regresso à cidade idílica

Com o advento do turismo e dos novos trabalhadores da cidade, a Praia adquiriu uma nova cor. Será este o princípio de uma nova era? Ou estaremos perante fogos fátuos de entusiasmo momentâneo? Gostava de crer que não.

Quem nos frequenta já não vem de lenço preto amarrado à cabeça ou carregado de sacas de serapilheira e cigarro de folha de milho no canto da boca. Os novos frequentadores têm outra idade, outra formação e novas formas de se relacionarem com o comércio e a informação.

Mudaram-se os hábitos. Mudaram-se as gentes.

Já nem é preciso vir à cidade tratar-se do cartão de cidadão, fazerem-se pagamentos ou vir ao médico. Não vou discutir agora se a descentralização foi boa ou má. Teve os seus méritos. Aproximou os serviços dos cidadãos, por exemplo. A verdade é que realidade que existe é esta e, por isso, é com ela que temos de viver.

O comércio também já é feito muito dele online. Sou um dos que o faço. Contudo, nem tudo pode ser feito via iternet. Se o fosse, a Praia e as outras terras deixariam de existir. Elas continuam onde sempre estiveram, com as suas próprias dinâmicas, outras certamente, e com pessoas a fixarem aí residência.

E o que fazemos nós? Continuamos agarrados aos modelos do passado. Continuamos a imaginar e a “projetar” uma cidade idílica que terá existido no passado e que, nem essa, temos a certeza de alguma vez ter sido realidade. O “projetar” vai propositadamente entre aspas porque tenho dúvidas que exista sequer um projeto, um sonho, ou uma ideia de cidade por parte de quem tem o poder decisório ou dele participar, independentemente de estar no lugar dos vencedores ou dos vencidos. A estes também se pedem responsabilidades, coragem, ideias e sentido de responsabilidade na apresentação de propostas, isto quando são feitas, claro!

É voz comum dizer-se que a cidade deve virar-se para o mar. Tirar partido da potencialidade da baía, do porto e das praias. Que a cidade devia fazer uma aposta clara nos desportos náuticos, nas atividades aquáticas e marítimas. Que se deveria criar uma escola de surf, vela, windsurf, mergulho… Há poucos anos fui contactado por um grupo de windsurfistas para elaborar um projeto de escola da modalidade e que serviria, também, de apoio aos praticantes. A proposta foi entregue, apresentada a quem de direito e, até hoje, nada.

Cidade mar? Porque não?! As ideias até existem….

No final de outubro realiza-se o Outono Vivo. Um projeto interessante, importante, que já ganhou nome e um lugar na agenda dos praienses. Mas não passa daquilo. Falta-lhe escala e projeção. Falta-lhe ser reconhecido por outros que não só os amigos, vizinhos e familiares. É inconcebível que um evento cultural desta natureza e dimensão (à nossa escala) nunca tenha tido o privilégio de ser inaugurado pelo presidente do governo regional. Isso é demonstrativo da importância que lhe dão. Por mim, para a próxima edição, convidaria o Senhor Presidente da República a cá vir inaugurá-lo. Talvez, convidando-o, os de cá passem a dar-lhe valor.

Cidade literária? Mas que não seja só naqueles dias…

Agora a tecnologia invadiu a cidade. Os novos trabalhadores da Praia estão ligados ao mundo da informática e do virtual. E estão instalados no coração da urbe. São muitos, com dinheiro e jovens.

Estará a cidade preparada para eles? Ou prefere ignorá-los à espera do regresso dos americanos, da venda de cobertores e de perfume a litro? Lamento desiludir-vos, mas essa cidade idílica já não volta. Talvez até nunca tenha mesmo existido…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s