25 de qualquer mês

Gastronomia-de-Natal-de-Norte-a-Sul-de-Portugal

Habitualmente escrevo a minha crónica da rua de Jesus à quarta-feira. Ali bem em cima do acontecimento, uma vez que tenho de a enviar para o jornal, de preferência, até às duas da tarde desse mesmo dia. Escrevo-a, por isso, de manhã. Esta semana, apesar de não haver jornal na quinta – porque na quarta é feriado – cumpri o ritual do costume, até porque tenho de enviar a crónica para as rádios na América.

Quis o calendário que esta semana fosse 25 de abril, aquele dia emblemático que toda a gente, em todo o lado, fala de liberdade, de tolerância, de conquistas para os trabalhadores, do estado social, de paz no mundo e de beijinhos às criancinhas e carinho aos velhinhos. Nos últimos anos, as semelhanças entre o 25 de abril e o 25 de dezembro são cada vez maiores. Ambas as datas se vestem de verde e vermelho, em ambos os dias o mundo se enche de boas intenções, onde todos fazemos de conta que somos todos amigos, iguais, temos as mesmas oportunidades e o que importa são os valores. Esquecemos tudo o resto e fixamo-nos nos valores, esses sim a base de toda a nossa vida e que cumprimos a rigor e a preceito naquele exercício de hipocrisia que tão bem conhecemos e sabemos fazer.

Na mesa não faltam os doces, as iguarias, a fartura, os presentes em abundância e o peru que já não é morto de véspera, mas sim comprado embrulhado em plástico, sem identidade, abatido por carrasco desconhecido. Fazem-se peditórios, apela-se à solidariedade, à paz entre os homens e ouvem-se cânticos. Muitos cânticos. Ninguém sabe muito bem ao certo o significado das letras. Apelam a uma noite feliz e a um amanhecer com muitos presentes e com um mundo novo onde a abundância reina, a terra é de fraternidade e o Povo é quem mais ordena. Abrimos as portas da nossa casa e convidamos os amigos para que se juntem a nós e que com eles venham mais cinco para celebrarmos as conquistas de uma noite de céu estrelado e o nascimento do messias. Não importa se no dia seguinte nem nos cumprimentemos na rua e façamos de conta que nem nos conhecemos. As datas evocativas têm-se modernizado, transformando-se numa espécie de experiência de “one night only” em que só o momento interessa e que tudo acaba ao nascer do dia quando se passa pela farmácia. Foi bom, mas dali nada vai nascer… O essencial ficou de fora.

Falar de 25 de abril em 2018 é falar de corrupção e da falta de ética e de transparência. É curioso pensar-se que há alguns anos estes eram chavões do populismo e das oposições. Muitas vezes, eram palavras que se atiravam ao ar sem se saber muito ao certo a quem se dirigiam ou que rosto tinham. Não se falavam em nomes. Não havia certeza. Hoje sabe-se muito bem de quem se fala e do que se fala. Aparecem todos os dias na televisão e os seus discursos e atos são dissecados até ao osso por comentadores e jornalistas, mas não por responsáveis políticos que, quando excecionalmente o fazem, atiram a solução para a frente, para um dia, para refletir, para pensar. E todos bem sabemos o significado de “um dia…”.

A nossa democracia de 44 anos está doente. Sofre de uma crise identitária que substitui um sistema totalitário por um sistema de totalitários. Mudaram-se as pessoas, mantêm-se os privilégios de classe e a existência de um grupo que domina acima da Lei, onde a ética se tornou irrelevante e a falta de vergonha assumiu o lugar cimeiro da forma de estar. Tudo se faz às escondidas e de forma consensual sempre que o proveito é próprio. Felizmente, tudo se acaba por saber, mas eles não se importam e dizem que é legal, que cumpre a lei que eles próprios fizeram e aprovaram e isso é preocupante.

Daqui por uns dias é dia de Reis e vamos todos para a rua celebrar, nem que seja no primeiro arraial de tourada do ano. Feliz Natal e um Ano Novo cheio de prosperidades!

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