o que custa é entrar

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Já é meio-dia e meia. O sol está radioso aqui na Cruz de Dona Beatriz. Para quem não sabe onde fica, é aquela rotunda ao fundo da estrada 25 de Abril, na Praia, junto ao “Ramiro dos Cavalos”, e que liga a estrada do Ciclo à estrada militar e às Figueiras do Paim. É aí que trabalho. Dois minutos de carro é tudo o que me separa da Prainha. Daqui a nada, lá estarei. Tem estacionamento sem parquímetro, é bem pertinho e tem um bar onde posso juntar o útil ao agradável, desfrutar do sol e do mar e, a esta hora, almoçar.

A praia tem pouca gente. Passo pelo bar, encomendo o almoço para ficar pronto por daí a mais ou menos meia-hora, dirijo-me ao balneário e saio de lá equipado de Verão. Calção de banho, chinelos e toalha às costas. A distância até ao mar é curta e a areia não escalda os pés. Não é assim tão quente e, se o fosse, não dava tempo para tanto.

O ritual de entrada é o conhecido. Primeiro, esperar que as pequenas ondas provocadas pela rebentação nos atinjam os pés e, dessa forma, testarmos a temperatura da água. Invariavelmente, acho que está fria. Vou entrando devagarinho até atingir aquele ponto crítico em que o mar nos atinge o baixo ventre. Estaco por momentos. Que alívio. Sabe sempre bem. O meu filho não faz xixi no mar. Diz que não pode porque, se fizer, não pode voltar a entrar na água. É como na banheira e na piscina, diz ele. Talvez seja melhor assim. Ainda é muito pequeno. Com o tempo aprenderá as comodidades e os minúsculos prazeres que confortam a alma e aliviam o corpo.

Um momento de coragem. Tem que ser de uma vez só. Coloco-me em posição de mergulho e fecho os olhos, não vá a força da entrada na água arrancar-me as lentes de contacto. Já me disseram que era preferível ir para a praia sem lentes. Confesso que já experimentei, mas o resultado foi deprimente. As pessoas a acenarem-me ao longe e eu a fazer aquela figurinha triste de quem não reconhece ninguém, acabando por passar por antissocial.

Instantes depois do mergulho, a água parece ter outra temperatura. Aos poucos, com mais outro mergulho de olhos fechados, com mais umas braçadas, com mais um descanso a boiar, a sentir o sol no rosto e o aroma a maresia límpida, a água passa de gelada a boa. A água está boa! Entra! O que custa é entrar, vais ver! É sempre assim. Nós sabemos que é sempre assim, mas fazemos sempre aquela cena inicial. Até parecia mal.

A saída da água é sempre mais fácil. Refastelarmo-nos na areia, mais simples ainda. Um pouco de vitamina D, uns raios ultravioleta para ajudar no bronze, outros infravermelhos para secar e já passou a meia-hora de espera pelo almoço. Lá em cima, a Luísa ou a Belina já desesperam à nossa procura, não vá o bacon da sandes arrefecer e depois dizermos que a culpa é delas. Chinelos para os pés, toalha às costas e lá vamos nós sentarmo-nos nas cadeiras vermelhas da esplanada do Bar da Prainha. Com sorte, os amigos que habitualmente partilham connosco o almoço durante o inverno, também lá estão à nossa espera. A refeição é simples. Tem sabor a grande repasto e às férias que não podemos ter. Aquele momento é único. Lento. Daqui por pouco tempo teremos que voltar à Cruz. Há, por isso, que aproveitar estes curtos momentos e torná-los grandes. Com sorte, se o tempo o permitir, ao fim da tarde vamos buscar os miúdos ao colégio e voltamos para a praia… até às oito da noite que agora são da tarde.

Na Praia é possível tudo isto. Na Praia é possível viver devagar… com tempo… queiramos nós inventá-lo e aproveitá-lo!

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

Um pensamento sobre “o que custa é entrar

  1. Quem me dera poder dizer o mesmo ,poder voltare as minhas rasizes,ao meu paraiso,falta me o isenciale o trabalhinho o meu cantinho era um sonho tornado realidade ,a melhore coisa que me podia acontecer,que Deus lhe conseda por muitos mais anos essa sua felicidade .

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