o Natal do Orlando

Habituei-me a comprar a árvore de Natal na praça do mercado. Desde pequeno que era assim. Ainda em casa dos meus pais, a criptoméria chegava sempre na primeira semana de dezembro e, invariavelmente no dia oito, era enfeitada. O dia começava com uma ida à missa das onze. Era dia Santo e celebrava-se o dia da Mãe. Como habitualmente acontecia aos domingos e feriados, o almoço era reforçado e fazia-se na companhia dos tios e tias, primos e primas e ainda coma avó materna, a única dos quatro avós de quem consegui guardar memória. Terminado o almoço, os homens iam até à Sociedade, enquanto que as mulheres levantavam a mesa e arrumavam a cozinha. Os mais novos brincavam no quintal. Finalizadas as tarefas domésticas, as senhoras iam sentar-se a conversar sobre tudo e sobre nada, num ambiente que era saudável, ou pensava eu que assim era. Ao fim do dia, cada um voltava a casa e o meu pai deslocava-se até à garagem de onde trazia a árvore comprada dias antes. Faltava sempre um ou dois ramos. Havia sempre um lugar onde a Natureza poderia ter sido mais generosa e ter deixado crescer aquele galho que faria a árvore ficar redondinha como aquelas de plástico compradas na Base. Não é muito bonita, mas deita cheiro. Cheira a Natal. O lado pior há de ficar virado para a parede. Houve um ano em que juntamos duas. Encostamo-las pelos troncos, amarramo-los com uma corda e pareceu logo outra. Ficou mais cheia. Bem bonita. O meu pai punha as luzes. Eram coloridas de acender e apagar. Foram compradas no BX no mesmo dia em que comprámos o transformador. O meu tio, irmão mais novo do meu pai, trabalhava para os americanos e fez-nos esse favor. Esse e muitos outros. A televisão a cores, o frigorífico, o fogão com aquele forno gigante, a máquina de lavar roupa, a batedeira, a torradeira, os lençóis… isto para não falar das caixas cheias de copos, as garrafas de uísque, as coca-colas e o peru que haveríamos de comer no almoço do dia 25. Depois das luzes, a minha mãe tratava do resto. Começava, com o acender das luzes, a época que nos faz chorar.

Guardo com carinho as bolas e as fitas que trouxe da casados meus pais. Muitas já se partiram, outras perderam o brilho e as fitas já estão murchas sem cor e sem vida. Vou ao mercado e já não tem criptomérias. Eu gosto do Natal. Faz-me lembrar o tempo em que era feliz. Recordar-me da família que fui perdendo, que se foi afastando. Quero ter uma árvore de Natal. Acabo por ir a uma loja de chineses e comprar uma daquelas de plástico, a cheirar aplástico e com menos ramos e folhas que as criptomérias que o meu pai comprava e de que a minha mãe tanto se queixava.

Com os enfeites herdados da minha mãe, armo a árvore junto à clarabóia para que alguém lá em cima, durante o dia, a consiga ver, já que, de noite, as lâmpada ficarão apagadas. O transformador avariou-se e não comprei outro. Não dá para tanto. Nunca tive o hábito de ir à missa do Galo. Mas fico contente só de ouvir o badalar dos sinos quando toca a meia-noite e estou sentado a cear. Imagino-os todos à minha volta, como se ainda fossemos pequenos e nos déssemos como uma verdadeira família, apesar de uns já cá não estarem e os outros não quererem estar. Em minha casa, naquilo a que eu chamo de casa, é Natal, a época que me faz chorar.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

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