o véu de Tereza

Aí há atrasado, na tentativa de encontrar novas rotinas, aventurei-me num ateliê de escrita criativa promovido pelo Instituto Açoriano de Cultura, orientado por Álamo Oliveira. Foram vários e diversos os desafios. Não os completei todos. Este, cujo resultado agora vos apresento, consistia em escrever um conto histórico. Ficou assim…

Quando o vento lhe roubou a mantilha de renda negra que lhe cobria o rosto e a atirou para cima das imagens daqueles santos coloridos, em madeira, abandonados junto ao amontoado de pedras que, dias antes, haviam sido a igreja, a pequena multidão que ali se juntara ficou de queixo caído, num silêncio sepulcral que nem os mortos enterrados há escassas horas no minúsculo cemitério improvisado pelo regedor o conseguiram escutar.

A terra estremeceu como nunca antes se havia visto. Poucas foram as casas que resistiram a tamanha catástrofe e a igreja sucumbiu. No momento em que a terra rugiu, Tereza não estava em casa. Raramente ia à rua e só uma pessoa, para além da família e do padre, algum dia lhe havia visto o rosto. Quando nasceu, o susto foi grande e a surpresa ainda maior. A avó, que assistiu ao parto, esqueceu-se de cortar o cordão umbilical, tal foi o espanto perante aquela visão tão desconforme. Chamou-se o padre e a recém-nascida foi ungida com os óleos sagrados e a água-benta, ali mesmo, tendo como batistério um alguidar de barro ainda sujo com o sangue das galinhas mortas na véspera.

Tereza cresceu afastada do mundo. Sumida e esquecida. Aos domingos, com a mãe e os irmãos, deslocava-se à pequena igreja do Arcanjo Miguel, abafada por pesados xailes de lã que lhe escondiam o corpo e os olhos. A viagem era longa, feita quase sempre a pé. Nem a chuva, nem o calor, os impedia de ir à missa. Certo dia, o vigário Sebastião, que viria a morrer naquele amaldiçoado dia, abordou a mãe de Tereza e perguntou-lhe se não seria mais sensato deixá-la em casa, em vez de fazerem todo aquele caminho com a menina encharcada de suor e de água da chuva.  A infeliz criatura estava por perto e ouviu. Foi como se tivesse sido excomungada. Chorou três dias seguidos sem ir à cama e sem dormir. Tereza fugiu de casa.

Durante duas semanas ninguém a viu. Os vizinhos que habitavam aquele ermo lugar, evitavam serem levados à fala. Ninguém queria aproximar-se dela. Era uma criança proibida marcada por um insólito estigma que só viria a revelar-se depois do terramoto. Foi preciso chamar-se gente das longínquas Bugias e de São Brás. Veio até um homem de lá de cima das Amoreiras que se dizia aparentado com a infeliz, mas que ninguém percebia como, nem sequer a avó.

Resvalando os pés por entre a pedra solta das curraletas do vinhedo, caindo nas covas onde as videiras cresciam, dia e noite, os homens e as mulheres que viviam por entre as rochas que faziam aquele pedaço de terra a que os paroquianos se foram acostumando a chamar de Caldeira, não comeram nem dormiram, tal era a vontade de ajudar aquela família que vivia uma espécie de luto. Não por Tereza, não pelos seus, mas porque Deus assim o obriga.

A quebrar o silêncio da noite, ouvia-se o violento rebentar das ondas contra o biscoito negro, galgando-o. O mar ficava a escassos metros e por vezes vinha visitar os palheiros feitos casas. Temeu-se o pior. Alguém suspirou de alívio. Foi só um susto. Seguiu-se um longo silêncio. O oceano pareceu adormecer.

Ouviu-se um ronco. Forte. Não se percebeu de onde vinha. A terra estremeceu. Abanou forte. Parecia não querer parar. Não houve tempo para preces nem intenções. Por entre a escuridão da noite, escutaram-se gritos de pânico e a terra rasgou-se por debaixo dos pés. Na memória ainda estava fresca a destruição da vizinha paróquia da Senhora da Pena, ocorrida havia pouco mais de um mês, no sábado da Trindade. Esqueceram-se de Tereza.

Não foi noite de dormir. As buscas para encontrar a jovem rapariga terminaram bruscamente, sem avisar. Ninguém sabia dos seus. Do que chamavam casas, pouco mais restava que pequenos montes de pedra que a ténue luz da aurora não conseguiu revelar, tal era a nuvem de poeira que os envolvia. O mundo acabara naquela noite. Foi-se tudo.

Tereza nunca mais viu a família.

À medida que o Sol subia por detrás da serra de Santiago, a poeira ia assentando e o cenário de desolação e destruição revelava-se aos olhos daquela gente como uma aparição assombrosa.

No meio daquela paisagem com cheiro a terra e maresia, sobreviviam uma casa alta e a ermida que lhe ficava contígua, dedicada a Nossa Senhora da Luz, e que acabara de ser construída poucas semanas antes. Duas construções novas onde os blocos de pedra bem aparelhada se transformaram em símbolos de esperança onde a vida continuava.

Do balcão da nobre casa, naquele tom de quem há muito se acostumou a ser obedecido, uma mulher dava ordens a um punhado de homens para que fossem à procura de quem precisasse de ajuda. Na cozinha preparava-se um caldo quente, o pão era partido em pequenas porções para que crescesse e todas as mantas, cobertores e colchas da casa se amontoavam no salão para serem levados para a capela. Isabella chamou a si essa tarefa.

Carregando um punhado de mantas, desceu a curta escada que a levava ao pátio e daí seguiu até à ermida, a escassos metros. A porta estava aberta, o que não era frequente, principalmente àquela hora e sem que ela disso tivesse conhecimento. A luz entrava dourada por uma minúscula janela lateral. Quem ali entrasse, naquela manhã de emoções tristes, não imaginaria que, do lado de fora, a desgraça e o desalento se haviam abatido sobre as gentes daquele lugar remoto.

Na esperança de encontrar uma explicação e ter algum consolo, o olhar de Isabella dirigiu-se para o altar. Estava vazio. A imagem desaparecera, talvez tivesse caído. Olhou para o chão. Não encontrou vestígios da santa. Para sua surpresa, estirado sobre o pavimento, um vulto negro cobria o lajedo de cantaria. Deixando cair as mantas, Isabella correu até a ele. O vulto mexia-se. Respirava. Chorava. Desviou os pesados xailes negros com que a criatura se cobria. Era uma rapariga. Soluçava com a imagem da Virgem encostada ao peito como quem se agarrava à vida. Isabella procurou sossegá-la. Olhou-a nos olhos. Eram verdes. Para sua surpresa, Tereza tentou escondê-los. Com um gesto maternal, Isabella afagou-lhe o rosto. Sorriu. Levou a rapariga para sua casa. Deu-lhe de comer. Tereza perguntou-lhe pela mãe e pelos irmãos. Ninguém ainda sabia do seu fatídico destino. Adormeceu.

Na capela, começavam a chegar os primeiros desalojados. Não eram muitos. Também ali não vivia muita gente. Vinham com fome, assustados e sem saberem muito bem o que lhes tinha acontecido. A primeira reação, ao entrarem no pequeno templo, era prostrarem-se junto à imagem de Nossa Senhora da Luz, que regressara ao seu altar, e pedirem-lhe perdão. Não sabiam ao certo que pecado tinham cometido, mas acreditavam que a catástrofe daquela noite tinha sido um castigo enviado do céu que a terra quase engoliu.

No primeiro domingo após o terramoto, depois de enterrados os mortos e de as vidas começarem a retomar o seu triste rumo rotineiro, os sobreviventes da paróquia de São Miguel Arcanjo foram à missa, como era sua obrigação no Dia do Senhor. Pela primeira vez, Tereza não foi a pé. Acompanhada por Isabella, a rapariga da cara escondida, seguiu para a igreja de carroça, com o rosto coberto por uma mantilha de renda negra em sinal de luto pela morte da sua mãe.

Estava vento. Tereza, pouco habituada a tão leves tecidos, não segurou o véu. À primeira rajada, a mantilha esvoaçou deixando a descoberto o seu rosto. Os olhos verdes da cor do azeite sobressaíam na brancura do rosto níveo embelezado pelo ruivo intenso dos seus cabelos. O povo estacou. Nunca tinham visto nada assim. A sua beleza era desconcertante. Tereza não era, definitivamente, uma rapariga igual às outras.

A história daquela criatura branca de olhos verdes e cabelo cor de lava rapidamente se espalhou pelas paróquias vizinhas. Até mesmo em Angra se falava da menina que nasceu diferente. Um comerciante curioso, habituado ao contacto com os mais recônditos lugares da cristandade, assim que teve conhecimento da fabulosa narrativa, empreendeu uma viagem até ao Ramo Grande a fim de ver com os seus próprios olhos a menina misteriosa que se tornara protegida de uma castelhana na noite em que a terra tremeu. Aí chegado, o ilustre visitante olhou para Tereza. Sem espanto nem admiração, limitou-se a reconhecer a sua beleza invulgar. Era bela, sem dúvida.

Aos olhos dos devotos cristãos, a aparência de Tereza passou de curiosidade hedionda a beleza sublime. Um milagre, dizia-se. Ninguém lhe havia visto o rosto antes do terramoto quando passou boa parte da noite abraçada – dizia-se que em prece – à imagem de Nossa Senhora da Luz. Depois disso, a pequena capela dedicada à senhora das Candeias, como também era conhecida, tornou-se num importante lugar de romaria. Uns, vinham movidos pela fé na esperança de serem iluminados pelo toque da beleza eterna, outros, porém, vinham na curiosidade de encontrar Tereza. Em vão. Juntamente com a tutora, a jovem terá viajado para Castela onde, diz-se, terá casado com um nobre fidalgo madrileno. Há quem diga que a história não foi assim tão romântica e que Tereza, depois dos castelhanos saírem da ilha, terá dado entrada no convento da Luz, na vila da Praia, como noviça, tendo-se perdido o seu rastro. O povo preferiu acreditar na primeira versão…

A capela de Nossa Senhora da Luz, com o passar dos anos, foi sendo deixada ao abandono, acabando por ruir. As pessoas deixaram de lá ir e a imagem da santa desapareceu. Nunca mais foi encontrada. Dizem os mais antigos que estará enterrada algures sob as arcadas da Casa do Castelhano. Isabella, em fuga depois da Restauração, revoltada com a ingratidão dos portugueses, a terá lá enterrado, amaldiçoando-a, na vil esperança de que, um dia, quando alguém a encontrar, a terra voltará a tremer, abrindo-se e deixando o mar da Caldeira encontrar-se com o mar da Praia.

Esta história não passará de uma lenda profética. Mas a experiência popular sabe que, havendo fumo, há fogo, e o melhor é não arriscar. E se for verdade?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s