um bom mexerico

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Durante muito tempo foi coisa que não me preocupei muito. Com o futuro. Vivia o presente, gozava o presente e isso bastava-me. Nunca planeei um futuro ou desenvolvi uma estratégia para o que quer que fosse. Se me apercebia de uma oportunidade, aproveitava-a e disfrutava dela. Tantas me terão passado ao lado sem que delas me tivesse dado conta. Se a vida nos corre bem, para quê andarmos com calculismos ou estratégias maquiavélicas que mais não fazem do que infetar a nossa vivência serena, transformando-a num inferno que nos afasta do mundo aprisionando-nos às redes sociais cuja dinâmica nos afeta ainda mais. Passamos a viver a vida que os outros querem que nós pensemos que vivem, mesmo que aquela fotografia captada numa qualquer festa ou praia paradisíaca ou restaurante gourmet tenha sido o único momento de felicidade (ou aparente felicidade) das suas míseras vidas. Passamos a viver aquele momento virtual que não o é só para nós, também o será para muitos que o partilham. E sentimo-nos felizes, instantaneamente felizes, causando-nos ansiedade e mesmo um pouco de inveja. Deitamo-nos mais tristes e culpamos os outros por não podermos ser como aquelas pessoas das redes sociais. Como aquelas pessoas que vemos em faustosas mansões, com grandes carros e acompanhados de belas mulheres como as das revistas. Sim, como as das revistas cor-de-rosa que nós, urbanos, cultos e modernos, tanto desdenhamos. A verdade é que não compramos nem lemos revistas cor-de-rosa porque não somos consumidores de lixo informativo, não queremos saber da vida de cada um, nem somos pessoas fúteis. Dizemos nós… Aquelas revistas, tal como os jornais sensacionalistas, não fazem parte das nossas leituras. Nem sabemos os seus títulos. Nem sequer da sua existência. Somos pessoas seletivas com um nível intelectual e cultural superior à média. A nossa ambição. Mas o que são as redes sociais? Não serão elas próprias revistas cor-de-rosa e local de sensacionalismo? Papamos tudo o que lá vem. Sem filtros. Consumimos informação falsa sem termos a capacidade de verificar a sua veracidade. Acompanhamos e, porque não dizê-lo, mexericamos a vida dos outros, mesmo que não o façamos de forma deliberada, e tornamo-nos amplificadores da mensagem quando comentamos com alguém o que vimos e lemos, uma fotografia, uma frase ou um gatinho. Quantos equívocos, quantos boatos, quantas criações já foram feitas a partir de uma fotografia ou de um comentário. Passámos a fazer juízos sobre tudo e todos. Discutimos toda e qualquer matéria e até comentamos. Frases retiradas do seu contexto. Fotografias captadas há anos e apresentadas como se tivessem sido tiradas na manifestação desta manhã. Indignamo-nos de imediato. Choramos o cão que está para ser abatido. Partilhamos a fotografia da menina que precisa de um transplante, mesmo sem sabermos quem é e se realmente existe. Ali, nas redes sociais, conseguimos ser tudo. Cidadãos ativos. Solidários. Voluntariosos. Amigos do seu amigo e dos que nem sabe quem são. Opinativos e indignados. Cheios de ideias e com vontade de fazer alguma coisa para mudar o mundo e a sociedade em que vivemos. Fosse a vida real este mundo virtual…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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