iscas de fígado

QUILHADOS

Os cartazes emoldurados e pendurados nas paredes do restaurante evocam uma Praia que já não existe. Contudo, no meio do bolor do passado que se vai agarrando aos vidros que protegem aquelas memórias, é possível vislumbrar-se o futuro num período da nossa história recente em que se acreditava no amanhã, eramos utópicos e não sonhávamos que algum dia viéssemos a ocupar quaisquer cargos públicos ou de nomeação política.

Ao olhar para aqueles cartazes assaltaram a minha mente as saudades desses tempos e que me recordam o passar dos anos e a velocidade com que o mundo pode mudar. A ingenuidade e a ignorância relativamente ao funcionamento interno dos partidos políticos e dos processos de tomada de decisão, quer no poder quer na oposição, deixavam-me acreditar que eramos livres para sermos quem quiséssemos e que podíamos defender as nossas ideias, mesmo contra os detentores do poder, sem represálias e sem termos que olhar à volta preocupados com quem pudesse estar a ouvir-nos para de imediato ir encher os ouvidos chefe e desta forma mostrar serviço que prontamente seria recompensado. “O triunfo dos bufos”!

Nem sempre foi ali a morada daqueles anúncios de festivais, concertos e peças de teatro. Vítima do progresso desejado e ambicionado, o restaurante deu lugar àquilo que hoje é a Praceta das Artes e o Passeio d’Os Sombras convenientemente decorados com a obra do Ramiro Botelho, o artista plástico praiense cuja vida foi tragicamente interrompida por altura da sua inauguração.

O antigo Garça era mais do que um restaurante. Era o ponto de encontro para aqueles que se dirigiam ao antigo Salão Teatro Praiense (mais tarde ao Auditório) por ocasião do Festival do Ramo Grande, de uma peça d’A Teia, do Alpendre, da Ilha Décima e de tantos outros eventos de excelência que por aqueles palcos passavam. Era o espaço onde o Luís Bettencourt promovia cafés concerto para acolher os professores novos que chegavam à Praia a cada ano letivo, proporcionando-lhes aquele acolhimento caloroso que só nós sabemos dar. Era aquilo a que hoje se chama um “spot” e que ainda não encontrou substituto, talvez porque a lógica da organização e dinâmica culturais da Praia dos dias de hoje seja completamente diferente daquela que existia há alguns anos. Deixou de ser “laica”, no que às tendências partidárias diz respeito, inquinando desta forma todo o sistema. É com dificuldade que se veem nascer movimentos culturais verdadeiramente independentes com condições para sobreviver e sem terem que pedinchar por apoios, tantas vezes atribuídos de forma tão pouco transparente e sem critérios claros, fazendo com que as iniciativas acabem na gaveta. Todos ficamos a perder.

“Qu’ilhados”. Assim se chamava a peça d’A Teia cujo cartaz me fez viajar no tempo e escrever este artigo. As cores já não são as originais. A intensidade do Sol e a crueldade do tempo encarregaram-se de as desgastar, embora deixando ainda visíveis os nomes dos atores: Evandro Machado, José João Angeiras, Judite Parreira, Verónica Bettencourt e Walter Peres (o “W” não é gralha, é assim que está no cartaz). Fiquei a observá-lo durante algum tempo e a recordar os beliches no palco, a juventude inocente de nós todos, recitais de poesia camoniana nos Paços do Concelho e passeios de Almeida Garrett pelas ruas de Angra.

Acordei! Regressei ao local onde a minha família se encontrava à minha espera. Sobre a mesa, aguardava-me um belo prato de iscas de fígado com batatas fritas como só o Garça sabe fazer. Não sobrou nada.

 

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