uma dor d’alma

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Quero ver a Praia crescer, quero encontrar o que de melhor ela tem. Olho à minha volta e, para o fazer, acabo sempre por ter de viajar ao passado, preferindo não ver o vazio do presente e sem vislumbrar o futuro de sucesso que espero e, tenho a certeza, um dia chegará.

Quem lê, ouve ou vê noticiários, a cidade e o concelho não poderiam estar melhores. Assinam-se contratos, celebram-se acordos e anunciam-se os maiores eventos. Mas a vida dos habitantes deste concelho não se faz nas redes sociais, nos telejornais, nas rádios ou nos jornais. As pessoas vivem no mundo real. Fazem o seu dia-a-dia na rua. Vão às compras em lojas onde estão pessoas. Têm os seus filhos em escolas onde não entra a realidade virtual.

Este ano o verão acabou tarde. Os piqueniques, os churrascos e as idas à praia arrastaram-se até ao início de outubro. Foi bom. Nós gostámos. Fez com que as férias se prolongassem no calendário e o calor nos tirasse da realidade. Distraiu-nos. O que é bom para que não tenhamos de enfrentar a realidade diária de um mundo a desabar-se à nossa volta.

E um dia acabou, tivemos de acordar. Temos que acordar. O mundo parecia outro. E o mundo era o mesmo. Em menos de um ano a câmara perdeu uma vereadora. Arrisco dizer que era a vereadora de referência em que grande parte dos munícipes confiava, sendo o garante de estabilidade e o elo de ligação entre as diferentes tendências e egos existentes no elenco governativo municipal, incluindo adjuntas, assessoras e chefe de gabinete. Já se nota o desnorte e a desorientação.

Não bastasse tudo isto, na vereação opositora as coisas não estão melhores. Depois das disputas internas partidárias, deu-se a cisão, levando a demissões no seio das estruturas de suporte evidenciando, mais uma vez, as prioridades enviesadas das organizações.

Enquanto isto, Bolsonaro prepara-se para ser o próximo presidente do Brasil, seguindo as pisadas de Trump. Apoiados pelas massas anónimas onde o seu discurso populista encontra terreno fértil, eles trilham o seu caminho de conquista e consolidação do poder. Isto incomoda-nos. Pelo menos é isso que dizemos acontecer. Indignamo-nos e rasgamos as nossas vestes sem querer perceber o que realmente está a acontecer e sem querer encontrar paralelismos entre aquelas realidades e a nossa.

O poder está à solta e descontrolado fazendo com que, no vazio de ideias existente, o culto da personalidade substitua o exercício sadio da vivência democrática que se deseja. Não é por acaso que as escolhas são feitas entre nomes em vez de entre ideias que, em bom rigor, escasseiam. Não sendo também acidental que a escolha de nomes obedeça prioritariamente a critérios de lealdade e de caciquismo. As receitas para manutenção do poder são conhecidas. Falta, contudo, a capacidade de se criarem alternativas baseadas em ideias concretas.

O desnorte político é por demais evidente e, passado um ano desde que os destinos do município passaram de mãos, as fragilidades adensam-se e o peso político desvanece-se. Há anos que se discute uma solução para o porto da Praia. Há anos que nos enredamos todos nos interesses de cada um e em estudos atrás de estudos. Enquanto isso, como veiculado no Açoriano Oriental de hoje, “porto de Ponta Delgada vai ser alvo de uma empreitada orçada em 32 de milhões de euros que visa melhorar a operação da infraestrutura.”

Resta-nos ir assinando protocolos…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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