Air Center de migalhas

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Sempre desconfiei do Air Center. Sempre me cheirou a esturro, tanta era a embrulhada, a informação contraditória ou a deputada que disse, o ministro que negou e o presidente que nem dizia que sim nem que não. Bem podem anunciar concursos públicos, bem podem parecer preocupados com a situação económica da Terceira, bem podem gastar rios de tinta a elaborar planos de revitalização, projetos de instalação ou outra treta qualquer que o resultado, para a Terceira, é o do costume, o esperado. Migalhas. Tudo quanto aqui se faz ou se diz fazer acaba sempre por morrer no papel, nem mesmo morrer na praia faz sentido aplicar-se a mais este episódio de abandono e negligência relativamente à coisas desta ter. Seria uma ofensa para a Praia. Que mal fizemos nós? Que crime terão cometido os terceirenses para, de um momento para o outro, passarem a ser considerados persona non grata? Seremos nós portugueses de segunda categoria? Açorianos sem direitos?

“Antes morrer livres que em paz sujeitos” foi a expressão usada por Ciprião de Figueiredo ante a presença do invasor castelhano que, à época, dominava a ilha. Esta máxima acabou por ser incorporada, nos alvores da Autonomia, no brasão de armas da Região. Hoje é letra morta. Hoje, nem Região, nem Autonomia. Hoje, cada ilha trata de si e trata de viver por si. Solidariedade regional é coisa que não existe. Solidariedade nacional, ainda menos. Hoje, Autonomia é sinónimo de governo de alguns para alguns e de desculpa para a existência de uma espécie de aristocracia ou espécie de classe privilegiada com direitos acrescidos. Contudo, existem grandes diferenças entre a aristocracia de ontem e a de hoje, sendo que a principal consiste nas obrigações. Os aristocratas medievais tinham obrigação de defender o seu território e o seu povo. Exploravam-no é certo. Pagavam mal, quando pagavam. Os de hoje não defendem o seu território, não têm povo, só recebem e limitam-se a bajular. A ilha pouco interessa. A cidade nem para as compras serve.

A presença será simbólica. Foi isto que o ministro da ciência disse em relação à instalação do Air Center na Terceira, uma daquelas medidas que visavam atenuar os efeitos nefastos decorrentes da redução do efetivo militar norte-americano nas Lajes. Aliás, esta questão, que tanto ocupou noticiários televisivos, radiofónicos e impressos, começa a parecer uma realidade longínqua, algo que já passou e que já não vale a pena pensar. A verdade, porém, é que os cidadãos andam distraídos com o turismo e pensam ter encontrado a nova galinha dos ovos de ouro e que o futuro está garantido. Tomara que assim seja. Tomara que o fluxo turístico que se tem verificado na ilha se mantenha por muitos e bons anos. Tomara que o governo continue a pagar à Ryanair para manter as rotas para as Lajes e que a SATA não seja alvo de implosão. Tudo isto é artificial como bem sabemos. Mas enquanto as coisas correrem bem, apesar de andarmos a ser enganados, viveremos felizes e contentes e nem sequer piamos contra o que quer que seja não vá alguém tirar-nos este Rendimento Social de Inserção. Sim, isto é uma espécie de RSI para remediados e, tal como os outros, não o queremos perder e, tal como os outros, fazemos tudo, tudo mesmo, para o manter.

Ficaremos com umas migalhas simbólicas. E é mesmo disso que precisamos. Símbolos. Migalhas. Quando não se exige mais, é isso que se tem.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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