outono criativo

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A Praia não cheira a castanhas assadas, nem sequer as pessoas se passeiam no centro histórico de cachecol enrolado à volta do pescoço, nem as luvas saíram do fundo da gaveta. Aqui e ali já se anunciam festas de São Martinho e o cheiro da naftalina e do mofo dos casacos e samarras, guardados há meses no roupeiro da garagem, começam a ocupar o espaço deixado vazio pelo adocicado odor a suor que o calor deste verão com fim tardio ainda persistia em aromatizar praticamente até à noite de bruxas, que também é de bruxos e feiticeiros adivinhos. Com o uso, a naftalina e mofo acabarão por desaparecer. É a realidade cíclica das estações do ano e da mudança de guarda-roupa e de hora que, equinócio após equinócio, vai alterando a rotina enfadonha de quem, ao entrar no seu “closet”, feito à medida grande e apetrechado com as fatiotas da mais atual “moda moderna”, já não sabe o que vestir ou calçar.

O outono ganha vida na Praia nos finais do mês de outubro. É assim há doze anos. Pelo menos no que a eventos de natureza literária diz respeito. Este seria aquele momento para falar de música, de outras músicas do mundo, que a cidade do Ramo Grande e de Nemésio se havia habituado a ver e ouvir e que o tempo e as decisões políticas – e não só – se encarregaram de lhe pôr um fim. Ao que tudo indica, confiando na palavra dos atuais edis praienses, a nossa cidade vai voltar a ter um festival de música de referência. Ainda bem. Uma cidade que já exportou talento, ideias e cedeu iniciativas tem mais é que ser um polo dinamizador de cultura nas suas mais diversas vertentes, incluindo a musical. Não basta sermos o motor da cultura popular e das tradições. Precisamos inovar, fazer diferente e afirmarmo-nos, não só no plano local e regional, mas sobretudo no plano nacional.

O Outono Vivo e a sua feira do livro têm vindo a afirmar-se e a consolidar a sua presença na agenda cultural da ilha Terceira sendo inclusivamente acarinhado pelos órgãos de comunicação social públicos regionais, designadamente a RTP e a Antena 1 – Açores. Contudo, a Região ainda não assumiu o Outono Vivo como um evento cultural de importância regional e, enquanto assim não for, a feira do livro que há doze anos se realiza na Praia da Vitória, não passará de uma iniciativa de âmbito local, apesar da sua qualidade comprovada.

Atingido o ponto que se atingiu, é preciso dar-se o passo seguinte. O Outono Vivo deixar de ser simplesmente a feira do livro (sem qualquer objetivo depreciativo, antes pelo contrário) e tornar-se um Festival Literário de âmbito nacional como o Folio em Óbidos ou as Correntes d’Escrita na Póvoa de Varzim e, quem sabe, a cidade candidatar-se ao título de “Cidade Criativa”, atribuído pela UNESCO, no domínio da Literatura, como já o é Óbidos, por exemplo. Aliás, a este nível, sendo o concelho da Praia a referência do Teatro Popular, por via do Carnaval, talvez não fosse totalmente descabido apresentar-se uma candidatura a este título no domínio da artes. A Praia e os homens e mulheres fazedores do Carnaval bem o merecem. Fica a sugestão…

Um pensamento sobre “outono criativo

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