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Mês: Março 2018

coroada de espinhos

O crescimento é lento. Por isso, demorarão alguns anos para que a minha parede de pedra fique coberta com esta planta verde que consegue sobreviver com a humidade existente no ar. Tecnicamente é uma Tillandsia aeranthos, cravo-do-ar para os amigos, e existe em abundância por estas terras açoreanas onde humidade é o que não falta. Hoje está sol! Um dia bom para apreciar estas plantas aéreas e vê-las crescer… se conseguirem!

o prazer de comer em família

Na senda dos restaurantes/casas de pasto, hoje, em dia de aniversário, chegámos à Taberna do Roberto. Um luxo! O atum assado no forno a lenha é de comer e chorar por mais. O cabrito assado, bem, o cabrito assado comeu-se depois do atum e já havia pouco espaço. Tal desperdício! Lá vamos ter que o levar para casa e comer amanhã. Amanhã não que é Sexta-feira Santa. Depois de amanhã. E isto tudo bem regado e na companhia da família mais próxima. É na Grota do Medo. Mas não tenham receio, vale a pena.

chegou a fatura da água

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29,62€! Nada de extraordinário se estivéssemos a falar de uma habitação com elevado consumo desse bem precioso. Acontece que esta fatura não diz respeito a uma casa de moradia, mas sim a um estabelecimento de serviços classificado na Praia Ambiente como “indústria/comércio”.

O consumo de água propriamente dito é de 1,93€ gasto nas descargas do autoclismo e de cada vez que se enche a máquina do café. Destinados a resíduos urbanos estão uns módicos 13,53€ que correspondem à produção industrial de lixo que, mensalmente, servirá para encher, no máximo, um a dois sacos de asa daqueles que se pagam a quatro cêntimos nas compras do Modelo ou do Guarita. A somar a isto tudo lá vão mais 13,39€ em taxas.

Resumindo, o valor da água consumida propriamente dita corresponde a 6,7% do valor total da conta… da água!

Isto tudo porque nós somos uma empresa e, nesta terra, ser empresário significa que estamos todos ao nível do Belmiro de Azevedo ou do Ricardo Espírito Santo ou dos Bensaúde. Não estamos! Muitos de nós, nem o ordenado mínimo consegue tirar para si.

Não é com discursos e tarifários destes que se apoia o autoemprego e as microempresas. É com ações e, essas, tardam em ser implementadas. E que tal reduzir os valores dos resíduos na fatura da água? Só para começar.

assumo, sou bairrista

Tudo serve de justificação para se retirarem serviços à Terceira. É a baixa ocupação dos voos, a dimensão do mercado, a falta de escala. Tudo serve para centralizar serviços. É a necessidade de dinamizar a economia, de se criar emprego ou porque dinamizar a economia “aqui”, significa dinamizar a economia do conjunto. Balelas. Engodo. Centralismo. Bairrismo. Isso sim é bairrismo. Diria mesmo, imperialismo. O problema será outro. Não é necessário investir na Terceira porque, faça o que se fizer, sejam quais forem os candidatos, podia até ser o António da Casa da Ribeira (que Deus o tenha num bom lugar) e o resultado está garantido… na mesma. E eles nem reclamam.

A verdade é que a alternativa não é melhor. E viu-se agora no caso da supressão da ligação Terceira-Porto realizada pela transportadora aérea regional. Ao invés de se defender a permanência dessa rota a partir das Lajes e de se reivindicarem outras, preferiu-se atacar o mensageiro e ridicularizá-lo. No caso, a deputada Mónica Oliveira. É mais fácil. Não estou a defender a senhora deputada, até porque prestou um mau serviço à ilha priorizando a defesa do partido político pelo qual foi eleita. Compreende-se. No final de contas, é o que todos, ou quase todos, fazem. E se não o fazem, bem podem dizer adeus a um lugar na próxima lista e à reeleição. Não acontece só no partido da maioria e é por isso que se prefere atacar as pessoas em vez das suas ideias. Não há lugar para todos.

O centralismo geográfico e partidário é uma realidade indesmentível e à vista de todos. Não haverá açoriano, incluindo os terceirenses, que não ache que para se ser candidato a presidente do governo regional tem de se ser de São Miguel. É factual.

Os Açores e o seu sistema político correm um sério risco de se desagregarem. É um exagero, eu sei, mas a realidade diária prova que o que temos não nos está a servir. O poder foi transferido de Lisboa para Ponta Delgada e isso está a fazer com que as restantes oito ilhas estejam a ser tratadas como periferias. A sua população não justifica grandes investimentos públicos. Não faz sentido os passageiros entrarem pela Terceira ou pela Horta ou pelo Pico ou por Santa Maria se a maioria das pessoas vive em São Miguel e se é nesta ilha que a maior capacidade hoteleira está instalada. Não faz sentido criar-se uma plataforma logística na Praia da Vitória porque o maior volume de mercadorias não se destina à Terceira. Não faz sentido transferirem-se as operações da SATA para as Lajes porque… porque não faz sentido transferir-se o que quer que seja para outra ilha mesmo que isso seja única e exclusivamente uma opção política.

A deputada Mónica Oliveira defendeu o seu partido. Também não estranho que tenha sido ela e não um dos outros deputados mais experientes a defender o indefensável. Contudo, também nunca vi uma posição clara sobre os temas referidos acima por parte PSD. O CDS-PP, honra lhe seja feita, já o fez. Talvez por o seu líder ser da Terceira e não ter de prestar contas a São Miguel no momento em que se recandidatar e querer renovar o seu mandato de deputado. Enquanto isso, pode-se rever o estatuto político-administrativo, o regimento da assembleia ou que quer que seja que vá servindo de entretenimento e tudo fica na mesma. Não são os papéis que fazem os sistemas, mas aquilo que se as pessoas querem fazer com eles.

Se ser bairrista é defender a sua terra, que mal há nisso? Sejamos então bairristas. Os outros, ao que se vê, não têm nenhum problema com isso.

“Young Holy Ghosters”

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São todos portugueses e jogam às cartas numa casa da George Street em Fall River. Por este detalhe arriscaria dizer que são todos micaelenses. As idades variam entre os 15 e os 25 anos e, não tivesse sido a fotografia tirada a 21 de junho, poderíamos dizer que estes jovens operários estariam a recriar a última ceia.

A fotografia, da autoria de Lewis Hine, está guardada na Biblioteca do Congresso Americano e data de 1916.

comida de encher barriga

Se isto fosse o MasterChef chamavam-lhe “confort food” ou “comida de homem”. Eu chamo-lhe “comida de encher barriga” e estou no Snack-Bar André, na rotunda de entrada para a freguesia do Cabo da Praia. Têm um buffet com feijoada de feijão (é como está no quadro negro escrito a giz), rojões, costeletas de porco, uns peixes assados e um tabuleiro com salada, para os que se acham mais saudáveis que os outros. Ainda há os acompanhamentos básicos como o arroz e as batatas fritas e cozidas, para o peixe. Decididamente, é comida daquela que nos deixa satisfeitos a pensar que o melhor vai ser não jantar nem fazer análises amanhã. É barato!

sorrisos de pedra

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Com alguma dificuldade – e muito lentamente – tenho procurado retomar alguma vida social e recuperar hábitos que, com o nascimento dos meus filhos, deixaram de o ser. Ir ao cinema, ao teatro, a conferências ou visitar exposições tornou-se uma extravagância, algo que exigia, e ainda exige, embora de uma forma mais ligeira, uma logística bem montada e oleada onde o apoio e a paciência de terceiros (particularmente os avós) são condição essencial.

Ontem fui a uma exposição, a uma conferência e assisti a uma peça de teatro. Não há fome que não dê em fartura. Reencontrei pessoas. Conheci outras. Partilhei. Mesmo que seja aquela partilha individual na plateia de um teatro onde, apesar de não falares com a pessoa que está ao teu lado, partilhas emoções, ris-te, emocionas-te e revês-te em pequenas coisas que vão acontecendo no palco.

As exposições (era um “dois em um”) foram “Sorrisos de Pedra” da escultora Helena Amaral e o respetivo registo fotográfico pelo fotógrafo Pedro Silva seguido de uma conferência promovida pela Mais Jazz Produções com a participação de Carlos Bessa (IAC), Rogério Sousa (Burra de Milho), Terry Costa (MiratecArts), Helena Amaral (escultora), Pedro Silva (fotógrafo) e moderado por Daniela Silveira (+Jazz). Isto tudo na Biblioteca Pública de Angra (eu sei que o nome oficial não é este). No Teatro Angrense, num evento promovido pelo Alpendre – Grupo de Teatro, assisti à peça “Elas Sou Eu” com um texto escrito e interpretado por Eduardo Gaspar e encenado por Hugo Sovelas.

Escrever sobre as coisas depois de elas terem acontecido não adianta muito. Já aconteceram e não podem ser vistas novamente, quando se tratam de eventos únicos como é o caso da conferência ou da peça de teatro. Mas apeteceu-me partilhar esta experiência convosco, talvez porque, para mim, foi como regressar à normalidade agora enriquecida com esse fenómeno que é a paternidade.

Tantas vezes nos isolamos e mergulhamos num mundo que se torna único e absorvente, mas, tal como aqueles seres marinhos que passam grande parte do seu teu tempo imersos nas profundezas oceânicas gozando daquela beleza que é só deles e de mais ninguém, por vezes é preciso regressar à tona de água e respirar. E que falta faz esse ar que nos enche os pulmões e nos alimenta a alma.

Os “Sorrisos de Pedra” e as fotografias de Pedro Silva vão continuar em exposição na Biblioteca de Angra até 31 de maio (as fotografias só até 28 de abril). No teatro Angrense vai haver hoje mais teatro com a peça “Gisberta” interpretada por Rita Ribeiro.

A foto foi retirada da página de Terry Costa.

homo terceirensis

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Questiono-me sobre se existe algum assunto que faça os terceirenses se revoltarem ou indignarem. A sério! Gostava de saber o que teria de acontecer para que os habitantes desta ilha partissem a loiça toda e fossem para a rua gritar palavras de ordem contra o governo, contra a câmara, contra o que quer que fosse. Não sei. E não me venham dizer que o povo está adormecido e desligado da realidade. Não é verdade. Todos os dias se ouvem queixas e reclamações. É raro o momento em que, falando com um dos de cá, ele não aponte defeitos a isto ou àquilo, não mande palpite sobre tudo o que se mexa e critique o Manuel, o Joaquim ou a Maria por ter sido escolhido para o cargo A, o lugar B ou o tacho C. Estão informados. Sabem exatamente quem foi para onde e quem o nomeou para quê e o pôs lá. Tal pena eu não ser amigo dele.

Queixam-se do preço da água, da luz e da falta de trabalho. Queixam-se da escola e da qualidade dos professores e desculpam os alunos. Queixam-se dos médicos e do mau serviço do hospital e do tempo que esperam por uma consulta. Queixam-se da falta de estacionamento e do excessivo zelo dos fiscais dos parquímetros. Queixam-se da polícia e temem os ladrões. Queixam-se dos engenheiros, dos empreiteiros e dos arquitetos. Queixam-se do excesso de toiradas à corda e da fatalidade de não haver nenhuma na sua rua. Queixam-se da SATA, da Ryanair e dos atrasos dos aviões. Queixam-se da centralidade de São Miguel e da inexistência da Zara na Terceira. Queixam-se da chuva porque é inverno e do sol porque é verão. Queixam-se da areia que está suja e da água do mar que não aqueceu. Queixam-se dos americanos que fazem muito barulho nas esplanadas e do silêncio que deixaram. Queixam-se da água contaminada e dos que dizem que não está. Queixam-se da sua própria existência, mas não procuram mudar de vida.

O homo terceirensis é uma espécie única. Vai para onde o levam. Reclama em surdina, mas não se queixa em público. Gosta de parecer que se diverte muito e que a sua vida é uma festa permanente. Excita-se ao ouvir os outros dizerem que é assim. Gostava que assim fosse. Mas será que é mesmo? Não será esta imagem de folião e bon vivant a capa por detrás da qual se esconde um ser que perdeu a capacidade de lutar, de se indignar e de reivindicar direitos e assumir deveres? Tornámo-nos dependentes. Aceitámos de bom grado que alguém pensasse por nós e orientasse as nossas vidas. É mais simples. Tornámo-nos um ser facilmente manipulável e passámos a acreditar naquilo que os outros querem que acreditemos.

Numa terra que apesar de ter vencido o absolutismo há pouco menos de dois séculos, entusiasmámo-nos com a possibilidade de pertencer à nova aristocracia criada como corte de sustentação do poder. Uma aristocracia com privilégios alargados e que terá sido a única que ainda não percebeu que houve uma crise económica, financeira e social profunda e que, independentemente do discurso oficial, ainda não passou ou que ainda estamos muito longe de sermos como estávamos antes. Dai-lhes bolos, diria Maria Antonieta. Dai-lhes brioches, teria dito ela numa outra versão. Dai-lhes qualquer migalha, diria ela se vivesse em 2018.

Perante isto tudo, calamo-nos, aceitamos e ficamos satisfeitos com o sucesso dos outros e a condenação dos maus do BES, da Operação Marquês ou de outra coisa qualquer, mas lá fora. Está tudo bem e o Espírito Santo vem aí. Podia ser pior. Parece que já começo a ouvir foguetes.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

meio caminho andado

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A minha atividade profissional leva-me a encontrar pequenos tesouros escondidos nas habitações e edifícios de comércio um pouco por toda a ilha Terceira. Registo alguns deles que guardo para memória futura. Uns por interesse profissional, o trabalho realizado a isso obriga, outros pelo simples interesse pessoal que um recanto ou um pormenor conseguem transmitir.

A fotografia que aqui apresento retrata um recanto do escritório de um estabelecimento comercial, outrora pujante e bem-sucedido, e que hoje se encontra encerrado. Este recanto já não existe. Não existem os livros, as capas cheias de documentos amarelecidos e cobertas de pó, não existem as caixas de cartão dos CTT apensas com o autocolante vermelho de quando o “código postal” era meio caminho andado. Não existem as pessoas que ali se sentavam horas a fio a furar papéis, a registarem o deve e o haver e atualizarem o extenso rol dos fiados que acabariam por ser a sua desgraça.

Em breve, este espaço comercial reabrirá as portas com novos proprietários e um novo conceito de negócio. A relembrar os tempos antigos ficarão fotografias como esta e as memórias de quem por lá passou.

onde vamos jantar?

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Daqui por uns dias faço anos. Ainda bem. A alternativa seria bem pior. São 47 e, este ano, queria fazer uma coisa diferente com os amigos e a família. Habitualmente comemoro-os em casa com os do costume e ofereço-lhes um jantar que tem sido confecionado por nós. Dá uma trabalheira desgraçada e este tem sido um ano em que o tempo escasseia e a necessidade de descanso torna-se premente. Quero levá-los a jantar fora. Mas queria fugir do circuito gastronómico habitual nestas situações. Não sei onde. Aceito sugestões!

A fotografia foi retirada do blogue O Rouxinol dos Pomares.

café da manhã

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Desde que os miúdos mudaram de colégio as rotinas matinais também sofreram alterações. Agora, com alguma frequência, a paragem para o café é feita na Padaria do Juncal onde posso comer um pão de batata doce ou um pão de abóbora e ficar com pena de não poder comer mais. Infelizmente, hoje não havia. É pena. Foi a primeira vez que aconteceu.

Optei, então, por um croissant e, por momentos, esqueci-me que estava na Terceira. Não é fácil encontrá-los cá na terra com aquela qualidade. São mesmo bons. A montra de bolos é variada e apelativa. Não estivesse eu de dieta para compensar a Francesinha de ontem ao jantar, ter-me-ia empanturrado com alguns deles.

Só tenho pena de uma coisa na Pradaria do Juncal. Não tem colheres para o café. O açúcar tem de ser mexido com aquelas palhetas de plástico que nem barulho fazem quando tocam na chávena.

made in azores

O Made in Azores lançou no início do mês um projeto onde, a partir de vídeos de curta duração, apresenta música e literatura açoriana com o objetivo de as promover.

De entre os minifilmes já exibidos na página do projeto, escolhi este onde o Luís Brum, um artista plástico terceirense, lê o poema Ancoradouro de Palavras da autoria de outro terceirense, o poeta Rui Duarte Rodrigues.

o meu pai chama-se Jorge

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Cada dia do pai que passa vai crescendo em mim a angústia da certeza de que um dia irei perdê-lo. Os anos passam e a idade avança. Vejo-o envelhecer, a esconder as doenças e as mazelas acumuladas ao longo de setenta e cinco anos de vida, fazendo crer que tudo está bem. Finjo que acredito. Ele sabe-o, mas não se importa.

Os anos foram passando e muito tem ficado por fazer e por dizer. Sei que não sou um filho perfeito. Quem o é? O tempo aproximou-nos e os netos também. Nunca imaginei ver o meu pai dançar ao som do Panda e dos Caricas em frente à televisão ou de sentar-se com o Jorge e a Amélia a ver a Patrulha Pata ou a Ladybug e entrar nas brincadeiras de super-heróis quando é preciso afastar o Falcão Traça e o seu Acuma. Gosto de o ver brincar com os meus filhos e eles gostam. O avô é sempre o avô. A paternidade transforma-nos. Ser avô, pelos vistos, também.

O meu pai chama-se Jorge. O meu filho também!

Arrota das Adegas

 

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Com o Donatário, verdelho da Casa Agrícola Brum (Museu do Vinho), começou esta participação n’Arrota das Adegas, para mim, a primeira. Munidos com as nossas taladeiras penduradas ao pescoço (as tigelinhas de barro), seguimos caminho pela freguesia dos Biscoitos na busca das adegas, do vinho que se produz a partir da uva nascida por entre a rocha negra do norte da ilha Terceira e de uma experiência nova que se pretende seja única ou, pelo menos, diferente.

Por detrás das moradias de veraneio da capital do Norte, existem trilhos escondidos que nos levam a lugares que se tornam remotos pela total ausência de casas, carros e asfalto, apesar de estarmos rodeados pela obra do homem materializadas naquelas pequenas curraletas que por ali se encontram às centenas. São os Biscoitos escondidos e que, pouco a pouco, muito lentamente, se vão dando a conhecer ao exterior. Que continuem assim, sem se mostrarem muito, misteriosos.

A paragem seguinte foi na Adega Bicharedo onde nos esperava um vinho de cheiro que, ao primeiro drago, nos avisava que aquilo era coisa para ter cuidado. A massa sovada da senhora Délia, os ovos com massa malagueta, os torresmos e o bolo fatiado ajudaram a minimizar aquele primeiro embate com aquela realidade vínica afastada dos circuitos turísticos e comerciais.

Alguns metros mais à frente, numa adega minúscula paredes-meias com a ermida de Nossa Senhora do Loreto, o convívio faz-se com aguardente de mel. Ui! Segue-se o vinho abafado tinto… depois o branco… e, para finalizar, aguardente de tangerina. Felizmente, a distância a percorrer entre a Adega Oliveira e a seguinte era foi suficiente para amenizar os efeitos do álcool.

Na Adega Manuel Amaral provou-se mais verdelho e o pão demolhado no azeite aromatizado com azeitonas, alecrim, sal e alho fizeram as delícias de quem já suspirava por algo mais consistente no estomago. Ainda havia muito caminho a percorrer.

A penúltima etapa da visita faz-se novamente por entre curraletas e algum mato que ainda persiste em existir por entre a paisagem biscoitense que se vai reabilitando. Agora, o mar está mais próximo de nós, sente-se a sua presença. Dirigimo-nos à Adega Simas e ficamos com a certeza de que progresso, paisagem e tradição podem coexistir e partilhar o mesmo espaço. Prova-se Simas, o verdelho da casa.

Cerca de três horas e meia depois, é tempo de descanso e de tirar as últimas fotos do dia. O Sol está a pôr-se no horizonte, lá para os lados da Graciosa. Pensamos se valeu a pena o dinheiro despendido nesta atividade de sábado à tarde. Sem dúvida que sim. Valeu a experiência, o contacto com outra realidade dos Biscoitos, o convívio com os amigos, o reencontro com outras pessoas e os vinhos que são a razão de ser de toda esta experiência. Esperava-se mais dos petiscos, mas também já aprendi que nesta vida não se pode ter tudo. Para concluir, uma palavra de apreço ao Steven: parabéns pela ideia e pelo evento. Voltarei! Voltaremos!

na companhia de Salazar

A Casa de Pasto Lima, junto ao Posto 1, é um daqueles restaurantes que não participa no Festival de Gastronomia da Ilha Terceira. Mas também não precisa. Está sempre cheio e tem comida com fartura. Demais, até. A ementa é extensa e variada. Em comum, os pratos têm a elevada quantidade de calorias e gorduras polinsaturadas (who cares?!). Optei pelo bacalhau à Braga.

Depois de uma fatia de queijo de São Jorge com pão, ou sem ele, vem o segundo. Uma posta de bacalhau escondida por uma dose generosa de cebolada e batatas fritas acompanhada por vinho quase à descrição, faz-nos sentir como se já não comêssemos há três dias. A verdade é que com tanta comida, ficamos é alimentados por três dias. E ainda falta a sobremesa que dispensei. E o café.

Tudo isto pela módica quantia de 7,5€. É certo que não será a mais saudável das comidas, mas que é boa, lá isso é. E que sacia, lá isso sacia.

Já agora, e que tal um festival de Casas de Pasto? Não me parecia mal…

primeiro, os de fora

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Sem chegar ao cúmulo de nos abordarem em inglês, até porque nos conhecem, aqui e ali já vamos sendo preteridos em benefício dos turistas, principalmente nos restaurantes. Longe de estarmos “algarvizados”, os sintomas, embora ténues, começam a estar visíveis. Não há motivo para preocupação, dirão alguns. Isto é só fruto do entusiasmo da novidade que, breve breve, passará. Quando a presença de muitos turistas, de diferentes nacionalidades, passar a ser normal, ninguém notará pela diferença. Pois é exatamente essa a minha preocupação. Quando passar a ser normal deixar os locais para trás a fim de dar prioridade aos que comem entradas e sobremesa, bebem vinho pelo preço mais alto e deixam gorjeta, isso sim é sinal que nos tornámos numa espécie de Algarve sem sol, mas com todos os sintomas de provincianismo que o fascínio por tudo o que é de fora normalmente acompanha.

Não sou daqueles que acham que temos de falar em português e que os visitantes é que terão de se adaptar àquilo que é nosso. Mal seria se isso fosse assim e se todos os povos do mundo tivessem este entendimento. Recordo-me das viagens que fiz e, confesso, em muitos lugares, nem bom dia, nem boa tarde, nem sequer um olá ou um obrigado consegui dizer nas línguas nativas, quanto mais compreender. É mais um dos tais sintomas. Também não alinho nos que defendem a existência de duas ementas, com dois preços, uma para quem vem de fora com dólares, mais euros ou libras esterlinas, e outra para a populaça local que gasta euros açorianos de baixo valor cambial. Entendo que é possível partilharmos todos o mesmo espaço, frequentarmos os mesmos restaurante e esplanadas e disfrutarmos do bom que a Terceira tem para oferecer e, neste caso concreto, vender.

Os locais não podem ser vistos como a salvação da época baixa, mesmo que não deixem grande riqueza, e dispensáveis na época alta ou em períodos de vacas-gordas. Onde já vimos este filme? Um filme que se repete não só ao nível da restauração e do comércio em geral, mas também ao nível do mercado de arrendamento que viu partir os americanos, se transformou em alojamento local, e agora, na zona da Praia, volta a animar-se com os americanos a pagarem boas rendas – nem digo o valor – e a dispensarem os portugueses que pagam menos, na esmagadora maioria dos casos, e muito menos, quando se fala de rendas subsidiadas pela segurança social e que frequentemente não chegam às mãos dos senhorios. Quem os pode condenar por se defenderem? Aos senhorios, entenda-se!

Não é objetivo deste texto apontar o dedo a este ou àquele, nem julgar quem assume tais posições ou opte por esta ou aquela via. Desde que legal, é legitimo que o faça. Falamos de privados que investem o seu dinheiro, mesmo que, em alguns casos, só numa percentagem muito reduzia, o resto é subsídio da União Europeia, por isso têm a liberdade de fazerem o que bem entenderem. Contudo, e sabemo-lo bem, os períodos de abundância não duram eternamente, nem mesmo todo o ano. Os que cá estão, estão cá sempre. Fiéis e leais. Apelo por isso a que resistam à tentação de fazer com que os terceirenses se sintam estranhos na sua própria terra. Se há alguma coisa de bom no facto de andarmos atrasados relativamente aos outros, essa coisa é o facto de podermos aprender com os erros por eles cometidos.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia que ilustra o artigo foi retirada da página do Município da Praia da Vitória.