uma “bidoa” da América

american dream

Vinha carregada de roupa, sapatilhas e brinquedos. Parecia um daqueles ovos de chocolate que trazem um brinde, uma novidade, uma surpresa. Cheirava a América, cheirava a abundância, cheirava a plástico e terylene. Vinha de barco, atravessava o Atlântico, fazendo-se anunciar por carta escrita num português em que muitas das palavras se deixavam atraiçoar por um inglês, que mal dominado, denunciava a sua origem. A “bidoa” ou “saca da América” tornava-se o sustento de muitas famílias. A única fonte de roupa nova, sapatos novos ou brinquedos novos a exibir no Natal ou numa qualquer festa ou ida à missa. Era a forma mais rápida e direta de os familiares emigrados nos Estado Unidos conseguirem ajudar os que por cá ficavam por opção ou por impossibilidade de os acompanhar. Tudo isto, claro está, sempre acompanhado por umas notas de dólar protegidas por um cartão postal acondicionado no seu sobrescrito a pretexto de um aniversário, mesmo que em data distante, ou das festividades natalícias que constituíam um forte argumento para justificar tal extravagância de modo a não parecer uma esmola.

Para os de cá, significava que os seus familiares tinham feito a opção certa e que tinha valido a pena. Sabiam que a América era terra de trabalho e que esse era recompensado. Dizia-se que trabalhavam de sol a sol, em “overtime”, com mais de dois trabalhos, mas que valia a pena. Tinham carro, casa, mais do que uma televisão e o frigorífico a abarrotar. Era uma terra de abundância aquela América que vinha fechada num bidão gigante. O que não sabiam é que em muitos casos aquela América era uma ilusão. Que aquilo não correspondia à realidade. Que os seus entes queridos não tinham conseguido viver o “american dream”. Não percebiam porque razão demoravam anos e anos a virem visitá-los e, quando vinham, estavam brancos como papel sem que os seus rostos tivessem apanhado um único raio de sol. Alguns sonhos foram tornados pesadelos. Algumas vidas limitaram-se a ver os outros viver. Felizmente, nem todos tiveram tão triste destino. A grande maioria melhorou a sua condição económica e financeira. Outros, ainda, tornaram-se profissionais e empresários de sucesso, respeitados, com capacidade de investimento e de criação de postos de trabalho.

As “bidoas” continuam a vir da América. Já não dão tanto nas vistas, mas ainda vão aparecendo. Ainda há muito boa gente que não passa sem elas. É verdade que em muitas situações foi uma tradição de se manteve. Diria mesmo, um vício. Contudo, nos dias de hoje, precisamos urgentemente de outro tipo de remessas, outro tipo de “sacas da América”. Precisamos da ajuda da massa crítica existente nos Estados Unidos e do poder que têm por via do sistema democrático. Precisamos que nos ajudem a pressionar a administração americana no sentido desta resolver os problemas deixados cá na ilha e que tardam a ser solucionados a começar pela descontaminação dos aquíferos e dos solos e na busca de soluções para a Base das Lajes. Precisamos da vossa ajuda no investimento reprodutivo na ilha que possibilite a criação de emprego e que nos faça crescer.

Continuamos a precisar dos nossos emigrantes como sempre precisámos, mas de uma forma diferente. Já não precisamos de calças de ganga, de umas sapatilhas All-star ou de Barbies. Hoje precisamos de apoio político e de investimento. Nem todos têm capacidade de investir, mas todos têm voz e o peso decisivo do voto. Quando nos perguntam o que podem fazer por nós, apetece-me responder “sejam a voz da Terceira!”

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