teatro de fantoches

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É o desejo secreto de todo o detentor de poder: tornar-se um ditador ou, no mínimo, ser senhor absoluto, amado e glorificado pelo povo.

Se assim não é, porque razão se vangloriam os líderes por obterem votações expressivas com resultados superiores a 90%?

Se assim não é, qual o motivo que leva à satisfação de vencedores de eleições por quase terem aniquilado a oposição?

Se assim não é, o que leva os dirigentes partidários a silenciarem e a amputarem toda e qualquer oposição interna?

Posso estar enganado, admito-o, mas esta postura por parte da classe política cada vez mais presente na nossa sociedade tem feito com que os cidadãos se afastem da causa pública e deixem os seus destinos nas mãos destes seres que fazem da fraqueza e fragilidade dos cidadãos o seu alimento preferencial.

Do alheamento do povo ficam abertos caminhos e espaços por preencher à mercê do oportunismo de quem não consegue vislumbrar outra forma de vida e que está sempre disponível para ser uma marioneta cujos cordelinhos são manipulados por outros.

Estará o atento leitor a imaginar as pessoas que pretendo colocar nos ditos cordelinhos ou a manipulá-los. Certamente acertará em alguns, mas faltarão muitos outros, principalmente os que por detrás do pano preto escondem o rosto e as mãos. Mãos pelas quais já passaram dezenas de fantoches, sem que se saiba a quem pertencem e a quem nunca se irão cobrar responsabilidades. Mãos que não têm uma só cor ou um só símbolo e que se perpetuam no tempo, como se de espíritos de um outro mundo se tratassem.

Ficam as dúvidas. Ficam as incertezas. Instala-se o medo.

Perde a democracia. Perdem as populações. Ganham os bonecos do momento e ganham as mãos eternas.

Sem oposição, caminha-se para um pensamento único, sem alternativas. Aceitam-se as soluções apresentadas sem que sejam desmontadas ou questionadas. Diz-se o que o povo que ainda vota quer ouvir, mesmo que não passem de frases feitas ou pura falácia do domínio da propaganda. Faz-se de conta que se faz.

Anunciam-se obras, empregos a criar, protocolos celebrados, militantes angariados.

Divulgam-se imagens, muitas imagens. Divulgam-se notas de imprensa, muitas notas. E tudo parece verdade. Sem contraditório. Sem que ninguém diga que é mentira. Sem que haja memória ou confronto com ela.

Vivemos numa sociedade que se tornou apática e individualista e que se fechou sobre si própria deixando-se ir na cantiga do facilitismo e do paternalismo.

Alguém tomará conta de nós. Alguém resolve. Alguém paga.

A menos de seis meses do ato eleitoral que ditará quem serão os próximos dirigentes autárquicos e quem ficará encarregue de fazer o trabalho de fiscalização e de oposição, o cenário é tudo menos motivador.

Se, por um lado, o partido político que detém o poder camarário, apesar da forte contestação interna, já apresentou o seu candidato (um político de carreira a quem não se conhece qualquer outro tipo de atividade profissional ou fonte de rendimento), do lado da oposição é o silêncio e o vazio. E se estes partidos se tornam incapazes de gerar uma alternativa, quer por demérito próprio, quer por não ter espaço de liberdade para o fazer, no partido dominante, os militantes e simpatizantes resignam-se à solução encontrada, mesmo discordando com ela, para que não saiam das graças do líder e não percam privilégios.

Face a este cenário, resta-nos rezar e esperar por uma ressurreição de domingo de Páscoa que nos livre desta Sexta-feira Santa e de uma Quaresma prolongada.

(publicado hoje no Diário Insular)

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