fogo preso

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A urbana parava à nossa porta para que eu entrasse. A minha mãe dava instruções precisas ao condutor, dizendo-lhe que me deixasse no caminho de Cima, antes de virar para a Aldeia Nova. Dali em diante seguiria a pé até à canada do Poço. Estavam à minha espera.

Naquela época a escola começava em outubro e eu vivia na Base. A primeira semana de aulas coincidia sempre com as festas das Lajes. Haveria de ser o único aluno da sala que tinha família para lá da rede e do Posto 1. Para os outros, festas, touradas, bodos de leite e procissões eram coisas que não lhes diziam nada ou eu assim pensava.

A minha professora da primária era a dona Isabel. Uma professora à antiga, mas que estava sempre com um sorriso nos lábios como se fosse uma mãe. Ainda hoje, passados quarenta anos, ainda é assim. Encontro-a frequentemente na rua de Jesus e quase sempre falamos. Apesar da idade, a simpatia é a mesma e o sorriso maternal mantém-se. Fala-me das minhas crónicas aqui do jornal. Lê-as sempre. Fico contente. Não fosse ela, eu nem saberia ler nem escrever. Afinal de contas, a Professora Isabel Neto foi a primeira pessoa que leu a primeira palavra que um dia escrevi.

Dispensavam-me daqueles primeiros dias de aulas para que eu fosse para as festas. Eram só dois dias. A segunda e a quarta-feira. Terça-feira do Bodo, era terça-feira das Lajes e era feriado. Sim, o feriado municipal em que as Lajes se enchia de gente vinda de toda a ilha, que chegavam de manhã bem cedo para arranjarem os melhores lugares, assistiam ao cortejo de carros alegóricos enfeitados de papel picado colorido e almoçavam no cerrado da senhora Albertina, num piquenique improvisado, o farnel que tinham trazido de casa onde não faltavam torresmos, galinha frita, vinho-de-cheiro e coca-cola. Só me fazia lembrar a segunda-feira de São Carlos.

Era uma daquelas urbanas da EVT antigas, vermelhas e amarelas, arredondadas no tejadilho com o motor ao lado do condutor, tudo pintado a cinzento feio. Sempre que havia uma subida, o motor fazia uma barulheira infernal e o cheiro a fumo de escape chegava aos narizes dos passageiros. Nos finais dos anos setenta ninguém se preocupava com isso. Se um autocarro para funcionar tinha de deitar muito fumo, que deitasse. Era melhor do que ir a pé.

Chegava às Lajes ao fim da tarde de sexta-feira. Descia na paragem antes de virar para a Aldeia Nova e seguia o meu caminho a pé até à canada do Poço. As crianças podiam andar na rua sozinhas, não havia problema. Às vezes chovia. Havia de me secar e nunca me constipava. Em casa era a confusão total. Mulheres a amassar pão, farinha por todos os lados e dezenas de alguidares de alcatra espalhados pelo chão, cobertos com folha de alumínio, à espera que o forno ficasse quente o suficiente para que lá fossem passar a noite. A cozinha velha dos meus avós é minúscula, mas naquele dia parecia uma cozinha industrial e tudo se fazia… sem queixas e sem queixumes.

Quando eu aparecia, tudo parava. Beijos de um lado, “avô abença” do outro (longe de mim saber que abençaera a bênção) e, logo logo, tinham que me arrumar em algum canto porque o trabalho esperava. Habitualmente seguia com o meu avô para o açougue que ele tinha e onde me incumbia da difícil tarefa de ficar a abrir sacos. Gostava. Era útil. Eu também estava a fazer parte daquilo e a festa propriamente dita ainda nem tinha começado. No dia seguinte seria o dia do fogo preso. Será que a santinha ia abrir? Será que ia ficar virada para igreja? Claro que ficava. Ficava sempre.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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