primeiro, os de fora

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Sem chegar ao cúmulo de nos abordarem em inglês, até porque nos conhecem, aqui e ali já vamos sendo preteridos em benefício dos turistas, principalmente nos restaurantes. Longe de estarmos “algarvizados”, os sintomas, embora ténues, começam a estar visíveis. Não há motivo para preocupação, dirão alguns. Isto é só fruto do entusiasmo da novidade que, breve breve, passará. Quando a presença de muitos turistas, de diferentes nacionalidades, passar a ser normal, ninguém notará pela diferença. Pois é exatamente essa a minha preocupação. Quando passar a ser normal deixar os locais para trás a fim de dar prioridade aos que comem entradas e sobremesa, bebem vinho pelo preço mais alto e deixam gorjeta, isso sim é sinal que nos tornámos numa espécie de Algarve sem sol, mas com todos os sintomas de provincianismo que o fascínio por tudo o que é de fora normalmente acompanha.

Não sou daqueles que acham que temos de falar em português e que os visitantes é que terão de se adaptar àquilo que é nosso. Mal seria se isso fosse assim e se todos os povos do mundo tivessem este entendimento. Recordo-me das viagens que fiz e, confesso, em muitos lugares, nem bom dia, nem boa tarde, nem sequer um olá ou um obrigado consegui dizer nas línguas nativas, quanto mais compreender. É mais um dos tais sintomas. Também não alinho nos que defendem a existência de duas ementas, com dois preços, uma para quem vem de fora com dólares, mais euros ou libras esterlinas, e outra para a populaça local que gasta euros açorianos de baixo valor cambial. Entendo que é possível partilharmos todos o mesmo espaço, frequentarmos os mesmos restaurante e esplanadas e disfrutarmos do bom que a Terceira tem para oferecer e, neste caso concreto, vender.

Os locais não podem ser vistos como a salvação da época baixa, mesmo que não deixem grande riqueza, e dispensáveis na época alta ou em períodos de vacas-gordas. Onde já vimos este filme? Um filme que se repete não só ao nível da restauração e do comércio em geral, mas também ao nível do mercado de arrendamento que viu partir os americanos, se transformou em alojamento local, e agora, na zona da Praia, volta a animar-se com os americanos a pagarem boas rendas – nem digo o valor – e a dispensarem os portugueses que pagam menos, na esmagadora maioria dos casos, e muito menos, quando se fala de rendas subsidiadas pela segurança social e que frequentemente não chegam às mãos dos senhorios. Quem os pode condenar por se defenderem? Aos senhorios, entenda-se!

Não é objetivo deste texto apontar o dedo a este ou àquele, nem julgar quem assume tais posições ou opte por esta ou aquela via. Desde que legal, é legitimo que o faça. Falamos de privados que investem o seu dinheiro, mesmo que, em alguns casos, só numa percentagem muito reduzia, o resto é subsídio da União Europeia, por isso têm a liberdade de fazerem o que bem entenderem. Contudo, e sabemo-lo bem, os períodos de abundância não duram eternamente, nem mesmo todo o ano. Os que cá estão, estão cá sempre. Fiéis e leais. Apelo por isso a que resistam à tentação de fazer com que os terceirenses se sintam estranhos na sua própria terra. Se há alguma coisa de bom no facto de andarmos atrasados relativamente aos outros, essa coisa é o facto de podermos aprender com os erros por eles cometidos.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia que ilustra o artigo foi retirada da página do Município da Praia da Vitória.

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