vergonha e esperança

praia16

Vinham investidores da Finlândia e seria instalado um data center. A cidade da Praia tornar-se-ia símbolo da inovação e do pioneirismo. Tudo aqui era exemplo para o resto dos Açores e do país. Falava-se em parcerias com tudo e com todos, criatividade, inovação. A Praia era a terra das novas oportunidades e seria a primeira a conseguir vencer os desafios que decorriam da saída dos americanos e do agudizar de uma crise que saía direitinha e sem espinhas da megalomania e dos devaneios de um primeiro ministro sem escrúpulos que fez da sua ambição desmedida a ruína deste país.

Na Praia da Vitória ainda não se chegou a tanto. Por enquanto. Mas os sinais são cada vez mais preocupantes. Quando tomei conhecimento do conteúdo do último relatório do Tribunal de Contas relativamente a uma auditoria realizada ao Município da Praia, confesso que fiquei sem saber como me sentir. Se triste, se contente. Foi uma mistura contraditória de sentimentos. A primeira reação, acreditem, foi de satisfação. Finalmente, uma entidade credível e respeitada vinha confirmar aquilo que ao longo de anos tenho vindo a denunciar e a chamar a atenção. Finalmente, depois de tantos anos a chamarem-me mentiroso, a chamarem-me tudo e mais alguma coisa – só eu sei o que ouvi pela cara fora – o insuspeito Tribunal veio dizer-me que a razão sempre esteve do meu lado e que o meu trabalho ao longo de doze anos não me dá motivos de arrependimento. Contudo, de imediato, senti-me triste. Triste por ver a minha terra, mais uma vez, nas bocas do mundo e pelas piores razões. Triste por perceber que a Câmara da Praia foi gerida para satisfazer interesses e ambições pessoais com consequências que ainda não conseguimos perspetivar. Quando foi criada a Praia em Movimento, de má memória, e quando se assinaram os acordos que previam transferências de milhões entre a câmara e a empresa municipal, a oposição fez questão de dizer que era o futuro da Praia que estava a ser hipotecado. Alguém disse que exagerávamos, que estávamos a ser catastrofistas e o que o mestre dos números, das contas e da gestão reinventada sabia o que estava a fazer. De facto, Roberto Monteiro sabia muito bem o que estava a fazer. Assegurava o seu futuro e as reeleições que se sucederam. A Praia, apesar de tanto dinheiro aqui circulado, transformou-se naquilo que é hoje. Um marasmo sem esperança e na iminência de ter que recorrer a um programa de ajuda financeira.

Na mistura de sentimentos contraditórios surgiu um terceiro. Vergonha. Senti-me envergonhado por ver como foi possível deixarmos que tudo isto se passasse por debaixo do nosso nariz ou bem à frente dos nossos olhos e nada fazermos para o evitar. Fomo-nos deixando ludibriar por fogos-de-artifício, remoção de placas de inauguração para serem substituídas por outras com o nome do pagador e manobras de diversão com assinaturas de protocolos, conferências-de-imprensa, debates sobre tudo e sobre nada. E aconteceu. Na Praia também aconteceu.

Agora é preciso que os praienses se unam e que, em conjunto, procurem – e encontrem – soluções para o seu futuro comum. Esta é oportunidade que temos para mostrarmos que a Praia, a nossa Praia, está acima de quaisquer interesses pessoais ou partidários. Exige-se para a Praia um pacto de regime, uma espécie de governo de salvação municipal que nos tire deste buraco em que nos enfiaram. Só temos que estar disponíveis e não ter medo de falar. Esse tempo parece já ter passado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s