pudim de coco

pao por deus 2

O pudim de coco estava pronto e era preciso não o deixar queimar. A minha mãe foi buscar duas pegas, abriu a porta do forno, e, com o cuidado de quem está a preparar a sobremesa preferido do pai, pegou no tabuleiro, levantou-o… e alguém tocou à campainha. As mãos estavam ocupadas. À pressa, deixou o pyrex em cima do fogão e foi abrir a porta. “Pão-por-Deus!”… e um bando de crianças apareceu, com as suas saquinhas abertas, à espera e à espreita a ver o que aquela casa, em nome de um Deus qualquer, tinha para lhes dar. “É rebuçados!” ouve-se um dos maiores gritar para três ou quatro que, ao portão, aguardavam na expectativa de saber se seriam castanhas, bolachas, laranjas ou, até mesmo, pipocas. Vieram a correr, não fosse a porta fechar-se, arriscando perder aqueles bombons brancos riscados de vermelho, meio picantes, deliciosamente doces, e que hoje, aqueles mesmos miúdos, agora adultos e pais, ainda procuram por entre o recheio da saquinha do Pão-por-Deus que os filhos trazem da rua ao fim do dia primeiro de novembro.

Toc!Toc! Bateram na porta do quintal. A correr, a minha mãe deu os últimos rebuçados e foi rapidamente abrir a outra porta. Ninguém podia ficar sem receber guloseimas. Uma algazarra no lado de fora. Abre a porta. “Pão-por-Deus!” Ouve-se um estrondo seguido de um tímido “clack!” A porta da frente, que tinha ficado aberta, fecha-se de rompante com a corrente-de-ar. Recomposta do susto, distribui ao bando das traseiras mais uma dezena de rebuçados listados e ouve-se um coro de “obrigado!”

Manteve-se à porta, agora mais sossegada, a ver aquele grupo de miúdos – quase todos conhecidos – a afastar-se, olhando para o interior dos sacos um dos outros, trocando palavras, a medirem o progresso e as conquistas de uma manhã de feriado, sem escola, passada na rua, a baterem às portas e a divertirem-se, mesmo ignorando que um dia, no futuro, aqueles momentos não passarão de memórias distantes, onde até os nomes daqueles amigos já se terão apagado. “Cuidado com as flores!” Gritou a minha mãe. Olharam para trás e, com um riso nervoso, desataram a fugir depois de pisarem o canteiro dos malmequeres que ladeava a entrada para o carro.

Voltou para dentro. Daí por instantes, haveríamos de ir almoçar a casa dos meus avós e a sobremesa só precisava arrefecer. Ao aproximar-se do fogão, assaltou-lhe a memória aquele tímido “clack!” que ouvira no momento imediatamente a seguir ao estrondo do fechar da porta principal da casa. O vento frio de novembro da parte da frente havia-se “encanado” com o vento frio de novembro do quintal e, no caminho, encontraram um tabuleiro de pyrex, quente, com um pudim de coco bem amarelinho de gemas de ovo, coberto por umas cintilantes claras em castelo caramelizadas. “Clack!” O meu avô ficou sem sobremesa.

Publicado na edição de ontem do Diário Insular.

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