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vistas curtas

JARDIM DOS CORTE-REAIS (FOTO RUI LOURENÇO)

Nunca vi o painel de azulejos de José Nuno da Câmara Pereira promovido como ponto de atração turística cultural da cidade de Angra. Esta sua obra – uma interpretação de um poema da Mensagem de Fernando Pessoa dedicado aos Corte-Real – está à vista de todos, no jardim que ostenta o nome destes irmãos, sobranceiro à baía de Angra, de acesso livre sem que tenha de se pagar bilhete. Nas mesmas condições se encontra o trabalho de Ramiro Botelho, na muralha da Praia, em frente ao Auditório do Ramo Grande, ou as pinturas murais de Pantónio, nos antigos celeiros, e de Luís Brum, bem no centro da cidade, como também, de fora dos roteiros, fica a escultura que representa o toiro, da autoria de Renato Costa e Silva, no Centro Cultural de Angra, evocativa da antiga Praça de Toiros de São João, e que agora tem um primo afastado na Vila Nova. A lista não está completa, é certo. Poderia ser mais exaustiva, contemplando todas as obras de arte contemporânea espalhadas um pouco por toda a ilha e da autoria de artistas plásticos nascidos ao longo de todo o século XX e que nestas duas primeiras décadas deste novo milénio têm mostrado ao mundo que, contra tudo e contra todos, as artes plásticas crescem e evoluem nesta ilha que tanto se reclama como capital cultural dos Açores, mas que só se promove pela etnografia e por um património arquitetónico que diz ser dos séculos XV e XVI, mas que dele só resta a ideia, nem que para isso se sacrifiquem edifícios originais dos anos 60 e 70 do século passado, que também retratam a história da cidade e das suas gentes, para serem substituídos por cópias sabe-se lá do quê e de quem e apresentados como Património da Humanidade construído no século XXI. É o Portugal dos Pequeninos.

Temos dificuldade em valorizar o que é atual. A contemporaneidade traduz-se simplesmente naquilo que é moda, no que passa na televisão, aparece nas redes sociais e, agora mais do que nunca, no que é politicamente correto. A imagem cultural que se dá da nossa ilha resume-se aos aspetos etnográfico e a esse património dito antigo, muitas vezes falso. Às coisas dos antigos. É a visão miserabilista do fatalismo de que o que é moderno não presta. De que antigamente é que era, de que os nossos antepassados é que sabiam fazer as coisas, reduzindo a nossa missão de inúteis à preservação do seu legado. E aceitamos isso. Aceitamos a incumbência de fazer da nossa terra uma espécie de Exposição do Mundo Português, de valorizarmos um povo honesto, simples e trabalhador que faz das suas tradições a sua forma única de manifestação cultural valorizada. É impensável, em 2018, dizer-se que não se gosta de cantoria, de danças de carnaval, de sopas do espírito santo ou de caldo temperado e de inhames com linguiça. É sacrilégio. É herético. Não viver as tradições tornou-se sinónimo de mau terceirense e de arma de arremesso político, mesmo que esse passado já tenha sido adulterado ou adaptado às realidades de hoje ou às de quem, por imperativos de sobrevivência, tem necessidade de o fazer. A discussão torna-se complexa. O que é tradição? O que é verdadeiramente tradicional?

Excetuando-se os festivais e festas, as artes plásticas contemporâneas têm ficado de fora dessa promoção de turismo cultural. Não é essa a imagem que se quer dar ao visitante, depreendo. Alguns dos nomes referidos no início deste artigo têm uma dimensão que ultrapassa os limites da nossa ilha e mesmo do nosso país. Queiramos assim nós abrir os horizontes e ultrapassar as fronteiras que construímos.

Este artigo foi publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia é da autoria e foi gentilmente cedida pelo Rui Lourenço para ilustração deste artigo.

Não foi possível encontrar na página da Câmara Municipal de Angra ou em qualquer outra página de entidades oficiais qualquer referência fotográfica a esta obra de arte.

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