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hoje quero contar-vos uma história

CINEMA AZORIA

Foi há mais de trinta anos, andava eu ainda na escola primária, quando um velhote, que habitualmente se sentava no muro em frente à minha casa, me a contou. Fiquei encantado com o que ouvi. A história era extraordinária. Na terra onde vivia também aconteciam coisas fantásticas, histórias que eu pensava só existirem nos livros e nos filmes que passavam no cinema Azória, o mesmo que dava nome ao largo onde eu vivia. Nunca a contei a ninguém, guardei-a para mim e, com o decorrer do tempo, passei a achar que era invenção daquele homem, um devaneio de quem é velho e já não sabe o que diz. Hoje, no entanto, sonhei com esse velhote, com o velhote que passava todos os dias à minha porta com uma enxada na mão e uma saca de lona às costas. Esse homem vinha do bairro-de-lata que existia no sopé da serra de Santiago. Subia a ladeira íngreme que dava ao largo do Azória e, aí, sentado no muro do meu jardim, descansava. Passados poucos minutos, lá seguia o seu caminho e desaparecia no meio do arvoredo descendo a enorme escadaria que atravessava a mata que fica na encosta da serra voltada para a pista de aviação. Nunca soube para onde ia. Contava-se que ele apanhava as crianças que desciam a Escada da Cantina a caminho da escola, que as matava e que as levava dentro da saca de lona, não se sabe para onde. Um dia, porém, estava eu a sair de casa e dei de caras com ele. Não tinha reparado que ali estava. Caso contrário, teria saído pela outra porta, dado a volta à casa, atravessado por entre as groselheiras que separavam os quintais do Bairro de Sargentos, e saído pelo portão de um dos vizinhos, só para não me cruzar com o Homem da Mata. Não tive alternativa, tinha que olhá-lo e dizer-lhe alguma coisa. Sorri e desejei-lhe um bom dia. Ele sorriu para mim, agradeceu e retribui-me o cumprimento. Segui o meu caminho. Ele levantou-se e foi atrás de mim. Fiquei assustado. Seria verdade o que diziam sobre ele? Queria que não o fosse. Passados alguns minutos, ele chamou por mim e pediu-me que esperasse. Estaquei naquele mesmo instante. Ele sabia o meu nome. Queria acompanhar-me na viagem até à escola. Tive que esperar. Quando chegou junto a mim, pegou na saca de lona, pousou-a no chão e pediu-me que a segurasse até que conseguisse ajeitar a enxada na outra mão. Obedeci. A saca estava cheia. Só não conseguia perceber com quê. O volume era grande e eu tinha dificuldade em segurá-la. Por essa razão, ao tentar equilibrá-la, tombou e tudo o que estava no seu interior ficou espalhado pelo chão. Pasmei a olhar para o seu conteúdo. A saca estava cheia de umas ervas castanhas que cheiravam mal. Pareciam cabelos. Seriam os cabelos das crianças que ele matava? Fiquei em pânico, aflito, sem saber o que fazer ou o que dizer. Ele, estranhamente, estava calmo e só me disse: Não faz mal, voltamos a pôr o musgo na saca. O musgo? Ele chamava ao cabelo musgo! Sem perceber nada, ganhei coragem e perguntei-lhe o que era aquilo. Ele respondeu-me o óbvio: Isto é musgo. O que é musgo? – perguntei eu. E ele explicou-me que eram umas ervas castanhas que cresciam no mar e depois vinham dar à rocha. Quando aí chegavam, ele apanhava-as para vender. Vender musgo, para quê? Ele não me soube responder. Depois quis saber onde é que ele o apanhava. Ele disse-me: na Rocha.

vítima de si própria

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Vítima de si própria, a Câmara da Praia vive um dos períodos mais negros de toda a sua história. Um verdadeiro pesadelo. Já há quem diga que estamos a assistir à Terceira Queda da Praia. Uma catástrofe saída de uma profecia bem conhecida pelos mais antigos. E nada tem que ver com a saída dos americanos, o chamado downsizing da Base, que mais não fez do que servir de cortina de fumo para uma gestão desastrosa do Município praiense. E nada tem que ver com desastres naturais de dimensões bíblicas que uniriam o mar da Praia ao mar da Caldeira. Tudo tem que ver com ganância. Com poder. Com a necessidade de o manter e tudo fazer para o perpetuar. Promete-se tudo a todos. Dá-se tudo a todos. Oferece-se o que se tem, mas prefere-se dar o que não se tem ou não se sabe se vai ter. Vale tudo. Não há coragem para se definirem prioridades.

As dívidas acumulam-se. Alguém as há de pagar. “Pagar a dívida é uma ideia de criança”, dizia José Sócrates no longínquo ano de 2011. Nessa altura já o FMI tinha entrado porta adentro, já as medidas de austeridade começavam a ser aplicadas, já o país, finalmente, percebia que o regabofe na gestão das finanças públicas iria levar Portugal a uma crise sem precedentes com os resultados que todos hoje conhecemos. Depois do sacrifício veio a bonança. Ou parece vir a bonança. Mas foi penoso chegar-se até aqui. Se valeu a pena? Ainda ninguém sabe. Mas uma coisa todos sabemos, o governo da Câmara da Praia da Vitória nada aprendeu com isso. Cometeu os mesmos erros. Repetiu as receitas. Inovou modelos. Reinventou uma gestão que acabou por nos levar à ruína.

Não há dinheiro. As Juntas de Freguesia queixam-se por tão baixas serem as transferências de receitas do Município para os seus orçamentos, apesar das cada vez maiores delegações de competências de uma entidade para outra. Os pagamentos a fornecedores sofrem atrasos consideráveis e não se lançam concursos faz algum longo tempo. Nem o dia da criança se comemora a céu aberto, na cidade, para todos, com todos. A Praia tornou-se um feudo de alguns. Uma terra para alguns. A cidade e o concelho estão parados. Sucumbem. O Tribunal de Contas aponta falhas graves na gestão dos dinheiros públicos municipais e a Câmara procura defender-se como pode e sabe. A decisão na justiça ainda não foi tomada, é verdade, mas os factos e a frieza dos números estão lá, preto no branco, para quem os quiser ver, ler e conhecer. Como sempre, dão espaço para todo o tipo de leituras. Só dependendo da habilidade e engenho de quem os analisa. Tudo é justificável. Só depende do resultado e objetivos que se pretendem atingir.

Procuram-se culpados. Todos, menos os verdadeiros responsáveis, são um alvo possível. Culpabilizam-se decisões anteriores. Contratam-se agentes políticos e vestem-lhes uma capa de isentos, apartidários. O objetivo é um. Defenderem-se a si próprios, os que tomam decisões, os que fazem promessas, os que faltam ao prometido. Não conseguem assumir compromissos. O Povo, mais uma vez, vai-se deixando levar no engodo das manobras de diversão. É preciso desviar as atenções do essencial, das causas verdadeiras.

É este o modelo de desenvolvimento aplicado na Praia ao longo dos últimos anos. Empurrar com a barriga para a frente. Fazer de conta que se é rico. Desperdiçando. Esbanjando. Alimentando clientelas e bolsas de votos. Até quando permitiremos isto? Já é mais do que tempo de exigirmos responsabilidades. Até lá, rezemos para que a eletricidade não falte em nossas casas.

Artigo publicado hoje da edição do Diário Insular.

“Nós” e “eles”, o dérbi da democracia

O mais difícil seria concentrar em quinze minutos todas as propostas e ideias que, ao longo dos últimos anos, tenho vindo a pensar e a desenvolver para que o centro da Praia se torne mais dinâmico e atrativo. Falhei. Ultrapassei claramente os quinze minutos que me foram atribuídos

para a apresentação e, nem de longe nem de perto, consegui apresentar todas as sugestões que gostaria. Apesar disso, dei a minha missão como cumprida. Foram atingidos os objetivos.

Quando há umas semanas me convidaram para participar neste fórum, achei que seria prematuro da parte do Município fazê-lo. As eleições foram há dias e seria de esperar que o que havia a discutir já o teria sido na campanha eleitoral. Um sinal de fraqueza, pensei na

altura. No entanto… e porque não?! Ouvir a sociedade civil, ouvir as pessoas e as suas propostas, correr o risco de escutar críticas e comentários desagradáveis é sinal de fraqueza? Penso que não. Mas é a chamada faca de dois gumes.

Por um lado, é uma forma de se receberem sugestões de forma graciosa e poder aproveitar o que é bom e tomar-lhe a propriedade ou até mesmo aceitar sugestões menos populares, aplicá-las, e dizer que foi uma sugestão da sociedade civil. Maquiavélico, mas inteligente. Por outro, despois destes fóruns, a Câmara Municipal não se pode queixar que as pessoas não participam ou não fazem sugestões ou não há ideias. Cá estaremos para avaliar os resultados.

Alguém me disse que eu não deveria participar neste fórum. E não foi só uma pessoa. Argumentaram que eles estão falidos. É verdade. Disseram-me que eles não têm ideias. Não iria tão longe. Sugeriram que eu os estava a ajudar e que eles não mereciam. Meus amigos, aqui não há “eles” nem “nós”. Aqui há a Praia. E “nós” e “ele”, sejam lá quem forem, têm mais é que se preocupar com o futuro da cidade e do concelho, contribuir para a solução e não ficar à espera que tudo corra mal, desejar que tudo corra mal, na esperança que o lugar lhes caia no colo de mão beijada. Compreendo que ser Presidente de Câmara seja um “sonho de menino” de muita gente. Mas a minha experiência diz-me que o último que ocupou o cargo na

busca da concretização deste sonho, tornou a vida da cidade e do concelho um verdadeiro pesadelo. Se o sonho se concretizou para o próprio, não passou de uma experiência individual, egoísta. O que precisamos neste momento não é de narcisismos, nem buscas fratricidas de

poder. O que é necessário é pensar no bem comum, no coletivo e na sociedade no seu todo.

Venha quem vier. Sejamos “nós”, sejam “eles”, seja até o Bloco de Esquerda, se entenderem que o meu contributo é válido, cá estarei. Se entenderem que posso contribuir de alguma forma para encontrar uma solução para o nosso futuro coletivo, também cá estarei. Se precisarem de

alguém para criticar, então aí é que não me ponho mesmo de fora. O que importa é que se abram caminhos, que se encontrem alternativas, que haja entendimento, que se concretize democracia. Não basta dizer que os outros não são democratas, não basta andar a falar pelos cantos, não chega ter todas as soluções e não as partilhar. É urgente fazer parte da solução. Assim queiramos “nós”, assim o queiram “eles”.

pensar a cidade do futuro #6

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PAÚL

A Praia não tem um espaço onde as pessoas possam fazer pic-nics, churrascos ou, simplesmente, ir com os amigos jogar futebol ou outro desporto qualquer.

Temos no paúl um espaço privilegiado. Tem natureza, tem água e tem uma extensa praia a meia dúzia de metros. Neste momento serve para pouco mais do que montar barracas paras feiras ou para as festas da Praia. Nem sequer tem um café…

pensar a cidade do futuro #5

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PRAÇA FRANCISCO ORNELAS DA CÂMARA

Começar por retirar de lá todo aquele mobiliário urbano sem sentido e caótico. A Praia não pode ser pensada em função de 10 dias de festa em agosto…

Voltar a levantar a área central da Praça e criar um edifício de traço moderno onde hoje funciona a academia do código.

A Biblioteca Municipal deveria voltar para onde estava só que ocupando todo o edifício que deverá ser profundamente remodelado.

O novo Hub Criativo da Praia, a instalar na casa do Dr. Eugénio, deverá ser um centro de partilha e disponibilização de recursos e equipamento, espaços de experimentação na área das artes, do artesanato, design, arquitetura, fotografia… gerida e com acompanhamento de profissionais. Workshops.

Deverá estar aberto de dia e de noite, das 9h00 às 22h00.

Dar vida à praça não é criar um monte de escritórios. É antes criar polos de atratividade, onde as pessoas se sintam bem…

Os escritórios trazem gente, mas gente que trabalha todo o dia lá fechados e cujos edifícios, a partir das cinco da tarde, estão inativos. Temos os utentes, é claro, mas serão assim tantos que façam a grande dinamização do centro da cidade? O que aconteceu com a secção de obras? A diferença é assim tão grande?….

A Praça deveria ser um espaço onde poderão coexistir atividade de tempos livres para crianças, jovens e menos jovens. Espaços para co-working onde se disponibilizem equipamento na área da fotografia, vídeo, arquitetura, design de várias vertentes. Onde existam oficinas de carpintaria ou ateliers de costura para “faça você mesmo”. Onde existam espaços para o desenvolvimento de atividades de artesanato com teares, rodas de oleiro e fornos, p.ex., numa espécie de incubadora de artes criativas. Onde haverá espaço para a arte contemporânea, o desenvolvimento das artes plásticas nas mais diversas vertentes e ainda workshops permanentes e regulares (só a regularidade cria o hábito) orientados por especialistas e que possibilitam a criação e crescimento de novos artesãos, artistas plásticos e de público esclarecido.

Uma coisa que distingue uma cidade de um outro qualquer lugar é a sua capacidade de se reinventar e inovar culturalmente. Quem pensar o contrário está condenado ao insucesso e o resultado está bem à vista de nós todos.

pensar a cidade do futuro #4

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RUA DE JESUS

Poderão ser criadas algumas zonas cobertas com lonas, por exemplo, ou serem instalados pequenos quiosques móveis para substituírem as banquinhas que são colocadas às portas das lojas em dia de cruzeiro e que dão um ar de terceiro mundo… Estes quiosques poderiam funcionar como uma espécie de esplanadas do comércio tradicional.

pensar a cidade do futuro #3

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PARQUE DE ESTACIONAMENTO URBANO

Feiras para o parque de estacionamento urbano que fica bem no centro da cidade junto ao comércio e cafés da rua de Jesus e, para não se perderem lugares de estacionamento, podemos cobri-lo com uma cobertura acessível que poderá ser ajardinada. Embora possa funcionar como recinto de exposições mesmo como está.

Tem a vantagem de ter acesso pela rua de Jesus. O que significa que o comércio e os cafés terão as feiras à porta e não veem os poucos clientes que ainda têm a fugir para a Praça FOC ou para o Paul ou para a Marina.

pensar a cidade do futuro #2

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LARGO DA LUZ

Tirar de lá o caixote/quiosque. Não se percebe porque razão, havendo tanto edifício devoluto no centro da Praia, se insiste em montar caixotes e barracas.

Transformar o Largo do Conde da Praia (largo da Luz) num parque intergeracional. Um jardim com baloiços, bancos de jardim onde se possam realizar eventos para os mais novos e os mais velhos.

pensar a cidade do futuro

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Na passada quinta-feira, a convite do senhor Presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, participei como orador no fórum “pensar a cidade do futuro”. Ao painel a que tive o privilégio de integrar, foi incumbida a tarefa de refletir sobre a reabilitação de espaços públicos.

Pese embora o facto de não ter feito uma intervenção lida, ficam aqui umas notas que sintetizam os comentários que fui fazendo às imagens apresentadas à audiência presente. Já agora, não posso deixar de referir que, apesar de tudo o que se vai dizendo pelos cantos escuros e pelos jornais e redes sociais, a fraca participação neste tipo de debate é parte da justificação para o que a Praia se tornou. A Praia não pode ser um projeto de ambição individual. A Praia tem que ser um projeto de nós todos.

Comecei com o coelho do Luís Brum a tentar salvar a Matriz de um afogamento iminente…

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Porque razão as pessoas não vão à rua de Jesus? A resposta parece óbvia: O centro da cidade não é atrativo; as pessoas perderam o hábito de vir à cidade; as pessoas não vêm cá fazer nada que não façam nas suas freguesias ou pela internet.

A Praia que temos já não nos serve. A Praia tem que ser reinventada. Tem que encontrar um novo caminho e não devemos ter medo de mudanças. Não devemos ter medo de pensar que é possível ter uma cidade diferente.

É preciso tornar a cidade mais atrativa. Precisamos de criar a habituação de vir à cidade.

Todos conhecemos o maior problema da cidade… Falta gente.

A Praia precisa urgentemente de eventos regulares semanais ou mensais. Precisamos de atividades para atrair crianças. Precisamos de festivais e mercados de rua (de roupa em segunda mão, de produtos agrícolas, de livros), feiras, de eventos ao ar livre, no jardim, no mercado, na rua de jesus, no paúl… Precisa, de uma vez por todas, sair das barracas.

Vou falar de uma Praia para os de cá. Para quem cá vive. Se não tivermos a capacidade de atrais as cerca de 21000 pessoas que habitam no concelho da Praia, como queremos nós atrair os de fora?

 

wine biológico

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É por isso que gosto tanto desta terra. Não há outra no mundo que se lhe compare na organização de eventos. Fazemo-lo melhor que ninguém e temos orgulho nisso. Pena é que se realizem todos ao mesmo tempo, o que também já vem sendo um hábito. A nossa chafarica é melhor que todas as outras. Diria mesmo, superior a todas as outras. Por isso, não vale a pena perdemos tempo em contactá-las para sabermos quando vão promover as suas atividades e tentarmos marcar as nossas de maneira a não lhes roubarmos clientes. Eles se quiserem que venham falar connosco. Era só o que faltava ainda ter que dar satisfação àquela gente. Ao menos não podemos dizer que não há opções de escolha.

O fim-de-semana que se aproxima vai ser um daqueles bem regado. Já é costume que o seja ou não estivéssemos nós naquele período entre Bodos em que o vinho de cheiro corre a rodos nas casas dos Imperadores, Impanatrizes, Mordomos e Mordomas e pelas barricas dos Impérios e Despensas da nossa ilha. Mas esse vinho é de cheiro, aquele que se usa para as alcatras, embora agora existam especialistas gastronómicos da cidade que digam que é com vinho branco que se confeciona aquele repasto servido em alguidar de barro acompanhado por massa sovada. A minha avó sempre as fez com cheiro. Nas Lajes é assim.

Para os lados da Vinha Brava, no pavilhão/parque de exposições que levou mais de uma década a construir e poucos segundos a inaugurar, os vinhos serão outros. Outro nível. Coisa de enólogo. Gastrónomo. Gourmet. A dúvida que eu tenho e me consome as noites é saber onde posso ir provar vinho biológico. Organic Wine. Biologic Wine. Vinho Orgânico.

Durante os mesmos dias, na barraca oficial da cidade da Praia, vai realizar-se a V Biofeira dos Açores. Um evento que atrai todos aqueles que, movidos pelo regresso às origens, às memórias dos avós e à alimentação saudável, procuram os melhores produtos biológicos produzidos na Terceira, embora a feira seja Açores. Pena é que, infelizmente, se confunda alimentação biológica com dieta vegetariana e se esqueça que massas, bagas e sementes, leites e méis importados, embora de produção biológica, são mais prejudiciais ao meio ambiente do que cenouras adubadas. Não me refiro só aos sacos e embalagens, mas sobretudo à pegada de carbono deixada pelos navios e aviões em que para cá são transportados. Enfim. Há sempre pequenas confusões.

A Biofeira vai concorrer diretamente com o Wine In Azores e a Feira de Atividades Económicas, promovida pela Câmara de Comércio de Angra, onde está integrado. Quem vai perder? A Praia, já se sabe, que nestas coisas de concorrência direta perde sempre e, ainda por cima, se põe a jeito. Parece que não há maneira de se aprender. Parece que este tipo de situações nunca aconteceram. Cada um fechado na sua cápsula hermeticamente selada. No seu casulo. Orgulhosamente sós. E felizes porque vão dar uma festa particular, sem concorrência, onde se pode conviver com os amigos.

Por mim, já fiz a opção. Entre o Festival Mais Jazz, que vai decorrer este fim-de-semana no Museu de Angra, e a cantoria promovida pelo Mordomo do segundo Bodo das Lajes, que acontecerá no sábado à noite, vou ao Bodo. Sempre fica mais perto.

vergonha e esperança

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Vinham investidores da Finlândia e seria instalado um data center. A cidade da Praia tornar-se-ia símbolo da inovação e do pioneirismo. Tudo aqui era exemplo para o resto dos Açores e do país. Falava-se em parcerias com tudo e com todos, criatividade, inovação. A Praia era a terra das novas oportunidades e seria a primeira a conseguir vencer os desafios que decorriam da saída dos americanos e do agudizar de uma crise que saía direitinha e sem espinhas da megalomania e dos devaneios de um primeiro ministro sem escrúpulos que fez da sua ambição desmedida a ruína deste país.

Na Praia da Vitória ainda não se chegou a tanto. Por enquanto. Mas os sinais são cada vez mais preocupantes. Quando tomei conhecimento do conteúdo do último relatório do Tribunal de Contas relativamente a uma auditoria realizada ao Município da Praia, confesso que fiquei sem saber como me sentir. Se triste, se contente. Foi uma mistura contraditória de sentimentos. A primeira reação, acreditem, foi de satisfação. Finalmente, uma entidade credível e respeitada vinha confirmar aquilo que ao longo de anos tenho vindo a denunciar e a chamar a atenção. Finalmente, depois de tantos anos a chamarem-me mentiroso, a chamarem-me tudo e mais alguma coisa – só eu sei o que ouvi pela cara fora – o insuspeito Tribunal veio dizer-me que a razão sempre esteve do meu lado e que o meu trabalho ao longo de doze anos não me dá motivos de arrependimento. Contudo, de imediato, senti-me triste. Triste por ver a minha terra, mais uma vez, nas bocas do mundo e pelas piores razões. Triste por perceber que a Câmara da Praia foi gerida para satisfazer interesses e ambições pessoais com consequências que ainda não conseguimos perspetivar. Quando foi criada a Praia em Movimento, de má memória, e quando se assinaram os acordos que previam transferências de milhões entre a câmara e a empresa municipal, a oposição fez questão de dizer que era o futuro da Praia que estava a ser hipotecado. Alguém disse que exagerávamos, que estávamos a ser catastrofistas e o que o mestre dos números, das contas e da gestão reinventada sabia o que estava a fazer. De facto, Roberto Monteiro sabia muito bem o que estava a fazer. Assegurava o seu futuro e as reeleições que se sucederam. A Praia, apesar de tanto dinheiro aqui circulado, transformou-se naquilo que é hoje. Um marasmo sem esperança e na iminência de ter que recorrer a um programa de ajuda financeira.

Na mistura de sentimentos contraditórios surgiu um terceiro. Vergonha. Senti-me envergonhado por ver como foi possível deixarmos que tudo isto se passasse por debaixo do nosso nariz ou bem à frente dos nossos olhos e nada fazermos para o evitar. Fomo-nos deixando ludibriar por fogos-de-artifício, remoção de placas de inauguração para serem substituídas por outras com o nome do pagador e manobras de diversão com assinaturas de protocolos, conferências-de-imprensa, debates sobre tudo e sobre nada. E aconteceu. Na Praia também aconteceu.

Agora é preciso que os praienses se unam e que, em conjunto, procurem – e encontrem – soluções para o seu futuro comum. Esta é oportunidade que temos para mostrarmos que a Praia, a nossa Praia, está acima de quaisquer interesses pessoais ou partidários. Exige-se para a Praia um pacto de regime, uma espécie de governo de salvação municipal que nos tire deste buraco em que nos enfiaram. Só temos que estar disponíveis e não ter medo de falar. Esse tempo parece já ter passado.

Air Center de migalhas

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Sempre desconfiei do Air Center. Sempre me cheirou a esturro, tanta era a embrulhada, a informação contraditória ou a deputada que disse, o ministro que negou e o presidente que nem dizia que sim nem que não. Bem podem anunciar concursos públicos, bem podem parecer preocupados com a situação económica da Terceira, bem podem gastar rios de tinta a elaborar planos de revitalização, projetos de instalação ou outra treta qualquer que o resultado, para a Terceira, é o do costume, o esperado. Migalhas. Tudo quanto aqui se faz ou se diz fazer acaba sempre por morrer no papel, nem mesmo morrer na praia faz sentido aplicar-se a mais este episódio de abandono e negligência relativamente à coisas desta ter. Seria uma ofensa para a Praia. Que mal fizemos nós? Que crime terão cometido os terceirenses para, de um momento para o outro, passarem a ser considerados persona non grata? Seremos nós portugueses de segunda categoria? Açorianos sem direitos?

“Antes morrer livres que em paz sujeitos” foi a expressão usada por Ciprião de Figueiredo ante a presença do invasor castelhano que, à época, dominava a ilha. Esta máxima acabou por ser incorporada, nos alvores da Autonomia, no brasão de armas da Região. Hoje é letra morta. Hoje, nem Região, nem Autonomia. Hoje, cada ilha trata de si e trata de viver por si. Solidariedade regional é coisa que não existe. Solidariedade nacional, ainda menos. Hoje, Autonomia é sinónimo de governo de alguns para alguns e de desculpa para a existência de uma espécie de aristocracia ou espécie de classe privilegiada com direitos acrescidos. Contudo, existem grandes diferenças entre a aristocracia de ontem e a de hoje, sendo que a principal consiste nas obrigações. Os aristocratas medievais tinham obrigação de defender o seu território e o seu povo. Exploravam-no é certo. Pagavam mal, quando pagavam. Os de hoje não defendem o seu território, não têm povo, só recebem e limitam-se a bajular. A ilha pouco interessa. A cidade nem para as compras serve.

A presença será simbólica. Foi isto que o ministro da ciência disse em relação à instalação do Air Center na Terceira, uma daquelas medidas que visavam atenuar os efeitos nefastos decorrentes da redução do efetivo militar norte-americano nas Lajes. Aliás, esta questão, que tanto ocupou noticiários televisivos, radiofónicos e impressos, começa a parecer uma realidade longínqua, algo que já passou e que já não vale a pena pensar. A verdade, porém, é que os cidadãos andam distraídos com o turismo e pensam ter encontrado a nova galinha dos ovos de ouro e que o futuro está garantido. Tomara que assim seja. Tomara que o fluxo turístico que se tem verificado na ilha se mantenha por muitos e bons anos. Tomara que o governo continue a pagar à Ryanair para manter as rotas para as Lajes e que a SATA não seja alvo de implosão. Tudo isto é artificial como bem sabemos. Mas enquanto as coisas correrem bem, apesar de andarmos a ser enganados, viveremos felizes e contentes e nem sequer piamos contra o que quer que seja não vá alguém tirar-nos este Rendimento Social de Inserção. Sim, isto é uma espécie de RSI para remediados e, tal como os outros, não o queremos perder e, tal como os outros, fazemos tudo, tudo mesmo, para o manter.

Ficaremos com umas migalhas simbólicas. E é mesmo disso que precisamos. Símbolos. Migalhas. Quando não se exige mais, é isso que se tem.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

quanto vale um saco de lixo

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A chamada fatura da água é aquele documento que, mensalmente, surpreende quem o recebe. A única coisa que a salva é o facto de ser bem mais percetível que a fatura da eletricidade, essa sim, uma espécie de roleta da sorte que nunca ninguém sabe quanto vai pagar e, pior do que isso, porque vai pagar, tal é a dificuldade em interpretá-la. Eu já desisti.

Voltando à água… esta é uma fatura muito mais simples (pelo menos na Praia) e, por esse motivo, facilmente se percebe que, abrindo ou não a torneira, à cabeça, se paga mais em tarifas (uma forma encapotada de taxa) do que em água consumida, isto numa casa com família de pequena dimensão. Tratando-se de comércio, onde praticamente não se abrem torneiras, então a diferença é abissal.

Que a água é um bem que deve ser pago é algo incontestável. Que os custos da recolha do lixo e do seu tratamento também devem ficar a cargo de quem o produz também é uma situação que ninguém coloca em causa. Contudo, contrariamente ao que acontece com o abastecimento de água, a contabilização dos resíduos urbanos produzidos é feita por estimativa em função da água que se consome. Ou seja, paga-se de lixo quer se produza muito, quer se produza pouco, quer se recicle, quer não se recicle, quer se reutilize, quer não se reutilize. Em suma, não se compensam as boas práticas ambientais. Não se incentiva a sua implementação.

Porque razão haverão as pessoas de reduzir o lixo produzido? Porque razão os munícipes devem optar por reciclar? Qual o motivo para que se reutilize em vez de deitar fora? É evidente que tudo é uma questão de consciência e de civismo, mas tudo é também um negócio e uma forma de ganhar dinheiro. As entidades oficiais são eximias na punição e na aplicação de princípios como o do “utilizador pagador” ou o “poluidor pagador”. O inverso, infelizmente, não acontece. O princípio de que quem cumpre, quem aplica boas práticas, deve ser beneficiado. Gostamos sempre de educar pela negativa, pela punição. Cidadão que não cumpre, paga. Cidadão que cumpre, paga. Câmara Municipal que recicla é elogiada, aparece na televisão e ganha prémios e logotipos para campanha eleitoral. Quem pagou isso? O cidadão cumpridor que paga o lixo do Município.

Felizmente, no entanto, já tudo está inventado e já foram criados sistemas de tarifação de resíduos que beneficiam quem cumpre e aplica no seu dia-a-dia boas práticas ambientais. Chama-se “Pay as You Throw”, uma iniciativa da União Europeia, e já aplicado em Portugal com a cidade de Guimarães como principal exemplo. Com este sistema só é pago o lixo indiferenciado que se produz, sendo o reciclável, se separado, recolhido de forma gratuita. Como é feita a triagem? Existem diversas vias. Uma delas consiste em distribuir pelas habitações e estabelecimentos comerciais sacos ou contentores de volume padronizado que permitirão, no momento da recolha, contabilizar a quantidade de resíduos produzidos por cada munícipe ou empresa. É um sistema simples de implementar? Talvez não seja. Mas é certamente um sistema mais justo e mais incentivador da aplicação de boas práticas ambientais. É certo que as receitas camarárias, por essa via, irão diminuir. As despesas também. E se é preciso fazer com que a TERAMB seja viável, não temos que ser sempre nós a pagar tudo. Já basta o que é eticamente irrepreensível.

25 de qualquer mês

Gastronomia-de-Natal-de-Norte-a-Sul-de-Portugal

Habitualmente escrevo a minha crónica da rua de Jesus à quarta-feira. Ali bem em cima do acontecimento, uma vez que tenho de a enviar para o jornal, de preferência, até às duas da tarde desse mesmo dia. Escrevo-a, por isso, de manhã. Esta semana, apesar de não haver jornal na quinta – porque na quarta é feriado – cumpri o ritual do costume, até porque tenho de enviar a crónica para as rádios na América.

Quis o calendário que esta semana fosse 25 de abril, aquele dia emblemático que toda a gente, em todo o lado, fala de liberdade, de tolerância, de conquistas para os trabalhadores, do estado social, de paz no mundo e de beijinhos às criancinhas e carinho aos velhinhos. Nos últimos anos, as semelhanças entre o 25 de abril e o 25 de dezembro são cada vez maiores. Ambas as datas se vestem de verde e vermelho, em ambos os dias o mundo se enche de boas intenções, onde todos fazemos de conta que somos todos amigos, iguais, temos as mesmas oportunidades e o que importa são os valores. Esquecemos tudo o resto e fixamo-nos nos valores, esses sim a base de toda a nossa vida e que cumprimos a rigor e a preceito naquele exercício de hipocrisia que tão bem conhecemos e sabemos fazer.

Na mesa não faltam os doces, as iguarias, a fartura, os presentes em abundância e o peru que já não é morto de véspera, mas sim comprado embrulhado em plástico, sem identidade, abatido por carrasco desconhecido. Fazem-se peditórios, apela-se à solidariedade, à paz entre os homens e ouvem-se cânticos. Muitos cânticos. Ninguém sabe muito bem ao certo o significado das letras. Apelam a uma noite feliz e a um amanhecer com muitos presentes e com um mundo novo onde a abundância reina, a terra é de fraternidade e o Povo é quem mais ordena. Abrimos as portas da nossa casa e convidamos os amigos para que se juntem a nós e que com eles venham mais cinco para celebrarmos as conquistas de uma noite de céu estrelado e o nascimento do messias. Não importa se no dia seguinte nem nos cumprimentemos na rua e façamos de conta que nem nos conhecemos. As datas evocativas têm-se modernizado, transformando-se numa espécie de experiência de “one night only” em que só o momento interessa e que tudo acaba ao nascer do dia quando se passa pela farmácia. Foi bom, mas dali nada vai nascer… O essencial ficou de fora.

Falar de 25 de abril em 2018 é falar de corrupção e da falta de ética e de transparência. É curioso pensar-se que há alguns anos estes eram chavões do populismo e das oposições. Muitas vezes, eram palavras que se atiravam ao ar sem se saber muito ao certo a quem se dirigiam ou que rosto tinham. Não se falavam em nomes. Não havia certeza. Hoje sabe-se muito bem de quem se fala e do que se fala. Aparecem todos os dias na televisão e os seus discursos e atos são dissecados até ao osso por comentadores e jornalistas, mas não por responsáveis políticos que, quando excecionalmente o fazem, atiram a solução para a frente, para um dia, para refletir, para pensar. E todos bem sabemos o significado de “um dia…”.

A nossa democracia de 44 anos está doente. Sofre de uma crise identitária que substitui um sistema totalitário por um sistema de totalitários. Mudaram-se as pessoas, mantêm-se os privilégios de classe e a existência de um grupo que domina acima da Lei, onde a ética se tornou irrelevante e a falta de vergonha assumiu o lugar cimeiro da forma de estar. Tudo se faz às escondidas e de forma consensual sempre que o proveito é próprio. Felizmente, tudo se acaba por saber, mas eles não se importam e dizem que é legal, que cumpre a lei que eles próprios fizeram e aprovaram e isso é preocupante.

Daqui por uns dias é dia de Reis e vamos todos para a rua celebrar, nem que seja no primeiro arraial de tourada do ano. Feliz Natal e um Ano Novo cheio de prosperidades!

um tesouro escondido… na base

Ontem fui à base e saí de lá deprimido. Vivi ali dentro durante cerca de vinte anos e não consigo ficar indiferente ao cenário desolador que lá encontrei. Custa-me ver a casa onde vivi quase abandonada, as ruas vazias, dois ou três carros estacionados à porta dos serviços e a relva por cortar em grande parte das áreas residenciais. O meu destino, no entanto, era o terminal militar. O cenário não era muito diferente. As prateleiras do bar estavam vazias e, não fosse a cara conhecida do empregado, diria que entrara num outro mundo ao estilo daquelas séries de fotografias de locais abandonados, maioritariamente no leste europeu, que circulam pela internet.

O edifício tem aquela monumentalidade que sempre me fascinou. Os grandes pilares revestidos a mármore negro transmitem-nos o dramatismo que as construções do Estado Novo sempre pretenderam revelar. Durante muitos anos aquele foi o terminal civil e militar da Terceira. Já não tem a porta giratória que dava acesso à pista. É curioso que para muitos daqueles que cruzaram o terminal da base, aquela era a última coisa que viam dos Açores antes de partirem para os Estados Unidos onde tantas portas giratórias os esperavam. A antecâmara para o que mais tarde iriam encontrar.

O pavimento de toda a sala de espera é em calçada portuguesa naquele motivo ondulado tão conhecido e característico do que é português. É o mesmo padrão que encontramos na Praça do Rossio em Lisboa, no Calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro, na Praça do Leal Senado em Macau ou na Calle Caridad na ibérica Olivença. Mas este chão monumental é só o aperitivo. O que me levou de regresso àquele edifício que tão bem conhecia e que agora me parecia estranho era outro motivo. Diria mesmo que um dos tesouros mais bem escondidos em toda a Região e que é, simultaneamente, um dos mais desconhecidos e ignorados. Refiro-me ao imponente painel de azulejos de um dos maiores mestres da cerâmica portuguesa do século XX, Querubim Lapa. É curioso que, mesmo a nível nacional e numa pesquisa na internet, esta é uma obra que raramente é abordada. Excetuam-se uma referência na pagina da Câmara Municipal de Lisboa, sem imagem, e uma pequena fotografia monocromática anotada no “Inventário do Património Imóvel dos Açores – Praia da Vitória“ editado pelo IAC.

O motivo do painel é o apropriado para o espaço. Conta uma história. De um lado, a dureza da vida no mar, do trabalho, a pesca. Uma mãe beija o seu filho. Do outro, sob o sol radioso de Querubim e da luminosidade que entra pela janela do edifício que lhe fica contígua, o mesmo casal acena com um lenço branco. Despede-se. Agora, o mar separa-os da vida anterior. Parece que esta nova terra é de fartura… As várias tonalidades de azul e de amarelo dominam toda a cena. A obra está datada e assinada. “Querubim 1961 V.L.”. Só de pensar que esta obra produzida pela fábrica de cerâmica da Viúva Lamego esteve prestes a desaparecer…

Esta é uma obra única nos Açores.  Arriscaria dizer que é a mais importante existente na Região no que respeita a artistas plásticos portugueses, não açorianos, do século XX, e não consta que esteja classificada ou sequer protegida.

Da obra de Querubim Lapa (1925-2016) destacam-se os painéis para a Reitoria da Universidade de Lisboa, para a Pastelaria Mexicana, para o exterior do Casino Estoril ou o revestimento da estação Bela Vista do Metropolitano de Lisboa e nós, surpreendentemente, também temos uma obra dele. Sabiam disso!?