o Orlando do jardim

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Tratava o José Silvestre Ribeiro por tu. Considerava-o um amigo, quase um membro da família. Desde que a sorte – ou a má fortuna – o fizera ir viver para aquele sótão da rua de Jesus, era a sua companhia, o seu confidente. Todas as manhãs, antes de descer a escada íngreme de madeira, olhava pela janela, cumprimentava-o e contava-lhe os pesadelos daquela noite. Jurava a quem o quisesse ouvir que a estátua rodava sobre si própria, o olhava nos olhos e lhe retribuía um sorriso. Era a gargalhada geral. O Orlando do Jardim, como era conhecido nos cafés da Praia, a princípio, quando cá chegou e a Praia ainda era uma vila, ficava furioso e insistia na sua verdade o que provocava ainda mais troça e escárnio. Agora, passados todos estes anos, deixou de fazer caso da reação deles. Mais importante seria garantir que continuasse a ter parceiros para uma partida de dominó ao fim da tarde no Bar Vouga.

Ninguém sabia ao certo quem era aquele homem. Não havia notícia de que alguém alguma vez tivesse entrado na sua casa. Eu próprio já o tentara fazer mas, quando o abordei, o bom Orlando esquivou-se, apressou o passou e seguiu rua de Jesus acima sem sequer se despedir ou olhar para trás.  A sua idade era uma incógnita. A sua origem, um segredo muito bem guardado. Na rua e no café procurava-se adivinhar que passado estaria aquele homem a esconder. Que vergonha guardaria. Procuravam-lhe pistas no rosto, nas mãos e na forma de vestir. As rugas contavam uma história por decifrar. Adivinhava-se uma vida de sofrimento tão bem refletida no olhar e que contrastava com a delicadeza das mãos e dos modos. Apesar da roupa usada e gasta pelos anos, o Orlando apresentava-se sempre impecavelmente vestido e com asseio imaculado. Aquela manhã não foi exceção.

Como habitualmente fazia, fechou a porta só no trinco e, ao contrário da rotina diária a que acostumara os vizinhos, em vez de descer, subiu a rua.

(a fotografia que ilustra este testo foi retirada do sapo magazine de cinema e representa o realizador João César Monteiro no Jardim do Príncipe Real em Lisboa)

Um pensamento sobre “o Orlando do jardim

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