filho és, pai serás

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As viagens eram penosas, mas quase todos os anos, lá íamos. Uma vez, até fomos no Natal. A terra do meu pai é uma pequena aldeia perdida em Trás-os-Montes. Brinço, freguesia de Ala, concelho de Macedo de Cavaleiros. Poucas casas, menos ruas ainda, quatro largos: o da Bica, o da igreja, o do café da Miloca e o do coreto, onde fica a casa e a venda dos meus avós. Já demoliram o coreto e a árvore gigante que marcava o seu centro foi cortada. Dizem que tinha uma doença. A festa principal da aldeia era aí que se fazia, em frente à casa dos meus avós. O bazar ficava encostado ao nosso muro e a improvisada cabine de som era montada no nosso quintal sob a latada.

Nos dias de hoje, a auto-estrada passa bem lá perto e a viagem do Porto até lá é bem mais rápida. Já não tem comboio. Também não tem gente. No ano em que fomos passar o Natal com a família do meu pai a minha mãe não foi. Viajámos no avião militar até Lisboa e, sem pernoita na capital, seguimos para o Porto de comboio, como era habitual sempre que íamos ao continente. Não sei como se terá desenvencilhado o meu pai, sozinho, com nós os dois. As malas, entrar e sair do comboio, um com fome e o outro a querer fazer xixi. Não me recordo dos detalhes da ida, mas tenho bem presente na minha memória, o regresso.

Saímos de Macedo de Cavaleiros no comboio que partia ao fim da tarde. Deveríamos estar a 26 de dezembro. As carruagens estavam apinhadas de gente e os corredores totalmente ocupados com malas de viagem. Quase não conseguíamos circular. Em algumas partes do percurso tivemos que saltar, e até andar, sobre a bagagem no chão. Era o regresso a casa depois das férias do Natal. A maioria dos ocupantes eram militares. Chegámos a Lisboa no outro dia de manhã. Dormimos onde havia espaço. À minha irmã – que deveria ter uns seis ou sete anos – os magalas cederam um lugar para que ela pudesse dormir. O meu pai aguentou-se.

Nesta semana que agora finda, fiz a minha primeira viagem a Lisboa com os meus dois filhos. Já viajei bastante, mas nunca tive uma aventura como esta que começou no momento de acordar cedo para irmos até ao aeroporto. Uma birra para não sair da cama, outra para não vestir, outra ainda porque os brinquedos têm que ficar atrás ou porque a papa não tem a consistência certa. E ainda nem entrámos no carro.

A SATA só dá a chamada refeição ligeira a quem paga bilhete. A Amélia, que ainda vai ao colo, não tem direito. O repasto, para as crianças pagantes, inclui um chocolate. O Jorge comeu-o todo. A Amélia ficou a ver, mas não ficou calada. E ainda só estávamos no avião.

Aterrámos em Lisboa com um atraso de mais de meia hora. Não há nada melhor do que atrasos, quando estamos a lidar com crianças. Fome, sono, impaciência, birra. Sempre aquela birra que nos fere os ouvidos e nos momentos mais certeiros. Adormeceram poucos minutos antes de tocarmos na pista. Como são pontuais as minhas crias. Tiveram que acordar à pressa. Mais uma birra. E ainda nem tínhamos começado as férias.

Pensei muitas vezes no meu pai e naquela viagem de comboio. Na minha mãe quando, noutras viagens, tinha que nos segurar, dar de comida ou mudar a fralda, enquanto o meu pai confirmava horários, procurava transporte e carregava as malas para um comboio ou para um carro ou para um autocarro. Naquele tempo, crianças ao colo e carrinhos-de-bebé não tinham prioridade.

Sempre que, agora, as birras chegavam ou a comida quase que voava do prato, pensava neles, nos meus pais. Tudo se ultrapassa.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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