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Mês: Dezembro 2017

31 de dezembro

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31 de dezembro deveria ser declarado o dia mundial dos desejos, da boa-vontade e da iniciativa, também modernamente conhecida por empreendedorismo. Este é o dia em que se fazem dezenas de planos para o novo ano, que se renovam votos e que se sonha acordado. Aquela noite é que todos somos muito felizes e irradiamos alegria e boa disposição.

Para o ano é que vai ser. Para o próximo ano é que vou conseguir fazer tudo o que era para ter feito nos últimos dias – 364, para ser mais preciso – mas que só hoje me lembrei que, há um ano, tinha essa vontade louca de me realizar.

Para o ano não vai ser assim. Mas não amanhã, que não me dá jeito nenhum. Há de ficar para a próxima segunda-feira…

A todos quantos têm pachorra e paciência para me lerem, votos de um bom ano de 2018. Melhor dizendo, votos de um excelente dia 1 de janeiro. É aí que tudo começa!!

imoralidades de fim de ano

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A dificuldade de entendimento entre si por parte dos partidos políticos é conhecida. Não são raras as vezes que propostas que beneficiariam os cidadãos e o país se vão arrastando nos parlamentos nacional e regional à espera da negociação de detalhes, de desamuos ou, simplesmente, do momento certo para serem aprovadas, tornadas públicas e alguém colher os louros para beneficio eleitoral, a prioridade das prioridades.

Este final de 2017 não foi exceção, à exceção do entendimento entre as forças partidárias, excluindo-se o PAN e CDS-PP. Sim, trata-se de uma exceção que só é possível quando se legisla em benefício próprio. Um clássico.

À porta fechada, sem atas ou quaisquer outros registos, PS, PSD, BE, PCP e PEV, acordaram em alterar-se a lei de financiamento dos partidos. E não foram precisas muitas reuniões. Bastaram nove. É verdade que foi de abril a outubro deste ano o que significa que, enquanto o país estava a arder e enquanto, em público, havia acusações mútuas, incluindo referências a caráter e seriedade, na sombra, fora da vista dos cidadãos, estas cinco forças partidárias conseguiam conciliar propostas e pontos de vista com o intuito de alterar uma lei que os permita financiarem-se como quiserem e sem limites e, pasme-se, pedirem a restituição total do IVA para todas as aquisições de bens e serviços. A nova lei permite, ainda, que pessoas particulares possam pagar despesas de campanha a título de adiantamento.

Sou favorável ao financiamento dos partidos. Sem eles, apesar de tudo, o sistema democrático não funcionaria. Logo, por isso, têm que ter condições para fazer o seu trabalho. Divulgar a sua mensagem, debater a causa pública com os eleitores e estarem em permanente contacto com eles. Claro que este dinheiro não deve ser usado para comprar carros de alta cilindrada, pagar motoristas particulares, ter chefe de gabinete, adjuntos e assessores, nem tão pouco pagar as chamadas despesas de representação de luxo. Isso é para a Raríssimas e, quero crer, na minha infinita ingenuidade, que tal não acontecerá nos partidos que conheço ou julgo conhecer.

Esta foi a pior forma de acabar 2017. Mas o momento de aprovação desta alteração legislativa terá sido meticulosamente escolhido e acertado entre as partes. O período de festas natalícias em que toda a gente anda distraída com presentes e viagens, com a família, as crianças e a confeção de guloseimas, bacalhau e peru é o melhor para se fazerem coisas destas. Imorais e de afrontamento aos portugueses que, contrariamente ao discurso oficial e de propaganda, ainda não saíram da crise, temendo pela chegada de uma nova. Enquanto o povo anda distraído, à socapa, a classe política, eleita por nós e por nós sustentada, não se coíbe de, mais uma vez, nos vir ao bolso – isto para usar uma expressão tão ao gosto do PCP, BE e PEV que tanto gostam de chamar nomes a tudo quanto se mexa.

Portugal tem que deixar de ser uma gigantesca Raríssimas onde se financia, com dinheiros públicos, luxos e mordomias. Os partidos políticos, infelizmente, têm sido disso um bom (mau) exemplo. Endividados até aos colarinhos, criam leis para resolverem os seus problemas e passarem a ter as suas contas a zero. O comum dos mortais, esse, tem mais é que pagar tudo o que deve ou, em alternativa, tem que vender a casa ou passar a viver abaixo das suas possibilidades.

Esta alteração à Lei ainda não foi aprovada pelo Senhor Presidente da República. Fiquemos à espera da sua sensatez.

Bom ano de 2018!

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Quando, a passos largos, o ano se vai aproximando do fim, é inevitável que comecemos a olhar, de forma crítica, mas atenuada pelo passar do tempo, os 365 dias que passaram.

Não esquecendo a tragédia nacional dos incêndios, do episódio do roubo de armas em Tancos, do caricaturável jantar do Panteão, do espetáculo mediático da WebSummit ou do recente escândalo na IPSS da Doutora da Parada que só é Raríssimo porque, por outras bandas, enquanto a pia não secar, as comadres não brigam, dois mil e dezassete foi marcado pelas eleições autárquicas.

Como consequência disso, este foi mais um ano de promessas, compromissos, reposicionamentos políticos e que deixou a nu as fragilidades internas das estruturas partidárias, o que sempre acontece nas mudanças de liderança ou na sua ausência.

A luta pela sucessão no Partido Socialista na Praia da Vitória teve os contornos que se conhecem. De um partido que se dividiu em torno de dois candidatos – Tibério Dinis e Carlos Armando Costa – saiu uma solução em que as duas fações, aparentemente, se identificam, pese embora as mudanças de última hora ocorridas na lista para a Assembleia Municipal, deixando transparecer algum desconforto, ou mesmo “desapoio”, por parte de Roberto Monteiro. Se esta mudança, como se chegou a pensar”, pretendia revelar a vontade de Tibério Dinis em romper e descolar do consulado do seu mentor é algo que ainda não deu para perceber. Contudo, a avaliar pelas ações destas poucas semanas de mandato, tal será difícil de acontecer.

No Partido Social Democrata o processo também não foi fácil. Embora por razões bastante diferentes, o partido andou durante meses num corrupio intenso de luta contra o tempo à procura de um candidato. O período pós-eleições regionais abriu feridas que custaram a sarar e que só terão cicatrizado após o fecho das listas autárquicas. Pelo menos é o que se pode depreender da sua composição onde se manifestaram as alianças mais improváveis. A solução encontrada para encabeçar a lista à Câmara Municipal, Cláudia Martins, embora tardiamente anunciada, era um nome apontado desde o início. Se da primeira vez em que o seu nome foi falado tivesse sido de imediato apresentado, a candidata não teria ficado conhecida por ser uma solução de recurso, mas uma solução inovadora, personificando vontade de mudança. Ainda assim, não desiludiu. Surpreendeu. Apesar do curto período de antena, a candidata do PSD mostrou que tem capacidade e vontade de fazer mais. Desenganem-se aqueles que, colando-se a ela e aproveitando o seu, apesar de tudo, sucesso, pensam vir a construir carreiras políticas. A Cláudia Martins vale por si só. O resultado eleitoral alcançado é dela e só dela. Vamos ficar atentos ao seu percurso. A “miúda” chega longe!

Falar de autárquicas na Praia sem falar dos resultados eleitorais das freguesias, é como falar do Natal sem falar do Menino Jesus, embora ande esquecido. As vitórias eleitorais do PSD nas freguesias da Agualva, Biscoitos e Fontinhas, assim como o reforço da votação nas Lajes, foram o sal e a pimenta destas eleições onde o resto era expectável.

O que fica? Ficam os compromissos e as promessas. Espera-se que 2018 traga novidades. Que se cumpra o prometido e que a Praia descole, finalmente, do estado de letargia em que se encontra e se transforme num concelho de prosperidade e de futuro. Tal só é possível com a ajuda de todos, puxando para cima, motivando e incentivando. Assim também se faz Natal…

Boas Festas e Feliz Natal!

somos cobardes…

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…e hipócritas. Nunca temos culpa de nada. Custe o que custar, procuramos – e encontramos sempre – algum bode, ou até mesmo uma cabra, que expie a nossa cobardia. Levamo-lo(a) para o cepo e zás, lá vai a cabeça a rolar pelo chão com os caracóis ensanguentados e os olhos abertos, a brilhar, sem pestanejo, que, depois de morto, só o pensamento fica e o espírito assombra. E como assombram os espíritos inocentes que vagueiam por entre a multidão, em salas e pretensos salões onde os egos e o inchaço da presunção mal têm espaço. Ocupantes de tez bronzeada e nó de gravata feito em volta simples, torto, mas fácil de desfazer, não vá ser preciso dar um ar de descontraído, sem tirar o casaco, e desmanchar o personagem criado ao longo de anos, com narrativa alternativa, cuidada, pretensamente incólume e ao gosto das primeiras páginas e dos distraídos.

Gostamos de esquinas, de um qualquer canto escondido na sombra e de ficar de costas para a porta do café, não vá alguém que (não) interesse identificar-nos e perdermos a oportunidade de lhe repetirmos a mesma conversa, agora condimentada com os novos dados, no momento mais oportuno que poderá ser já daqui a instantes, mal entremos no carro e ninguém perceber que temos o telemóvel mesmo ali à mão. Colocamos na boca do outro as palavras que não temos coragem para assumir e dizer, mas ficam ditas. “Ouvi dizer…” Ao sabor dos nossos interesses, jogamos este jogo de sombras e tentamo-nos ir safando por entre os pingos da chuva. Umas vezes safamo-nos, outras não. Alguns, sempre. Tudo depende do grau e da capacidade camaleónica de cada um.

O olfato desempenha um papel central neste sistema de “hipocobardia”. Entenda-se que o prefixo “hipo” é aqui usado como derivante de “hipocrisia” e não como qualquer correlação à nobre família equídea, sendo certo que os coices abundam e que a expressão “albarda-se o burro/cavalo à vontade do dono” constitui um dos mandamentos fundamentais da Lei deste Deus. Se hoje és cavalo, facilmente te transformas em burro. Para tal, basta que na baia ao lado o cheiro for mais apelativo e der mais garantias, mesmo que não passes de moço de estrebaria e te limites a segurar o estribo para que outro alguém monte o corcel. Felizmente, o inverso também é possível, passar de burro a cavalo. São as vantagens da democracia e deste sistema de mobilidade entre castas que funciona na perfeição. Ainda bem!…

Hoje, somos amigos do Manuel. O maior que o mundo alguma vez viu e amou. Ele é como nós. Um nosso igual. Dou a vida por ele. Os ventos mudam e o José posiciona-se para liderar o concurso. Tudo indica que vai ganhar a contenda. Nunca se passou a dizer tão mal do Manuel como até agora, dizendo dele o que nunca diríamos de nós, e o José, esse fenómeno da Natureza, nascido para ser um vencedor, é colocado num altar. Um Deus. Um ídolo.

Certo dia, o José esquece-se de fazer “gosto” numa publicação nas redes sociais. José torna-se um alvo a abater. Eu sempre disse que o gajo não valia nada. O Manuel, esse sim, é que é um homem às direitas. Sempre estive do lado dele. O Manuel não tem Facebook. Não tem como partilhar fotografias de grupo onde identifica os amigos. O João tem e com muitos seguidores. Grande amigo.

As cabeças de José e Manuel – os culpados de tudo – estão agora no cepo. João anda de jantar de Natal em jantar de Natal com os amigos do José, inimigos de Manuel, e com os amigos de Manuel, inimigos de José, agora, amigos uns dos outros.

Sempre fomos grandes amigos.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

filho és, pai serás

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As viagens eram penosas, mas quase todos os anos, lá íamos. Uma vez, até fomos no Natal. A terra do meu pai é uma pequena aldeia perdida em Trás-os-Montes. Brinço, freguesia de Ala, concelho de Macedo de Cavaleiros. Poucas casas, menos ruas ainda, quatro largos: o da Bica, o da igreja, o do café da Miloca e o do coreto, onde fica a casa e a venda dos meus avós. Já demoliram o coreto e a árvore gigante que marcava o seu centro foi cortada. Dizem que tinha uma doença. A festa principal da aldeia era aí que se fazia, em frente à casa dos meus avós. O bazar ficava encostado ao nosso muro e a improvisada cabine de som era montada no nosso quintal sob a latada.

Nos dias de hoje, a auto-estrada passa bem lá perto e a viagem do Porto até lá é bem mais rápida. Já não tem comboio. Também não tem gente. No ano em que fomos passar o Natal com a família do meu pai a minha mãe não foi. Viajámos no avião militar até Lisboa e, sem pernoita na capital, seguimos para o Porto de comboio, como era habitual sempre que íamos ao continente. Não sei como se terá desenvencilhado o meu pai, sozinho, com nós os dois. As malas, entrar e sair do comboio, um com fome e o outro a querer fazer xixi. Não me recordo dos detalhes da ida, mas tenho bem presente na minha memória, o regresso.

Saímos de Macedo de Cavaleiros no comboio que partia ao fim da tarde. Deveríamos estar a 26 de dezembro. As carruagens estavam apinhadas de gente e os corredores totalmente ocupados com malas de viagem. Quase não conseguíamos circular. Em algumas partes do percurso tivemos que saltar, e até andar, sobre a bagagem no chão. Era o regresso a casa depois das férias do Natal. A maioria dos ocupantes eram militares. Chegámos a Lisboa no outro dia de manhã. Dormimos onde havia espaço. À minha irmã – que deveria ter uns seis ou sete anos – os magalas cederam um lugar para que ela pudesse dormir. O meu pai aguentou-se.

Nesta semana que agora finda, fiz a minha primeira viagem a Lisboa com os meus dois filhos. Já viajei bastante, mas nunca tive uma aventura como esta que começou no momento de acordar cedo para irmos até ao aeroporto. Uma birra para não sair da cama, outra para não vestir, outra ainda porque os brinquedos têm que ficar atrás ou porque a papa não tem a consistência certa. E ainda nem entrámos no carro.

A SATA só dá a chamada refeição ligeira a quem paga bilhete. A Amélia, que ainda vai ao colo, não tem direito. O repasto, para as crianças pagantes, inclui um chocolate. O Jorge comeu-o todo. A Amélia ficou a ver, mas não ficou calada. E ainda só estávamos no avião.

Aterrámos em Lisboa com um atraso de mais de meia hora. Não há nada melhor do que atrasos, quando estamos a lidar com crianças. Fome, sono, impaciência, birra. Sempre aquela birra que nos fere os ouvidos e nos momentos mais certeiros. Adormeceram poucos minutos antes de tocarmos na pista. Como são pontuais as minhas crias. Tiveram que acordar à pressa. Mais uma birra. E ainda nem tínhamos começado as férias.

Pensei muitas vezes no meu pai e naquela viagem de comboio. Na minha mãe quando, noutras viagens, tinha que nos segurar, dar de comida ou mudar a fralda, enquanto o meu pai confirmava horários, procurava transporte e carregava as malas para um comboio ou para um carro ou para um autocarro. Naquele tempo, crianças ao colo e carrinhos-de-bebé não tinham prioridade.

Sempre que, agora, as birras chegavam ou a comida quase que voava do prato, pensava neles, nos meus pais. Tudo se ultrapassa.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.