quanto vale um saco de lixo #2

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Foi no início de maio que abordei este tema, nesta coluna, pela primeira vez. Percebeu-se logo que esta não era uma questão prioritária, mesmo que seja enquadrável no pacote da inovação e da diferença tão ao gosto de quem gere os destinos coletivos. Quem se importa com o lixo quando aquilo que se consome é a água?

Dizia eu naquela crónica que “a chamada fatura da água é aquele documento que, mensalmente, surpreende quem o recebe”. Digo, agora, que continua a surpreender, só que as pessoas já se vão habituando àqueles valores e, como tudo o que seja, mesmo que disparatado, acabam sempre por se habituar e achar que é normal. Até porque podia sempre ser pior. Caso contrário, talvez o que se passa à nossa volta fosse substancialmente diferente.

Mas não é disso que hoje pretendo falar e partilhar convosco. Nem sequer do valor da famigerada fatura. Se ninguém mais reclama, quem sou eu para me queixar? O defeito deve ser meu.

Volto a este assunto para insistir na proposta que em maio apresentei. Não será bem uma proposta, considerando que a ideia não é minha. Mas quero reforçar a sugestão, já que entendo ser uma solução sustentável para a gestão dos resíduos urbanos, aplicada noutros municípios do país e da Europa, e que visa a implementação de boas práticas, não por via da punição, mas pelo incentivo positivo que compensa quem cumpre, ao invés de pagar o justo pelo pecador.

Como se pode então fazer isso? Qual ou quais as alternativas existentes para que as pessoas passem a pagar só o lixo que produzem e se sintam motivadas a fazer separação de resíduos para reciclagem? Chama-se “Pay As You Throw” (PAYT). É uma iniciativa da União Europeia e já é aplicado em Portugal, nomeadamente no centro histórico de Guimarães. Com este sistema só se paga o lixo indiferenciado que se produz, sendo o reciclável, se separado, recolhido de forma gratuita. Como é feita a triagem? Existem diversas vias. Uma delas consiste em distribuir pelas habitações e estabelecimentos comerciais sacos ou contentores de volume padronizado que permitirão, no momento da recolha, contabilizar a quantidade de resíduos produzidos por cada munícipe ou empresa. Claro que este não é um sistema simples de implementar, mas convencer as pessoas a fazer separação seletiva, também não é e lá se vai fazendo. Pode demorar tempo, mas o importante é que lá se chegue. Nem tudo tem que ser feito para dar resultados imediatos. Não temos de ser nós a colher os frutos das sementes que plantamos.

O sistema PAYT torna-se, assim, um sistema mais justo e mais incentivador da aplicação de boas práticas ambientais. É certo que as receitas camarárias, por essa via, irão diminuir. As despesas também, se considerarmos que haverá redução na produção e maior cuidado na separação de resíduos.

Num momento em que os orçamentos camarários para 2019 começam a ser preparados, talvez fosse este o momento de se equacionarem alterações na forma como se tarifa e se gerem os resíduos urbanos. Há que fazer opções, é certo. Mas também se torna urgente que se implementem medidas com repercussões efetivas no bolso dos cidadãos que promovam a redução do lixo e a sua responsabilização.

Em alternativa, podemos prosseguir pelo caminho habitual e continuar com o envio massivo de panfletos que, misturados com os folhetos de promoções comerciais, têm por destino, quase sempre, o lixo indiferenciado que alimentará o aterro, digo, a TERAMB.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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