Terceira tóxica

Quem, nas últimas semanas, meses até, seguiu as notícias locais – cá da ilha – ficará com a ideia de que a Terceira se tornou numa espécie de Chernobyl do Atlântico, tantas são as notícias, reportagens e paixões sobre a presença norte-americana nas Lajes e o rasto ambiental deixado pela superpotência estrangeira.

O que motiva as páginas e páginas de relatos escritos sobre esta matéria não é assunto que me caiba a mim julgar ou comentar. Quem sou eu? Um leigo nestas questões de ciência ambiental. A verdade é que muito do que por aí circula tem por base opiniões de outros tão

leigos como eu, rareando as vezes em que o assunto é tratado por verdadeiros especialistas avalizados por entidades competentes e reconhecidas pela comunidade cientifica internacional. Se, por exemplo, eu fosse porteiro da NASA – com todo o respeito por quem ocupada essa nobre função – não faria de mim um astronauta, mesmo que muitas vezes sonhasse andar na Lua.

A contaminação dos aquíferos da ilha Terceira é um assunto sério – muito sério – e não deverá ser tratado com a ligeireza com que muitas vezes é abordado. A questão é prioritária e deverá constituir o centro da ação política nacional no que aos Açores diz respeito. Com isto não

quero dizer que o Governo Regional e a Câmara Municipal devam ficar fora do processo. Antes pelo contrário, têm a obrigação de alertar e pressionar Lisboa no sentido de encontrar a melhor solução para este problema que não poderá ser visto como uma mera arma de arremesso político-partidário, mas um dos temas que exige a união de todos, incluindo a própria sociedade civil que tantas vezes é ignorada.

Caberá necessariamente à Administração Norte-Americana resolver o assunto e assegurar o processo de descontaminação. Disso não restam quaisquer dúvidas. Mas cabe-nos a nós fazer a outra parte, protegermo-nos e garantirmos que, para além da hecatombe económica

decorrente do processo de redução do contingente militar americano nas Lajes, não caia sobre nós uma segunda hecatombe que destrua o que resta da nossa frágil economia e mate, à nascença, a nova galinha dos ovos de ouro – o turismo –, bem como os setores tradicionais.

Vendemo-nos como Natureza pura, como o paraíso na Terra, como paisagem verdejante e garantia de melhor frescura nos lacticínios, na carne ou no mel. Infelizmente, se levarmos a sério tudo o que se tem dito e escrito sobre a contaminação, todos os slogans e epítetos usados para adjetivar a ilha, não passam de mentira e falácia. Tudo estará contaminado, a água que bebemos, a carne e as verduras que comemos, o leite e o queijo, até o ar que respiramos. Será mesmo assim? Será que a contaminação da ilha atingiu tais proporções? Os jornais dizem que sim. As entidades oficiais dizem que não. Os especialistas não se sabe o que dizem.

Com o andar da carruagem, e se continuarmos neste registo de dizer o pior que temos sem nos preocuparmos a propor e a reivindicar soluções, qualquer dia nem precisaremos de procurar um bode expiatório para o culpar de nos boicotar o futuro ou de nos impedir de

crescer e desenvolver. Nós fazemos isso por ele. E já provámos que, pelo menos nisso, somos muito bons!

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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