Tens algum amigo no Governo?

A ministra é casada com o ministro. A outra ministra é filha de outro ministro. O deputado de cá é filho do deputado de lá e da senhora de já não se sabe bem de onde. A empresa X, que é de um primo casado com a prima, ganha os concursos todos e a empresa Y, dirigida por um grande simpatizante, mesmo sem concurso, “papa as todas”.

A Maria passou à frente do Manel num concurso para um lugarda administração regional porque é uma forte ativista na juventude partidáriacorreta e o Xico, que nem sequer se sabe muito bem como acabou o curso, atéteve uma classificação excelente na entrevista, mesmo sendo em português,língua que, a avaliar pelas conversas, nem sequer domina. E isto, porque houveconcurso e a entrada não foi feita pela porta de serviço, aquela que forneceavenças para os seus, mesmo que de competência duvidosa ou de evidente incompatibilidade contornada.

Nada disto é novidade. Tudo isto é falado à boca-pequenapelos cantos e esquinas das nossas praças e becos obscuros com indignaçãoverdadeira e anseios de vingança ou ajuste de contas através de denúncia,preferencialmente anónima. A seu coberto, permite-se dizer tudo, atentandocontra a própria dignidade dos visados, beneficiários destas benesses, muitasvezes merecida e de dignidade pouco recomendada.

Rasgam-se vestes, deitam-se toalhas ao chão… “ai se eupudesse falar?”; “as coisas que eu sei!”; “se soubesses da missa a metade…”;“nem te digo nem te conto!”.

São tantos os casos, são tantas as estórias, são tantos osapadrinhamentos, jeitos e favores que, por vezes, duvidamos serem verdade.

Penso que não haverá açoriano que não tenha um caso paracontar. Uma situação passada consigo próprio, com algum familiar ou com um amigoque lhe cause indignação. Poderá ter sido num acesso a um emprego, a umconcurso público, a um ajuste direto ou na atribuição de algum apoio financeiroou subsídio. Contudo, em termos de espaço temporal, a indignação vai variando.Se estivermos a falar com alguém da oposição, os relatos são bem presentes,atuais, envolvendo nomes que todos os dias ouvimos na televisão ou lemos nosjornais. Se o interlocutor for do partido da atual maioria, vai-nos contarsituações do tempo do Mota Amaral, mesmo que nessa altura nem fossem aindanascidos ou justificando o cargo/emprego que agora têm porque antigamente eraigual, como se os erros de uns justificassem os erros dos outros.

De tanto ocorrerem, já nem estranhamos que estas coisasaconteçam. Passou a ser normal. E a primeira pergunta que fazemos quando abreum concurso é: “com quem devo falar?” ou então “quem é que eu conheço que mepossa dar um jeito nisto ou fazer a coisa andar mais depressa?”. “Com quetécnico (economista, engenheiro, arquiteto) devo ir falar para garantir que omeu projeto é aprovado?”

O sistema está manifestamente viciado, mas também, quem éque se importa com isso?

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