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fechou a Base, veio a Ryanair

Shoppers carry Primark bags in London

Já de tudo se comprou na Base. Desde televisões a máquinas-de-lavar, passando por calças-de-ganga, sapatilhas, óculos-do-sol ou relógios, até ao ketchup, maionese, coca-cola e whisky. As lojas americanas – os BX’s – forneciam a ilha inteira. Até há relativamente pouco tempo, não havia casa terceirense que não tivesse um eletrodoméstico americano, que não vestisse calças-de-ganga da base ou que não oferecesse, no Natal, aos filhos, brinquedos comprados na chamada “América pechinchinha”. Nas tascas era frequente encontrarem-se os refrigerantes que algum amigo, com cartão, conseguia comprar e os revendia “cá fora”. O mesmo se passava com os chocolates das cestas dos vendedores de batatas-fritas e pipocas ou mesmo com bidons de gasolina que percorriam as canadas do Ramo Grande e abasteciam algumas máquinas aí estacionadas.

Esta situação levou a que por diversas vezes se exigisse ao Governo português que limitasse o acesso dos portugueses a essas lojas. Que proibissem a venda de produtos americanos aos portugueses e que a sua revenda, “cá fora”, fosse fortemente punida. Dizia-se, diziam as organizações habilitadas para o efeito, que esta situação prejudicava fortemente o comércio local. Que era concorrência desleal. E era-o, de facto. Enquanto os terceirenses, em pessoa ou através de intermediários, se abasteciam na Base, gastando lá os seus escudos transformados em dólares, não o fazia cá fora. O que era deveras interessante de ver, eram os favoráveis ao encerramento das lojas com os carrinhos-de-compras cheios, sempre que a Força Aérea lhes oferecia a desejada senha que os permitia entrar no BX. Bem prega Frei Tomás…

A Base fechou os portões e as lojas americanas fecharam as portas. Instalou-se o caos na Terceira e a economia cai a pique.

Entretanto, chegaram as low-cost e com elas o turismo. Os preços das passagens aéreas baixaram de forma drástica, até mesmo na SATA e na TAP. Quem haveria de dizer quer um dia seria possível ir a Lisboa por escassos 134€, no máximo. Como é bom o nosso Governo! A Ryanair era o milagre que todos esperávamos. Isto agora é que vai ser ver turistas todo o dia nas ruas, a comerem nos nossos restaurantes e a frequentarem os nossos cafés. A indústria hoteleira tem dificuldade em acompanhar este boom de visitantes e estes novos americanos pagarão as rendas que se deixou de receber aquando da partida dos yankees. Nasce a nova galinha dos ovos de oiro: o alojamento local… até ver!

Tal afluxo de novos visitantes trazidos pela low-cost de serviço não teve reflexo na dinamização do comércio tradicional, contrariamente ao que sucedeu na restauração e na hotelaria. Antes pelo contrário. A descida dos preços das passagens aéreas permitiu que os terceirenses tivessem maior facilidade em se deslocar ao exterior, a Lisboa e ao Porto. Agora é muito mais fácil ir às compras ao Colombo, ao Vasco da Gama ou ao Norte Shopping com a vantagem de, ao mesmo tempo, se poder ir ver um jogo do Benfica, do Sporting ou do Porto ou mesmo assistir a um megaconcerto no Altice Arena.

Já não precisamos de fazer compras na Terceira. Vamos diretamente ao continente. Em alternativa, podemos ainda comprar online e nem precisamos sair de casa. Contudo, não podemos ser como os tais que exigiam o encerramento do BX e depois iam lá às compras. Não podemos dizer que não se vê ninguém nas lojas quando nós, à primeira oportunidade e agora é fácil, não fazemos compras no nosso comércio tradicional e preferimos gastar o dinheiro em Lisboa.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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