antes que seja tarde

Foste ao Bodo? Foi com esta pergunta meio fora do contexto que ela me abordou quando a fui visitar a casa da minha tia no passado sábado. Bodo?! Respondi eu com aquela admiração de quem, em pleno mês de setembro, é confrontado com a ideia de ir ao Bodo como se estivéssemos em maio ou junho. Então vocês não vieram do Bodo?! Retorquiu ela naquele seu jeito, que tão bem lhe reconheço, de quem está a dizer a mais verdadeira das verdades e que não admite uma resposta negativa, nem tão pouco a dúvida. Sim… claro! Viemos do Bodo e este ano tinha muita gente. Há anos que não via tanta gente no Largo da Igreja… Lá acedi eu entrando naquele jogo de faz-de-conta, mas que para ela é o mais presente dos momentos. O tempo está bom… e não trouxeram um pão p’ra gente?! E agora como saio desta? A tia disse para não trazermos pão por causa da dieta…. Quem a viu e quem a vê…. A minha avó, agora com 89 anos, é uma sombra daquilo que foi.

Uma personalidade muito forte, divertida e com uma força de viver incrível. Não era do tipo de mandar recados por ninguém. Frontal, por vezes até demais. A verdadeira matriarca da família, para o bem e para o mal, mesmo quando o meu avô ainda era vivo. Eles eram tão diferentes um do outro, mas funcionava. Complementavam-se. O meu avô era o avô perfeito que fazia tudo por nós e a quem tudo dava, tantas vezes sem que a minha avó percebesse ou, pelo menos, era isso que nós pensávamos que acontecia. Ele fazia o papel do polícia bom, ela a sua antítese. Alguém tinha de pôr ordem nas mãos largas e na bondade do senhor Vítor!

O meu pai não queria que eu comesse milho torrado por causa dos dentes. Saído do nada… A avó sempre gostou de milho torrado! Acabei por dizer. Consola-me! Disse ela com a expressão de felicidade, acompanhada de uma gaitada sonora, que tantas vezes lhe ouvi. Para a próxima, vou passar pelo António Ramalho e comprar um saco de milho torrado para lhe trazer. A promessa que tem de ser cumprida. Eu ia lá muitas vezes quanto tinha o carro. Ai o meu automóvel… acabou-se tudo…

Foi um dos maiores desgostos da sua vida o dia em que não foi possível renovar mais a carta de condução. Cortaram-me as pernas. Dizia ela amargurada, culpando tudo e todos por nada fazerem para que continuasse a conduzir. Já não havia condições. Dava pena sabermos que, todos os dias, ia para a garagem, punha o carro a funcionar, fazia marcha-atrás, tirava-o da garagem, voltava a entrar e o desligava. O seu automóvel (ela não diz carro, diz sempre automóvel) foi o instrumento que lhe permitiu viver a sua viuvez, sozinha e na sua casa, de forma mais autónoma. Não dependia de ninguém. Ia para todo o lado sem que tivesse de dar qualquer tipo de satisfação. Era a motorista das vizinhas da canada, as suas amigas. Levava-as onde elas precisassem e eram a sua companhia.

Não saía de casa sem se arranjar. O cabelo sempre arranjado, o beiço pintado e o sapato de queda eram a sua imagem de marca. No dia em que o Jorge nasceu, fiz questão que ela fosse à primeira visita. Telefonei-lhe. Não atendeu. Vim a toda a velocidade às Lajes para vir buscá-la. Não estava em casa. Bati à porta de todas as vizinhas e ninguém sabia onde andava. Encontrei-a à porta de um outro mais distante, na conversa. Disse-lhe ao que vinha e como já se ia fazendo tarde. Precisava de ir a casa. Disse-lhe que estava bem. Tu pensas que eu vou ver o meu bisneto nestes preparos?! Aperaltou-se. Não demorou muito tempo. Não precisou. A minha avó sempre foi uma mulher lindíssima!

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