sei o que não quero

46anos

46 anos. Já passaram 46 anos desde o dia em que nasci. Eram vinte para a meia-noite quando, na maternidade do velho hospital de Angra, nascia um bebé gordo, careca e aos berros. O primeiro filho de um jovem casal, a Anete, com 21 anos, e o Jorge com 27. Começava uma jornada com altos e baixos, como todas as viagens que duram mais do que um fim-de-semana.

Dois anos depois fomos para a Guiné, regressando em 1974 logo depois da revolução de abril. O meu pai era militar. Estava lá a servir a pátria. A minha mãe, filha de cabeleireira, começou a dar os primeiros passos no mundo do trabalho exercendo, em Bissau, a profissão da mãe, o que ainda faz até hoje. Nos anos setenta do século passado aprendia o que era ser uma mulher independente, dona de si própria.

O regresso de África levou-nos a passar uma temporada em Trás-os-Montes, a terra do meu pai. Não tenho uma única memória desse tempo, a não ser uma fotografia que alguém publicou há poucos meses numa página do Facebook.

Com o regresso do Brinço – a aldeia – e a chegada aos Açores nasce a minha irmã. A minha vida nunca mais seria a mesma…

Podia continuar aqui a relatar-vos a minha história. Com toda a certeza igual a tantas outras. Mas hoje não. Até porque se tornaria fastidiosa e longa.

Quem sou eu hoje? O que fiz? O que me realizou?

Hoje sou um homem que, apesar da tragédia, se sente realizado sob o ponto de vista familiar. Não quero estar sempre a bater no mesmo assunto. Mas não esqueço, faz parte de mim, transformou-me. Existe um Paulo Jorge antes do Filipe e um Paulo Jorge depois do Filipe. O de hoje deixou de acreditar. Não sei bem no que não acredito. Mas não acredito. Aprendi que a certeza não existe e que nada, mesmo nada, pode ser dado como garantido.

Tenho dois filhos maravilhosos e uma mulher que se desdobra e se desunha para continuar a fazer-me feliz, mesmo com este meu feitio estuporado e a facilidade com que os meus humores se alteram, sem que seja bipolar. Que poderia mais eu querer?

Profissionalmente não tenho do que me queixar, apesar de o fazer todos os dias. Não me falta trabalho e as adversidades são superadas com alguma facilidade. Se me sinto realizado? Não, não me sinto. Queria que as coisas funcionassem de outra forma. Que houvesse mais justiça e transparência no sector em que me movo. Que houvesse mais solidariedade e maior espírito de união.

Gostava de ter mais tempo. Tempo para me dedicar aos meus prazeres escondidos, particularmente a escrita e o exercício da cidadania. Gostava de escrever um livro. Ter uma participação mais ativa na sociedade. Pertencer a um movimento de cidadãos que queira verdadeiramente o bem comum. Queria poder fazer mais pela minha terra e pelas pessoas que me rodeiam. Há tanta gente a passar dificuldades. Tanta gente a precisar de ajuda.

Gosto da vida política. Fui deputado e gostei da experiência. Gostava de poder repeti-la, mas sei que não vai ser possível. A lógica partidária e da formação de listas não se coaduna com a minha forma de estar na vida e na política. Não ambiciono ser presidente de câmara. Não é coisa para mim. Respeito muito quem tenha essa vontade e ambição. É preciso gostar-se e ter jeito. Não é coisa para qualquer um.

Quero continuar a ser um cidadão ativo e livre. Não quero que as minhas opiniões me privem de quaisquer direitos cívicos, de ter acesso a determinado concurso, de conseguir determinado contrato, de andar na rua de cabeça erguida e, tão simples, não quero que a minha opinião faça com que as pessoas me virem a cara na rua só porque penso diferente delas.

Tenho 46 anos e quero continuar a ser como sou. A crescer. A evoluir. A envelhecer. Mas quero continuar a ser quem sou.

Hoje optei por partilhar uma fotografia, não dos meus bebés, mas dos meus pais. Eu teria quatro ou cinco meses e era gordo como um leitão. A eles lhes devo quem sou. Obrigado!

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