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festival de sopas

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O dia era de Sol, mas a cidade continuava vazia. Tinha mais quatro ou cinco pessoas a circularem pela rua o que não era propriamente uma multidão. Aproveitei a oportunidade para falar com algumas pessoas, algumas delas comerciantes, e perguntar-lhes o que pensavam sobre aquele estado de coisas. Ninguém me soube apontar caminhos ou soluções. “Isto está uma desgraça, nunca se viu nada assim.” De facto! Apesar da retoma, a Praia não consegue descolar. Procuram-se culpados e alguém me diz que depois do sismo é que se deu um grande salto. As pessoas de Angra vinham cá acima às compras. Na altura, “coitados”, não tinham nada lá em baixo… Por essa altura a Praia tornou-se cidade e com essa distinção, a Praia tornou-se pujante. Só que isso já lá vai. Eram outros tempos, outro contexto, outras catástrofes.

Não há gente. É esse o sentimento mais frequente que existe por entre os habitantes da cidade e do concelho. Em 2011, de acordo com os Censos desse ano, residiam no concelho da Praia da Vitória 21086 pessoas. Num dia “normal”, em simultâneo, não circularão mais de 20 pessoas na rua de Jesus, isto para ser otimista. Onde andam todas as restantes? Que cataclismo foi este que afastou os praienses da sua cidade? Terá sido a descentralização desenfreada de serviços que fazem com que as pessoas não tenham de se deslocar à cidade e nela fazerem vida? A redução significativa da utilização de transportes públicos e o seu afastamento das praças principais? Ou a alegada urbanização da população que acha que é mais moderno comprar on-line? Infelizmente, no entanto, essa transformação de rural em urbano não se deu a todos os níveis, particularmente nos hábitos sociais.

A cidade é a imagem dos seus habitantes. Persistimos em chamar cidade à Praia porque gostamos muito dela e sabemos que é um ótimo lugar para viver. Contudo, temos noção que de cidade já só tem o nome. Falta-lhe a dinâmica, a urbanidade e a centralidade que uma cidade sede de concelho deverá ter. No período de pré-campanha eleitoral das autárquicas do ano passado desafiei as forças partidárias envolvidas a responderem à questão: “que centralidade se quer para a Praia?”. Ninguém respondeu ao desafio. Que pretensão a minha! Que ingénuo fui! Alguma vez os partidos políticos iriam responder a um simples cidadão com eu? Nunca! Principalmente quando a questão os obriga a pensar para além do imediato. A Praia não pode continuar a ser gerida para o já, para as questões pontuais muitas vezes sem quaisquer repercussões no futuro. Não pode ser gerida como uma mercearia em jeito de deve e haver sem ter em consideração que nela vivem pessoas e que essas pessoas têm filhos e que nem todas dependem dos resultados eleitorais. É preciso sabermos que terra queremos seja a nossa daqui por vinte anos. Qual a sua missão?

John F. Kennedy, em 1961, no seu discurso de tomada de posse, desafiava os americanos a fazerem algo pela sua terra. A frase é célebre e ficou para a História: “não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu país”.  Nós que tanto gostamos dos americanos (Donald Trump é só um incidente) talvez devamos olhar para ela – a frase – e refletir. Que temos nós feito para que a Praia saia do marasmo em que se encontra? Não tem gente? Não, não tem… e nós, ao menos, fazemos lá compras? Vamos aos cafés? Aos restaurantes? Talvez não. Nem sequer andamos na rua para baixo e para cima a polir calçada ao não ser que haja festival de sopas…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia foi retirada da página do programa Vitória.

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