o Bate Papo

Quando, em meados dos anos noventa do século XX, um grupo de jovens empreendedoras brasileiras atravessou o oceano e se estabeleceu nas imediações da Base, estávamos longe de imaginar que esse simples ato de altruísmo iria abalar os fundamentos conservadores de uma sociedade que, até à época, se considerava aberta, moderna e progressista.

A verdade é que tudo mudou, passando a haver um antes e um depois. Foi o choque total. Contavam-se histórias, casamentos foram desfeitos, fortunas gastas, jovens desencaminhados e um mundo de novas “oportunidades” se abriu. Não se viam tantas carrinhas de caixa aberta juntas desde a revolta do leite da Praça Velha.

Sabia-se quem frequentava aquele antro de pecado e as humildes trabalhadoras eram identificadas na rua. Falar de “brasileiras” era sinónimo de perdição e obra de Belzebu. Ouvir uma mulher a falar português com sotaque tropical era motivo de alerta e risota. 

Até à abertura do Bate Papo víamo-nos a nós próprios como uma comunidade progressista, aberta ao mundo e à novidade, influenciados que eramos pelos americanos e pelos militares portugueses. Essas não eram coisas que nos afetassem. Sempre existiram mulheres da vida cá pela terra, mas não davam nas vistas e tinham a sua atividade mais direcionada para o pessoal de fora. De preferência com dólares ou da aviação.

Estas, contudo, eram diferentes. Alargaram a oferta, instalaram-se, de porta aberta, e vieram à caça dos nossos pobres homens, ingénuos, que nem sabiam existirem coisas destas, a não ser na América… E foi o que se viu.

De um momento para o outro, a Terceira transformou-se num romance de Jorge Amado onde aquelas senhoras se transformaram num alvo a abater. Proliferaram pela ilha coisas como aquela em locais inimagináveis e com conceitos inenarráveis. A presença de casas de “repouso” passou a fazer parte da vida local e os jornais passaram a anunciar serviços de assistência personalizada.

Com o passar do tempo a novidade foi desaparecendo e a presença das “brasileiras” – muitas vindas do Leste ou do Continente – passou a ser algo encarado com normalidade. O Bate Papo fechou, mas o tema deixou de ser tabu. Hoje, já ninguém fala de prostitutas, de meninas ou de casas disto e daquilo. Não significa isto que tenham deixado de existir. Antes pelo contrário. O que aconteceu é que com aquela espécie de revolução dos anos de 1990, levada a cabo por um punhado de meninas do Brasil, fomos obrigados a mudar a nossa forma de pensar e a sermos mais tolerantes ou a fazermos de conta que o somos.

A Terceira mudou. O Bate Papo mudou-nos. Quem diria?! A mudança pode vir de onde menos se espera. Mas faz-se…


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