doze anos não me dá motivos de arrependimento. Contudo, de imediato, senti-me triste. Triste por ver a minha terra, mais uma vez, nas bocas do mundo e pelas piores razões. Triste por perceber que a Câmara da Praia foi gerida para satisfazer interesses e ambições pessoais com consequências que ainda não conseguimos perspetivar. Quando foi criada a Praia em Movimento, de má memória, e quando se assinaram os acordos que previam transferências de milhões entre a câmara e a empresa municipal, a oposição fez questão de dizer que era o futuro da Praia que estava a ser hipotecado. Alguém disse que exagerávamos, que estávamos a ser catastrofistas e o que o mestre dos números, das contas e da gestão reinventada sabia o que estava a fazer. De facto, Roberto Monteiro sabia muito bem o que estava a fazer. Assegurava o seu futuro e as reeleições que se sucederam. A Praia, apesar de tanto dinheiro aqui circulado, transformou-se naquilo que é hoje. Um marasmo sem esperança e na iminência de ter que recorrer a um programa de ajuda financeira.

Na mistura de sentimentos contraditórios surgiu um terceiro. Vergonha. Senti-me envergonhado por ver como foi possível deixarmos que tudo isto se passasse por debaixo do nosso nariz ou bem à frente dos nossos olhos e nada fazermos para o evitar. Fomo-nos deixando ludibriar por fogos-de-artifício, remoção de placas de inauguração para serem substituídas por outras com o nome do pagador e manobras de diversão com assinaturas de protocolos, conferências-de-imprensa, debates sobre tudo e sobre nada. E aconteceu. Na Praia também aconteceu.

Agora é preciso que os praienses se unam e que, em conjunto, procurem – e encontrem – soluções para o seu futuro comum. Esta é oportunidade que temos para mostrarmos que a Praia, a nossa Praia, está acima de quaisquer interesses pessoais ou partidários. Exige-se para a Praia um pacto de regime, uma espécie de governo de salvação municipal que nos tire deste buraco em que nos enfiaram. Só temos que estar disponíveis e não ter medo de falar. Esse tempo parece já ter passado.

Air Center de migalhas

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Sempre desconfiei do Air Center. Sempre me cheirou a esturro, tanta era a embrulhada, a informação contraditória ou a deputada que disse, o ministro que negou e o presidente que nem dizia que sim nem que não. Bem podem anunciar concursos públicos, bem podem parecer preocupados com a situação económica da Terceira, bem podem gastar rios de tinta a elaborar planos de revitalização, projetos de instalação ou outra treta qualquer que o resultado, para a Terceira, é o do costume, o esperado. Migalhas. Tudo quanto aqui se faz ou se diz fazer acaba sempre por morrer no papel, nem mesmo morrer na praia faz sentido aplicar-se a mais este episódio de abandono e negligência relativamente à coisas desta ter. Seria uma ofensa para a Praia. Que mal fizemos nós? Que crime terão cometido os terceirenses para, de um momento para o outro, passarem a ser considerados persona non grata? Seremos nós portugueses de segunda categoria? Açorianos sem direitos?

“Antes morrer livres que em paz sujeitos” foi a expressão usada por Ciprião de Figueiredo ante a presença do invasor castelhano que, à época, dominava a ilha. Esta máxima acabou por ser incorporada, nos alvores da Autonomia, no brasão de armas da Região. Hoje é letra morta. Hoje, nem Região, nem Autonomia. Hoje, cada ilha trata de si e trata de viver por si. Solidariedade regional é coisa que não existe. Solidariedade nacional, ainda menos. Hoje, Autonomia é sinónimo de governo de alguns para alguns e de desculpa para a existência de uma espécie de aristocracia ou espécie de classe privilegiada com direitos acrescidos. Contudo, existem grandes diferenças entre a aristocracia de ontem e a de hoje, sendo que a principal consiste nas obrigações. Os aristocratas medievais tinham obrigação de defender o seu território e o seu povo. Exploravam-no é certo. Pagavam mal, quando pagavam. Os de hoje não defendem o seu território, não têm povo, só recebem e limitam-se a bajular. A ilha pouco interessa. A cidade nem para as compras serve.

A presença será simbólica. Foi isto que o ministro da ciência disse em relação à instalação do Air Center na Terceira, uma daquelas medidas que visavam atenuar os efeitos nefastos decorrentes da redução do efetivo militar norte-americano nas Lajes. Aliás, esta questão, que tanto ocupou noticiários televisivos, radiofónicos e impressos, começa a parecer uma realidade longínqua, algo que já passou e que já não vale a pena pensar. A verdade, porém, é que os cidadãos andam distraídos com o turismo e pensam ter encontrado a nova galinha dos ovos de ouro e que o futuro está garantido. Tomara que assim seja. Tomara que o fluxo turístico que se tem verificado na ilha se mantenha por muitos e bons anos. Tomara que o governo continue a pagar à Ryanair para manter as rotas para as Lajes e que a SATA não seja alvo de implosão. Tudo isto é artificial como bem sabemos. Mas enquanto as coisas correrem bem, apesar de andarmos a ser enganados, viveremos felizes e contentes e nem sequer piamos contra o que quer que seja não vá alguém tirar-nos este Rendimento Social de Inserção. Sim, isto é uma espécie de RSI para remediados e, tal como os outros, não o queremos perder e, tal como os outros, fazemos tudo, tudo mesmo, para o manter.

Ficaremos com umas migalhas simbólicas. E é mesmo disso que precisamos. Símbolos. Migalhas. Quando não se exige mais, é isso que se tem.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

quanto vale um saco de lixo

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A chamada fatura da água é aquele documento que, mensalmente, surpreende quem o recebe. A única coisa que a salva é o facto de ser bem mais percetível que a fatura da eletricidade, essa sim, uma espécie de roleta da sorte que nunca ninguém sabe quanto vai pagar e, pior do que isso, porque vai pagar, tal é a dificuldade em interpretá-la. Eu já desisti.

Voltando à água… esta é uma fatura muito mais simples (pelo menos na Praia) e, por esse motivo, facilmente se percebe que, abrindo ou não a torneira, à cabeça, se paga mais em tarifas (uma forma encapotada de taxa) do que em água consumida, isto numa casa com família de pequena dimensão. Tratando-se de comércio, onde praticamente não se abrem torneiras, então a diferença é abissal.

Que a água é um bem que deve ser pago é algo incontestável. Que os custos da recolha do lixo e do seu tratamento também devem ficar a cargo de quem o produz também é uma situação que ninguém coloca em causa. Contudo, contrariamente ao que acontece com o abastecimento de água, a contabilização dos resíduos urbanos produzidos é feita por estimativa em função da água que se consome. Ou seja, paga-se de lixo quer se produza muito, quer se produza pouco, quer se recicle, quer não se recicle, quer se reutilize, quer não se reutilize. Em suma, não se compensam as boas práticas ambientais. Não se incentiva a sua implementação.

Porque razão haverão as pessoas de reduzir o lixo produzido? Porque razão os munícipes devem optar por reciclar? Qual o motivo para que se reutilize em vez de deitar fora? É evidente que tudo é uma questão de consciência e de civismo, mas tudo é também um negócio e uma forma de ganhar dinheiro. As entidades oficiais são eximias na punição e na aplicação de princípios como o do “utilizador pagador” ou o “poluidor pagador”. O inverso, infelizmente, não acontece. O princípio de que quem cumpre, quem aplica boas práticas, deve ser beneficiado. Gostamos sempre de educar pela negativa, pela punição. Cidadão que não cumpre, paga. Cidadão que cumpre, paga. Câmara Municipal que recicla é elogiada, aparece na televisão e ganha prémios e logotipos para campanha eleitoral. Quem pagou isso? O cidadão cumpridor que paga o lixo do Município.

Felizmente, no entanto, já tudo está inventado e já foram criados sistemas de tarifação de resíduos que beneficiam quem cumpre e aplica no seu dia-a-dia boas práticas ambientais. Chama-se “Pay as You Throw”, uma iniciativa da União Europeia, e já aplicado em Portugal com a cidade de Guimarães como principal exemplo. Com este sistema só é pago o lixo indiferenciado que se produz, sendo o reciclável, se separado, recolhido de forma gratuita. Como é feita a triagem? Existem diversas vias. Uma delas consiste em distribuir pelas habitações e estabelecimentos comerciais sacos ou contentores de volume padronizado que permitirão, no momento da recolha, contabilizar a quantidade de resíduos produzidos por cada munícipe ou empresa. É um sistema simples de implementar? Talvez não seja. Mas é certamente um sistema mais justo e mais incentivador da aplicação de boas práticas ambientais. É certo que as receitas camarárias, por essa via, irão diminuir. As despesas também. E se é preciso fazer com que a TERAMB seja viável, não temos que ser sempre nós a pagar tudo. Já basta o que é eticamente irrepreensível.

25 de qualquer mês

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Habitualmente escrevo a minha crónica da rua de Jesus à quarta-feira. Ali bem em cima do acontecimento, uma vez que tenho de a enviar para o jornal, de preferência, até às duas da tarde desse mesmo dia. Escrevo-a, por isso, de manhã. Esta semana, apesar de não haver jornal na quinta – porque na quarta é feriado – cumpri o ritual do costume, até porque tenho de enviar a crónica para as rádios na América.

Quis o calendário que esta semana fosse 25 de abril, aquele dia emblemático que toda a gente, em todo o lado, fala de liberdade, de tolerância, de conquistas para os trabalhadores, do estado social, de paz no mundo e de beijinhos às criancinhas e carinho aos velhinhos. Nos últimos anos, as semelhanças entre o 25 de abril e o 25 de dezembro são cada vez maiores. Ambas as datas se vestem de verde e vermelho, em ambos os dias o mundo se enche de boas intenções, onde todos fazemos de conta que somos todos amigos, iguais, temos as mesmas oportunidades e o que importa são os valores. Esquecemos tudo o resto e fixamo-nos nos valores, esses sim a base de toda a nossa vida e que cumprimos a rigor e a preceito naquele exercício de hipocrisia que tão bem conhecemos e sabemos fazer.

Na mesa não faltam os doces, as iguarias, a fartura, os presentes em abundância e o peru que já não é morto de véspera, mas sim comprado embrulhado em plástico, sem identidade, abatido por carrasco desconhecido. Fazem-se peditórios, apela-se à solidariedade, à paz entre os homens e ouvem-se cânticos. Muitos cânticos. Ninguém sabe muito bem ao certo o significado das letras. Apelam a uma noite feliz e a um amanhecer com muitos presentes e com um mundo novo onde a abundância reina, a terra é de fraternidade e o Povo é quem mais ordena. Abrimos as portas da nossa casa e convidamos os amigos para que se juntem a nós e que com eles venham mais cinco para celebrarmos as conquistas de uma noite de céu estrelado e o nascimento do messias. Não importa se no dia seguinte nem nos cumprimentemos na rua e façamos de conta que nem nos conhecemos. As datas evocativas têm-se modernizado, transformando-se numa espécie de experiência de “one night only” em que só o momento interessa e que tudo acaba ao nascer do dia quando se passa pela farmácia. Foi bom, mas dali nada vai nascer… O essencial ficou de fora.

Falar de 25 de abril em 2018 é falar de corrupção e da falta de ética e de transparência. É curioso pensar-se que há alguns anos estes eram chavões do populismo e das oposições. Muitas vezes, eram palavras que se atiravam ao ar sem se saber muito ao certo a quem se dirigiam ou que rosto tinham. Não se falavam em nomes. Não havia certeza. Hoje sabe-se muito bem de quem se fala e do que se fala. Aparecem todos os dias na televisão e os seus discursos e atos são dissecados até ao osso por comentadores e jornalistas, mas não por responsáveis políticos que, quando excecionalmente o fazem, atiram a solução para a frente, para um dia, para refletir, para pensar. E todos bem sabemos o significado de “um dia…”.

A nossa democracia de 44 anos está doente. Sofre de uma crise identitária que substitui um sistema totalitário por um sistema de totalitários. Mudaram-se as pessoas, mantêm-se os privilégios de classe e a existência de um grupo que domina acima da Lei, onde a ética se tornou irrelevante e a falta de vergonha assumiu o lugar cimeiro da forma de estar. Tudo se faz às escondidas e de forma consensual sempre que o proveito é próprio. Felizmente, tudo se acaba por saber, mas eles não se importam e dizem que é legal, que cumpre a lei que eles próprios fizeram e aprovaram e isso é preocupante.

Daqui por uns dias é dia de Reis e vamos todos para a rua celebrar, nem que seja no primeiro arraial de tourada do ano. Feliz Natal e um Ano Novo cheio de prosperidades!

um tesouro escondido… na base

Ontem fui à base e saí de lá deprimido. Vivi ali dentro durante cerca de vinte anos e não consigo ficar indiferente ao cenário desolador que lá encontrei. Custa-me ver a casa onde vivi quase abandonada, as ruas vazias, dois ou três carros estacionados à porta dos serviços e a relva por cortar em grande parte das áreas residenciais. O meu destino, no entanto, era o terminal militar. O cenário não era muito diferente. As prateleiras do bar estavam vazias e, não fosse a cara conhecida do empregado, diria que entrara num outro mundo ao estilo daquelas séries de fotografias de locais abandonados, maioritariamente no leste europeu, que circulam pela internet.

O edifício tem aquela monumentalidade que sempre me fascinou. Os grandes pilares revestidos a mármore negro transmitem-nos o dramatismo que as construções do Estado Novo sempre pretenderam revelar. Durante muitos anos aquele foi o terminal civil e militar da Terceira. Já não tem a porta giratória que dava acesso à pista. É curioso que para muitos daqueles que cruzaram o terminal da base, aquela era a última coisa que viam dos Açores antes de partirem para os Estados Unidos onde tantas portas giratórias os esperavam. A antecâmara para o que mais tarde iriam encontrar.

O pavimento de toda a sala de espera é em calçada portuguesa naquele motivo ondulado tão conhecido e característico do que é português. É o mesmo padrão que encontramos na Praça do Rossio em Lisboa, no Calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro, na Praça do Leal Senado em Macau ou na Calle Caridad na ibérica Olivença. Mas este chão monumental é só o aperitivo. O que me levou de regresso àquele edifício que tão bem conhecia e que agora me parecia estranho era outro motivo. Diria mesmo que um dos tesouros mais bem escondidos em toda a Região e que é, simultaneamente, um dos mais desconhecidos e ignorados. Refiro-me ao imponente painel de azulejos de um dos maiores mestres da cerâmica portuguesa do século XX, Querubim Lapa. É curioso que, mesmo a nível nacional e numa pesquisa na internet, esta é uma obra que raramente é abordada. Excetuam-se uma referência na pagina da Câmara Municipal de Lisboa, sem imagem, e uma pequena fotografia monocromática anotada no “Inventário do Património Imóvel dos Açores – Praia da Vitória“ editado pelo IAC.

O motivo do painel é o apropriado para o espaço. Conta uma história. De um lado, a dureza da vida no mar, do trabalho, a pesca. Uma mãe beija o seu filho. Do outro, sob o sol radioso de Querubim e da luminosidade que entra pela janela do edifício que lhe fica contígua, o mesmo casal acena com um lenço branco. Despede-se. Agora, o mar separa-os da vida anterior. Parece que esta nova terra é de fartura… As várias tonalidades de azul e de amarelo dominam toda a cena. A obra está datada e assinada. “Querubim 1961 V.L.”. Só de pensar que esta obra produzida pela fábrica de cerâmica da Viúva Lamego esteve prestes a desaparecer…

Esta é uma obra única nos Açores.  Arriscaria dizer que é a mais importante existente na Região no que respeita a artistas plásticos portugueses, não açorianos, do século XX, e não consta que esteja classificada ou sequer protegida.

Da obra de Querubim Lapa (1925-2016) destacam-se os painéis para a Reitoria da Universidade de Lisboa, para a Pastelaria Mexicana, para o exterior do Casino Estoril ou o revestimento da estação Bela Vista do Metropolitano de Lisboa e nós, surpreendentemente, também temos uma obra dele. Sabiam disso!?

rua de jesus na califórnia

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A Rua de Jesus agora chega mais longe e noutras plataformas.

Ontem, pela primeira vez, a crónica semanal foi transmitida via rádio para as comunidades açorianas radicadas na Califórnia através da Radio Portugal USA. Agora, semanalmente, nas tardes de sábado, esta Rua de Jesus fará a ponte entre o nosso Atlântico e os nossos compatriotas que vivem banhados pelo imenso Pacífico.

Obrigado pela oportunidade e por mais este desafio!