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Andava eu no nono ano de escolaridade na então Escola Preparatória da Praia da Vitória quando, pela primeira vez, tive contacto com um computador. À época, ninguém sequer pensava que fosse possível, um dia, verem-se filmes ou ouvir música a partir daquelas caixas inestéticas e por redes sociais entendia-se os grupos que se sentavam nos diferentes recantos do átrio da escola a jogar às cartas, ao stop, ou simplesmente a falarem ou olharem uns para os outros. Se havia alguma informação a dar, dava-se. Se havia alguma coisa para dizer a quem ali não estava, esperava-se pelo fim das aulas ou, se a coisa era urgente, mesmo urgente, dirigia-se à central telefónica e pedia-se uma ligação para casa. Se alguém atendesse, muito bem. Caso contrário, nem era possível deixar mensagem.

O meu professor de matemática chamava-se Cantinho Lopes. Nunca mais soube nada dele. Durante alguns sábados – nesse tempo havia aulas ao sábado – ele levava-nos para uma sala que não a habitual e lá estavam dois computadores. Os ecrãs eram escuros com letras laranjas ou verdes. Ele ensinou-nos algumas coisas básicas. Ainda assim, conseguimos que as letras mudassem de cor e o nosso nome aparecesse no monitor a piscar. Se fizemos mais do que isso, não me recordo, mas a memória ficou. De boca aberta ficou também toda a escola quando, numa exposição no final do ano, aqueles trabalhos foram apresentados a toda a gente.

Só voltei a ter contacto com estes seres quando ingressei no ensino superior. Nessa altura, o contacto já não foi para ser uma curiosidade. Era uma das cadeiras do currículo e havia que ter nota. Lutávamos para o dez e ele lá apareceu a custo no meio de procedurese arrays.O resto do curso foi feito praticamente sem o recurso a estas máquinas e muito menos a qualquer tipo de linguagem de programação. No último ano apareceu o Lotus123, uma espécie de Excel, uma folha de cálculo que nos deu uma jeiteira para o pré-dimensionamento de estruturas. Computadores a sério, só vieram depois e tudo acabou por ter de ser aprendido à minha custa.

O domínio das linguagens de programação é o futuro e continua-se a adiar a sua aprendizagem. Será uma ferramenta essencial na vida das pessoas e poderá ser essencial para quem quer ter garantia de emprego. Contudo, ainda é uma realidade bastante afastada das escolas. Tal como hoje se considera essencial a aprendizagem do inglês em idade tenra com o argumento da sua necessidade extrema, seria pertinente a introdução do ensino de códigoassim que as crianças começassem a ler. Dir-me-ão que é demasiado cedo e que eles já têm muitas coisas para aprender. É verdade. Têm muitas “coisas” para aprender. Resta é saber se não estarão a ser ensinadas “coisas” a mais e desnecessárias. Não podemos pensar que informática é só para lazer ou uma ferramenta administrativa, é preciso pensá-la como instrumento base para o futuro.

O sucesso da Academia do Código instalada na Praia da Vitória é um bom exemplo daquilo que deve ser uma aposta presente para vencer o futuro e que pode estar a transformar em definitivo a função desta cidade. O turning point necessário. Sempre entendi que a cidade deveria ser pensada para ser outra que não a que conhecemos. Este pode ser o caminho.

Para complementar, faltaria a criação de uma Academia do Código para Crianças e a Praia se transformar em definitivo num hub tecnológico. É de pequenino que se torce o pepino e o futuro é já amanhã.

artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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