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a vitória da ignorância

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Há três anos, mais concretamente a 24 de janeiro de 2015, o semanário Expresso publicava na sua secção de ciência um artigo cujo título era uma questão: “Necrópole romana descoberta nos Açores?”.

Virgílio Azevedo, o autor do texto, referia-se à Terceira como sendo “uma ilha misteriosa” fundamentando a adjetivação com a apresentação de alguns dos achados arqueológicos ocorridos na ilha e que, alegadamente, serão pré-portugueses. A coluna romana encontrada em Angra, as construções megalíticas da Grota do Medo, o columbário romano das Lajes e os hipogeus do Monte Brasil são os exemplos apresentados.

Não era a primeira vez que vinha a público a questão dos achados arqueológicos na Terceira. Aliás, já em 2013, por iniciativa do PPM, a Assembleia Legislativa da Região recomendava ao Governo Regional que promovesse “o estudo, de natureza interdisciplinar, e com recurso à recolha de material que permita estabelecer a sua datação, dos achados arqueológicos realizados recentemente na Grota do Medo, no Monte Brasil e na Ilha do Corvo”. À época, ainda não era conhecido columbário das Lajes.

Cinco anos volvidos desde a recomendação do Parlamento, três anos depois do expresso dar projeção nacional ao tema e quase um ano depois da National Geographic ter transmitido um programa em que os achados da Terceira mereceram destaque, por cá, o assunto, se não morreu, está em coma profundo tal é o silêncio que à sua volta se estabeleceu.

Este parece ser um tema tabu para o Governo. Não consigo compreender porque razão. Não entendo o motivo que leva as entidades competentes a não estudar o caso, a não realizar prospeções ou mesmo a assumir que, por razões políticas, não pretende saber o que foi encontrando. Qual o medo? Qual o problema em descobrir-se que, antes dos portugueses, outros povos por cá andaram? Que problema existe em questionar a história e em reescrevê-la se for esse o caso?

A provarem-se as hipóteses que têm sido apresentadas como justificativas da existência dos diversos achados arqueológicos encontrados, outras páginas seriam acrescentadas à nossa história sem que, no entanto, o período pós-descobertas fosse abalado. Antes pelo contrário. Sabendo que outros cá estiveram e não tiveram capacidade para se implementarem e permanecerem de forma duradoura, a iniciativa e o trabalho desenvolvidos pela Coroa Portuguesa seriam certamente valorizados, como valorizado seria o nosso património histórico, cultural e arqueológico. A dificuldade, contudo, seria saber o que fazer com ele já que àquele que oficialmente é valorizado, na prática, é como se não existisse.

Não podemos continuar a olhar para as coisas e ignorá-las só porque a iniciativa não foi nossa. Não podemos continuar a fugir às questões só porque, na discussão, podemos “perder”. Este é mais um daqueles assuntos é que não deverão existir vencedores nem vencidos. Ou melhor, é mais daqueles assuntos em que, se nada for feito, se não for devidamente estudado, haverá um único vencido, o povo açoriano, e uma vencedora, a ignorância, que se arrisca a fazer o pleno…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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