quebrou-se o enguiço

Todos os problemas da Praia ficarão finalmente resolvidos.Estava a ver que este dia nunca mais chegava. Que ninguém reconheceria a nossa real grandeza. Esta dimensão de metrópole atlântica que só uma cidade como a nossa consegue realmente ter. Somos grandes. E como grandes que somos, só podemos pensar em grande. Nascemos para altos voos. Tudo o mais é pouco para nós. Como poderia ser diferente? Porque haveria de ser diferente?

A cidade é pequena, tem pouca gente. Os empresários locais inquietam-se para sobreviver sem que nós tenhamos algum problema em martelar o primeiro prego. Atiramo-nos com grande facilidade para o abismo das soluções e palpitamos com maior frequência que um coração que padece de arritmia. A solução era vir para cá uma loja de roupa daquelas como tem nas grandes cidades, uma livraria como tem no Colombo, uma perfumaria em condições, um bom restaurante de sushi (ups, este até já tem), um bom bar (os de cá estão às moscas). Bom mesmo era um centro comercial com lojas de marca, daquelas que toda a gente anda vestida de igual ou das outras que também se vendem por cá, mas que, por cá, ninguém compra.

Quebrou-se, finalmente, o enguiço! A Praia vai passar a estar integrada numa cadeia mundial de lojas de comida rápida, gerida por empresários de fora, e todos os problemas vão ficar resolvidos, mesmo que isso implique a desgraça dos de cá. Mas que importância tem isso? Eles que se amanhem, têm a mania que são isto e aquilo e tal e que merecem. Pouco importa para onde vai o dinheiro, pouco importa quem ganha ou quem perde. O que interessa é que, com uma cadeia de fast-food com a dimensão desta, parecemos grandes e já podemos dizer aos nossos amigos de outros lugares que na nossa terra também temos um desses pronto-a-comer. Como somos modernos e evoluídos…

Não temos gente, não temos dinheiro, não passamos de um lugar pequeno com as ambições dos lugares grandes. Ser ambicioso não é defeito. Mas recusarmo-nos a procurar aquilo que de bom temos, para além de defeito, é não gostamos da nossa terra, por muito bairristas que sejamos, por muito que digamos o contrário. Não há que ser o que os outros são. Se essa for a nossa ambição, seremos cópias deles e, como todos sabemos, a cópia é sempre pior que o original.

Temos que ser nós próprios, dar valor a quem somos e ao que é nosso. O Natal está à porta e esta é uma bela altura do ano para darmos esse primeiro passo.

Este texto foi publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A imagem foi retirada do filme Goodbye Lenin.

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