dança do ventre

O evento estava previsto para as vinte e uma horas, hora dos Açores. O Vasco, como já vinha sendo hábito, estava atrasado. Desde que conhecera o Luís e que com ele começara a partilhar casa, a sua vida social nunca mais foi a mesma. Mais intensa, menos regrada, mas muito mais regada. O Vasco deixara em definitivo a vida dura de homem do mar para se transformar num boémio. Para trás ficavam as grandes aventuras pela costa de África ou pelas exóticas terras do Oriente. A influência negativa do amigo na vida de Vasco era notória. Apesar de tudo, era o que lhe valia. Sempre era melhor uma noitada bem vivida com o Luís do que um serão depressivo com o outro hóspede lá de casa que tanto dizia chamar-se Fernando, como Alberto ou Álvaro ou Ricardo ou Bernardo ou sabe-se lá o quê. Tudo dependia da dose… Não era mau rapaz, mas com o Luís a vida tinha outra animação.

O Paulo havia marcado a festa através das redes sociais para o Convento de São Francisco. Infelizmente, o irmão Vasco já tinha um compromisso para a mesma noite. Ainda por cima, um daqueles eventos em que a sua presença era obrigatória. Caso contrário, seria o falatório geral e a coscuvilhice do costume. Ao que parece, um jantar onde participariam empreendedores, escritores, fadistas, jogadores de futebol e destacadas figuras públicas sem que fossem, contudo, convidados os donos da casa que, apesar de o serem e terem recebido três mil euros pelo arrendamento do hall de entrada, nem sequer sabiam que ia lá haver uma festa. Aliás, o dono da casa nunca sabe nada, nunca viu nada, nunca ouviu nada… “Não me lembro! Não me lembro!”… Aquilo deve ter sido uma coisa feita à socapa, com os convidados a entrarem pelas janelas e a encomendarem pizzas por telefone ao mesmo estafeta amigo do filósofo da rua Braamcamp. Só pode.

O irmão estava desgostoso. Embora morasse longe, nunca pensou que Vasco lhe fizesse esta desfeita. Gastara uma pipa de massa a contratar uma bailarina de danças orientais e o convidado de honra tinha preferido ficar na capital. O que Paulo não sabia era que Vasco, antes de ir ao famoso jantar, estivera quatro dias fechado num barco virado de pernas ao ar, inicialmente chamado “da Utopia”, a aprender tudo o que havia a aprender sobre novas tecnologias, realidade virtual, inovação e futuro. Aí, conhecera a robot Sophia que lhe explicara como, em segundos, atravessaria o oceano. Sophia era uma coisa esperta, inteligentíssima. Sabia tudo e de tudo. Era o contacto ideal, mesmo não tende osso e, muito menos ainda, carne.

Vasco e Luís, que não fora convidado, dirigiram-se ao local indicado pela amiga máquina. Era uma vulgar praia urbana, mais ou menos deserta, com um pequeno contentor iluminado, um letreiro a indicar a porta e dois homens a guardarem a entrada. Vasco deu o nome, a senha previamente combinada e as portas abriram-se. Entrou. O Luís não teve a mesma sorte. Quando tentou entrar, a coisa correu mal. Não sabia a senha e começou a falar em rimas. Gerou-se uma grande confusão, uma barulheira infernal. O que se sabe é que, na vez seguinte em que o amigo o viu, o Luís tinha um olho a menos. Não fosse alguém a puxar do telemóvel e filmar a cena e seria mais um “isso não é verdade, não é nada comigo”.

Esbaforido, porque atrasado e sem saber o que se passara na praia, Vasco, como que do nada, cai no Pátio da Alfândega e corre até ao Convento de São Francisco, a residência do irmão. Encontrou-o sentado num banco, triste e sozinho. Ninguém aparecera. Justificando-se, Paulo limita-se a diz que quando lhes disse que era São Francisco, eles pensaram que fosse o Xavier e tiveram medo. Vasco apressou-se a consolá-lo dizendo que eram todos uns medricas que nem sabiam o que era escorbuto ou sífilis. Paulo ficou logo animado com toda a energia positiva transmitida por Vasco. “Preparei-te uma surpresa que te fará lembras os teus tempos de mareante!”

Escusado será dizer que os irmãos Gama se divertiram à grande. Quanto aos donos da casa, passados anos sobre este episódio… “ninguém sabe, ninguém viu”.

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