por-do-sol Praia da Vitória

três barracas em festa

por-do-sol Praia da Vitória

Já chegaram ao fim os dez dias de 2018 em que a Praia se sente viva. Daqui em diante, como de costume, será sempre a descer, nem o outono vivo nos salvará. Talvez o Natal.

As festas deste ano foram o reflexo do que a cidade se tornou. Um centro histórico vazio e o resto concentrado em espaços mais ou menos fechados onde a decadência é evidente. Recuperou-se a qualidade no palco da marina, mas, ainda assim, a barulheira infernal que se sente na avenida dá cabo de tudo quanto ali se pretenda fazer.

Está na altura da festa ser repensada.

A “atração-âncora” que fez das Festas da Praia um acontecimento único no plano regional, perdeu a capacidade de atrair. Transformada numa feira regional e num supermercado de produtos locais, a “Feira de Gastronomia do Atlântico” tornou-se numa sombra daquilo que já foi. De cerca de dez restaurantes representando outras tantas regiões do país, hoje a feira tem quatro a representarem três. Excluo propositadamente as duas representações terceirenses e a micaelense que me parece já estarem em quantidade excessiva. Ao que me fizeram chegar, é intenção dos responsáveis pela organização continuar a apostar na presença regional e até reforçá-la. Um erro. É fechar-nos sobre nós próprios numa espécie de “Portugal (Açores) dos pequeninos” ou de um “orgulhosamente sós”. A festa tem que ser pensada, em primeiro lugar, para trazer novidade, diferença e atratividade para os que cá vivem, para aqueles que durante todo o ano sustentam e servem a Praia e a ilha. Já agora, duas sugestões. Primeiro, comecem a vender sumos sem gás nos restaurantes da feira, isto de só ter bebidas gaseificadas e ice tea não me parece uma boa opção. Segundo, retirem dali aquele supermercado. Não faz qualquer sentido ocupar todo aquele espaço. Mudem os produtos locais para outro ponto da cidade, seria uma forma de criar outro polo de atratividade. A menos que não o seja…

O clube naval, também em formato barraca, tornou-se a alternativa ao marasmo descrito anteriormente. Gente não falta. Pena é que, com a lona tão baixa, o recinto se torne ensurdecedor, tal é amplificação do som do local. O espaço andou sempre limpo, o que é bastante positivo. Talvez falte animação e, apesar do serviço municipal de proteção civil ter colocado no exterior o plano de emergência da cidade, nem quero imaginar o que poderia ali acontecer se ocorresse uma qualquer catástrofe ou uma “simples” situação de pânico. Não há por onde fugir…

Resta-nos a última das três barracas. A rainha de todas elas e que absorve mais dinheiro. A antiga dream zone, rebatizada nos últimos anos com o nome da marca das bebidas gaseificadas vendidas na feira do Atlântico. Já é mais do que tempo de tirar aquela barraca dali para fora. A Praia deve ter a única festa de Verão do país que se realiza em recinto fechado, ao contrário do que a época do ano exige. Retiram-se as pessoas da rua e fecham-nas num barraco de luxo. E depois há a programação. Porque razão aquilo não é um festival? Porque razão a Praia da Vitória não tem um festival de música? Porque razão os artistas que vêm à Praia são os mesmos que vão às outras ilhas em festas e festivais que se realizam na mesma semana fazendo com que não haja necessidade de se vir à Terceira? Porque razão a Praia é uma repetição de tudo o resto? Porque razão, em vez de se usarem os vinte e tal mil euros no aluguer da tenda, não se usa esse dinheiro na realização de um bom festival, diferenciado, capaz de colocar a Praia na rota dos festivais de verão?

Porque razão a Praia teima em ser só mais uma festa, só mais uma cidade? By the way, alguém me sabe dizer onde havia exposições de… de qualquer coisa?

Nota 1: Lamento profundamente o reagendamento do concerto da senhora Blaya. Por outro lado, fico satisfeito pela senhora, sempre lhe poupou o cansaço de fazer duas vezes a viagem para os Açores. Assim, só teve que cá vir uma vez… fazendo com que a atuação da Praia soasse a um simples encore do Monte Verde… nada é por acaso!

Nota 2: Não vi o cortejo de abertura. Tive um casamento nesse dia…

6 pensamentos sobre “três barracas em festa

  1. O cortejo de abertura… no meio de tanto barraco foi, assim dizendo, e sitanto palavras da coordenadora: “algo nunca visto”… nunca foi tão mau. Temos pessoas bem capazes de fazer o que fizeram pessoas provenientes de Lisboa e Porto, temos escolas de dança espalhadas pela ilha toda, temos excelentes músicos, excelentes vozes e dançarinos, fazer um cortejo assim não custa. Felizmente já tive o privilégio de fazer parte da organização de um cortejo, ano 2015, privilégio porque foi e será vez única. Infelizmente, e falo pela parte que me toca, a mim e alguns designers existentes na ilha, o trabalho nunca é repartido. “Criar e copiar” de coleções de alta costura não custa.

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  2. É deveras um assunto interessante. Bem escrito e com bom português…transmitindo uma opinião sincera. Claro que as opiniões variam do ponto de vista ou das influências de cada um. O que é certo é que muitos não tem coragem de expressar o seu pensamento e as suas convicções.
    Em alguns aspectos concordo e sou da mesma opinião…
    Mas há um tema que não posso concordar, mas precisamente a feira gastronómica. A feira gastronómica na minha opinião não deveria mostrar a gastronomia de outras regiões…que na verdade nada me dizem, mas sim a boa gastronomia regional que nós temos. E mostrar o quanto boas são as nossas iguarias, os nossos petiscos e as nossas tradições. Por um lado para mostrar a capacidade do nosso povo também. Outro aspecto também não menos importante é a qualidade dos alimentos e ingredientes, pois pelos menos o nosso povo confecciona a comida no dia… enquanto que as famosas regioes do continente, já trazem produtos confeccionados e congelados que são descongelados aqui…o que na minha opinião consiste em perigoso para a saúde pública. Este ano, bem como em muitos anos anteriores, tive o privilégio de comer em todos os restaurantes da feira gastronómica e desde já dou os meus parabens para a “tasca” das fontinhas pois de todas elas foi a única que apresentou comida fresca com produtos regionais.
    Outro aspecto que também considero importante é a parte económica por diversas razões, nomeadamente: nos nossos restaurantes da região o dinheiro fica para a nossa economia local, enquanto que os “famosos” restaurantes do continente levam esse mesmo dinheiro para o continente ( e o que nós beneficiamos ficamos sem o nosso dinheiro e comemos comida congelada) sim porque eles trazem tudo, tudo mesmo, até os próprios funcionários. Mais uma vez somos prejudicados, aqueles que podiam amealhar mais alguns eurozinhos para pagar um seguro, uma prestação atrasada ou até mesmo fazer uma viagem de férias… não podem porque os restaurantes do continente ja vem preparados para levar o nosso dinheiro.
    Já foi novidade a feira gastronómica com várias regiões do país, mas já está bem na hora de olhar pela nossa própria região e pela nossa ilha terceira.
    Como tenho vindo a referir esta é meramente a minha opinião.
    Concordo com a evolução, concordo com a restruturação do modelo das festas, pois está a ficar obsoleto e bastante ultrapassado… mas não se esqueçam de melhorar às custas do nosso povo…pois capacidade, experiência e dedicação não nos falta.
    Para o ano há mais…

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    1. Márcio, quantas mais opiniões, melhor. Quanto mais as pessoas expressarem o que lhes vai na alma sem medos e com sinceridade, melhor ainda. A da diversidade de opiniões e da sua discussão que a evolução se faz.
      Eu não disse que não deveria haver espaço para a gastronomia local. Acho que deve existir, mas não deve ser o foco principal da feira. Até porque, se são restaurantes de porta aberta, não precisam estar na feira, eles têm o seu próprio espaço com as suas cozinhas e as suas rotinas. A nossa comida é boa e os ingredientes também. Não vejo é necessidade de se levar para a tenda o que funciona bem em espaço próprio e que faz os visitantes se deslocarem pela ilha. Quanto aos do continente, eles pagam para cá estarem e não é pouco, segundo me informou um responsável por um deles. Além disso, trazem grandes comitivas que têm que ser alojadas localmente. Mas não é isso que importa. Só diversificando a oferta e criando contrastes se consegue valorizar a feira. Porque não trazer gastronomia internacional? Não seria a primeira vez. Para o ano haverá mais… e a boa cozinha tradicional terceirense deve estar presente, mas sem medo da competição saudável de outras regiões.

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  3. Após ler este artigo do Paulo Ribeiro com o qual concordo aproveito para fazer algumas considerações.
    Não conheço qualquer festa e/ou arraial por esse Portugal de lés a lés que dê lucro e que as Câmaras não tenham prejuízos avultados. Fazer festas miserabilistas para se gastar pouco para ficar bem na fotografia, provavelmente o melhor é não fazer festa. Custos controlados sim sem loucuras mas festas que sejam atrativas.
    Adjudicar a a “dream zone” e todos os “grandes” espectáculos a uma empresa privada, neste caso de S.Miguel, parece-me um erro grasso porquanto essa empresa quer ter lucro de qualquer forma com prejuízo da qualidade dos artistas contratados.
    No que diz respeito à Feira Gastronómica já foi considerada a segunda melhor do País a seguir à de Santarém.
    Hoje em dia é uma pálida imagem do que já foi.
    Não há licenciaturas ou altos cargos de direcção se as pessoas não tiverem sensibilidade e/ou bom senso tendo em vista o gosto e o prazer colectivo.
    Para selecionar restaurantes para uma Feira basta ter sensibilidade, ter prazer de comer, gostar de comer bem. Não é necessário ser Presidente/Director de qualquer coisa.
    Durante anos esteve à frente da Feira duas pessoas que não tinham Curso Superior nenhum nem eram versados em restauração por qualquer escola profissional e foram os melhores anos em que a Feira Gastronómica teve imenso sucesso.
    A Feira deste ano de 2018 foi uma lástima. Três restaurantes Açorianos? Dois restaurantes de Santarém ( Santarém é a capital do Ribatejo)?
    O Restaurante Algarvio a qualidade muita fraca.
    Foi uma autêntica miséria.
    Porque motivo a região de Trás os Montes e do Minho não estavam representados?
    A venda Açoreana praticamente não tinha nada para vender.
    Agora dizem que vão ser introduzidas algumas alterações. Bom ao longo da minha vida tenho verificado que as alterações nunca são para melhor nem para benefício do utilizador/cliente.
    Sobre os espectáculos no Palco da Marina e ao contrário do que esperava face ao ano passado, de boa qualidade. O único que tenho algumas dúvidas foi o stand up, mas isso por gosto pessoal. Não tenho paciência de ouvir em cada 5 palavras 4 são asneiras e da pesada. Mas há gostos para tudo e a assistência estava bem composta.
    P.S. Sou apolitico excepto no acto de votar. Não tenho cartão de nenhum partido. Penso pela minha cabeça.

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