sair do armário

Não consigo compreender esta mania de receber turistas com ranchos folclóricos ou grupos de homens vestidos de preto e chapéu a cantarem o pezinho. Tenho reparado que, desde que a Praia começou a receber navios de cruzeiro, esta cidade que sobrevive sobranceira ao mar e de costas para ele voltadas, teima em se agarrar ao passado e nele permanecer. Temos medo de ser genuínos e de inovar. Receamos mostrar quem realmente somos e a nossa capacidade criativa. Gostamos de transmitir a imagem que somos um povo simples, conservador, com aquele cheiro bafiento e salazarento de quem tem medo do progresso e de se abrir ao mundo. Aliás, é no Estado Novo que proliferam por todo o país este tipo de animação popular com o objetivo único de criar uma consciência nacionalista e transmitir a imagem romântica de que os antigos, pela vida simples que levavam, eram mais felizes do que nós. Não é por acaso que, num mesmo grupo, se misturam ricos e pobres em que os primeiros vestem os seus melhores trajos para conviverem “democraticamente” com os seus criados que, por sua vez, vivem alegres e contentes por serem trabalhadores a passar fome, mas vestidos de roupa imaculadamente branca como só o povo que trabalha a terra de Sol a Sol consegue ter. Isto não é verdade. A realidade não é esta. O mundo, o nosso mundo, não é assim. Infelizmente, é a imagem que continuamos a querer transmitir de nós próprios. E se dúvidas existem em relação a isto, basta olhar para os mais vistosos, ricos e alegres grupos folclóricos do mundo e perceber de onde vêm e que tipo de regimes existem ou existiam nos países de origem a quando da sua criação. Aliás, nem é preciso ir para longe, é só olhar para a nossa realidade local e vermos quando se deu o aumento exponencial do nascimento deste tipo de associações ou quando os apoios financeiros se tornaram uma prioridade na ação política.

Porque razão não mostramos a nossa realidade? A verdade. Porque razão gostamos tanto de mostrar aos outros uma coisa que não somos? Temos vergonha da Praia do século XXI? Do que hoje por cá se faz? Ou temos necessidade de criar esta fantasia para cruzeirista ver e pensarmos que isto é sempre assim? Enganarmo-nos a nós próprios? Porque razão algumas lojas só abrem em dia de cruzeiro ou montam banquinhas na banda de fora? Porque razão só os turistas de cruzeiro têm direito a ser animados e entretidos? É para esconder que nem sequer temos um museu para visitar? Uma galeria de arte? É para nos esquecermos que não temos como mostrar e divulgar a nossa História e o nosso passado – esse sim verdadeiro – sem ser numa pequena cerimónia a cada 11 de agosto com a qual os praienses nem se identificam?

Quem nos visita fica com a impressão de que não evoluímos culturalmente. Parece que não se faz música a não ser a charamba ou o pezinho. Que não existem artistas plásticos nas mais variadas disciplinas ou que o artesanato não é mais do que o alguidar de alcatra ou os aventais para garrafas de licor. Que não temos capacidade inventiva e criativa que nos torne diferentes e únicos nesta amalgama concorrencial em que se tornaram os Açores na captação de turistas. Se formos iguais aos outros, somos só mais uns. E nesse campeonato, já se percebeu, os outros nãos estão a dormir.

Sempre que escrevo um artigo como este é usual fazerem-me uma pergunta. É sempre a mesma. E qual a receita?! A receita também é só uma: ter coragem para ser diferente e assumir essa diferença. Também aqui é preciso não ter medo de sair do armário.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

Fotografia: Câmara Municipal da Praia da Vitória

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One thought on “sair do armário

  1. Entao se e assim,porque nao fazer algo para que seja diferente e inovador? Onde esta esse tal talento? Facam,trabalhem e mudem de cenario para que todos se orgulhem do que tem. Facam um Museu para a preservacao do historico e antigo,porque nao? Mas por favor nunca acabem com as vossas raizes,o passado foi e sera sempre parte da nossa alma,ha lugar para tudo e todos.Mas para que isso tudo aconteca, e preciso uma coisa da qual muitos tem ” alergia” TRABALHO e vontade.

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