A Praia é pequena. Ótimo

A nossa Praia é pequena, tem pouca gente, tem poucas lojas e poucas ruas. Uma fatalidade. Uma desgraça que nos caiu em cima e que nos impede de crescer e desenvolver. Nunca seremos como Angra ou Ponta Delgada e, muito menos, como Lisboa. Que destino triste o nosso. Que sina. Má fortuna. Camões queixava-se do mesmo.

Em boa verdade, tudo para nós é uma fatalidade. Tudo para nós é um infeliz destino.

Se ao menos fossemos… se ao menos tivéssemos… se ao menos conseguíssemos estacionar quando e como quiséssemos… Sorte tem o Quim Barreiros que põe e dispõe de uma garagem à hora que bem quer e ali mesmo ao pé da porta. Que doçura…

Na Praia acabamos por nos conhecer todos, pelo menos de vista. Sabemos quem trabalha onde, que lojas estão abertas, quais são os mais simpáticos e quem nos deixa levar a roupa ou os sapatos a casa para os experimentarmos, só porque não temos pachorra para nos vestirmos e despirmos nos provadores apertados ou, simplesmente, porque é mais cómodo. Uma tristeza podermos fazer trocas, tantas vezes sem nos pedirem o recibo de compra. Um horror podermos pagar mais tarde porque, no último instante, nos apercebermos que a carteira ficou em casa. Um martírio termos que nos deslocar poucos quilómetros, em escassos minutos, para chegarmos onde tivermos que chegar. Para levarmos os miúdos à escola, ir ao supermercado ou até mesmo trabalhar.

Uma fatalidade esta pequenez geográfica. Uma fatalidade termos a praia de banho (só aqui lhe damos esse nome) ali debaixo dos nossos pés e nem nos lembramos que ela existe ou nem gostarmos de mar. Um drama conhecermos alguém que consiga fazer o bolo para o aniversário dos nossos filhos, mesmo que só tenhamos tido essa lembrança no dia antes, à noite. Uma miséria ter uma natureza luxuriante invejada e elogiada por tantos e que, para nós, é um estorvo a lama, a neblina e a brisa perfumada de azul e criptoméria. Má sorte esta a de termos qualidade de vida.

Que triste destino Deus nos deu. Merecíamos certamente muito melhor. Calhou-nos alcatra quando preferíamos picanha. Caiu-nos na rifa bifanas a pingar gordura em papo-seco quando tínhamos gostado mais de hambúrgueres a esguichar ketchup e maionese em pão congelado à venda no hiper. O destino ensinou-nos a fazer a maldita massa sovada e nós tínhamos preferido ficar com o bolo levedo. Deu-nos morcela e nós gostávamos mesmo era de salpicão. Ensinou-nos a temperar com cravinho e salsa e o que nós queríamos era cardamomo e coentros.

Que mania esta nossa de olharmos sempre para os outros e invejar a sina deles. Que feitio este que não consegue ver o lado positivo das coisas e dele tirar partido.

Gostamos do sofrimento e fazemos gáudio disso. Ai a minha vida… se tu soubesses… coitadinho… é penar, é penar…

A vantagem se viver numa cidade pequena como é a Praia é podermos ser pessoas, seres humanos. Viver sem pressa e deixar o stresse para os outros. É poder desfrutar do mundo e da vida e não deixarmos que o trabalho e os demais primatas sejam nossos donos e comandem o nosso destino. É termos que trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

A Praia é pequena. Ótimo! É por isso que a não troco por nenhum outro lugar do mundo!

2 pensamentos sobre “A Praia é pequena. Ótimo

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