hoje quero contar-vos uma história

CINEMA AZORIA

Foi há mais de trinta anos, andava eu ainda na escola primária, quando um velhote, que habitualmente se sentava no muro em frente à minha casa, me a contou. Fiquei encantado com o que ouvi. A história era extraordinária. Na terra onde vivia também aconteciam coisas fantásticas, histórias que eu pensava só existirem nos livros e nos filmes que passavam no cinema Azória, o mesmo que dava nome ao largo onde eu vivia. Nunca a contei a ninguém, guardei-a para mim e, com o decorrer do tempo, passei a achar que era invenção daquele homem, um devaneio de quem é velho e já não sabe o que diz. Hoje, no entanto, sonhei com esse velhote, com o velhote que passava todos os dias à minha porta com uma enxada na mão e uma saca de lona às costas. Esse homem vinha do bairro-de-lata que existia no sopé da serra de Santiago. Subia a ladeira íngreme que dava ao largo do Azória e, aí, sentado no muro do meu jardim, descansava. Passados poucos minutos, lá seguia o seu caminho e desaparecia no meio do arvoredo descendo a enorme escadaria que atravessava a mata que fica na encosta da serra voltada para a pista de aviação. Nunca soube para onde ia. Contava-se que ele apanhava as crianças que desciam a Escada da Cantina a caminho da escola, que as matava e que as levava dentro da saca de lona, não se sabe para onde. Um dia, porém, estava eu a sair de casa e dei de caras com ele. Não tinha reparado que ali estava. Caso contrário, teria saído pela outra porta, dado a volta à casa, atravessado por entre as groselheiras que separavam os quintais do Bairro de Sargentos, e saído pelo portão de um dos vizinhos, só para não me cruzar com o Homem da Mata. Não tive alternativa, tinha que olhá-lo e dizer-lhe alguma coisa. Sorri e desejei-lhe um bom dia. Ele sorriu para mim, agradeceu e retribui-me o cumprimento. Segui o meu caminho. Ele levantou-se e foi atrás de mim. Fiquei assustado. Seria verdade o que diziam sobre ele? Queria que não o fosse. Passados alguns minutos, ele chamou por mim e pediu-me que esperasse. Estaquei naquele mesmo instante. Ele sabia o meu nome. Queria acompanhar-me na viagem até à escola. Tive que esperar. Quando chegou junto a mim, pegou na saca de lona, pousou-a no chão e pediu-me que a segurasse até que conseguisse ajeitar a enxada na outra mão. Obedeci. A saca estava cheia. Só não conseguia perceber com quê. O volume era grande e eu tinha dificuldade em segurá-la. Por essa razão, ao tentar equilibrá-la, tombou e tudo o que estava no seu interior ficou espalhado pelo chão. Pasmei a olhar para o seu conteúdo. A saca estava cheia de umas ervas castanhas que cheiravam mal. Pareciam cabelos. Seriam os cabelos das crianças que ele matava? Fiquei em pânico, aflito, sem saber o que fazer ou o que dizer. Ele, estranhamente, estava calmo e só me disse: Não faz mal, voltamos a pôr o musgo na saca. O musgo? Ele chamava ao cabelo musgo! Sem perceber nada, ganhei coragem e perguntei-lhe o que era aquilo. Ele respondeu-me o óbvio: Isto é musgo. O que é musgo? – perguntei eu. E ele explicou-me que eram umas ervas castanhas que cresciam no mar e depois vinham dar à rocha. Quando aí chegavam, ele apanhava-as para vender. Vender musgo, para quê? Ele não me soube responder. Depois quis saber onde é que ele o apanhava. Ele disse-me: na Rocha.

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