sou um delinquente

Sem perceber uma única palavra em inglês, acompanhei o desenrolar de séries televisivas, assisti a filmes e vi desenhos animados em doses anormais que, comparadas com a disponibilidade existente nos dias de hoje, a esta distância, agora me parecem meros aperitivos. Talvez tenha perdido os detalhes ou alguma subtileza da trama. Contudo, as estórias e os mundos fantasiosos e imaginários que ficaram retidos na minha memória posso dizer que são só meus. Ao meu jeito, ao meu estilo, de acordo com a minha interpretação. Vi o que quis, como quis.

Via de tudo. Filmes de terror, ação, muita guerra, pancadaria, índios e cowboys, até cenas eróticas que, aos meus olhos, seriam próximas da pornografia. Consumi uma cultura diferente da minha. As pessoas usavam só o garfo à refeição e saciavam a sede com bebidas gaseificadas vendidas em latas vermelhas e caracteres brancos. Abusavam do ketchup e das batatas fritas e a comida era vendida “encanada” ou empacotada em caixas e sacos de plástico, outrora sinal de progresso e desenvolvimento, hoje, símbolo de atraso civilizacional. As pessoas não aparentavam ser todas iguais, o que era bastante evidente pela cor da pele ou pela forma dos olhos. Aos primeiros chamava-lhes “pretos” e aos segundos “chineses”, independentemente de terem nascido na China, na Coreia, no Japão, nos Estados Unidos ou nas profundezas do continente africano.

A televisão americana, emitida a partir das Lajes da Terceira, era o meu tablet e tinha a vantagem de não consumir dados.

Depois vieram os leitores e gravadores de vídeo e os videoclubes. Os meus pais nunca souberam como funcionavam aqueles aparelhos. Não faziam ideia como gravar uma emissão e muito menos programá-la. O que não valeria muito a pena, já que os horários raramente eram cumpridos. Gravei o que queria, como e quando queria. Visitava o clube de vídeo e alugava os filmes que me apetecia. Não fazia caso da idade aconselhada e o senhor atrás balcão também não se importava com isso. Desde que pagasse e o devolvesse a horas e rebobinado, estava tudo bem.

Este novo modelo de tablet revelou-se bem mais interessante que o outro, a AFRTS. Abriam-se outras portas. Era todo um novo mundo, algum dele proibido, que se revelava perante um adolescente que procurava o que todos os outros procuram, o desconhecido e o descobrir-se. Não foi por isso que me tornei um delinquente.

Os meus filhos passam horas com o telemóvel na mão a assistirem a desenhos animados falados em línguas que nem sempre reconheço. O Ben10 tanto fala português como alemão, italiano ou aquilo que julgo ser russo. Tenho a certeza que eles só entenderão o português, mas não será por isso que não compreenderão a trama. Tal como eu, poderão não perceber tudo, mas construirão a sua própria estória com base nas imagens a que vão assistindo. O mais velho, sem saber ler, já começa a procurar outras coisas e é frequente vê-lo a assistir a vídeos a ensinar a pintar ou a fazer bonecos com plasticina.

Demonizaram-se os tablets e criou-se a ideia que as crianças seriam mais felizes sem eles. Não concordo. É claro que em excesso pode revelar-se prejudicial. Afinal de contas, tudo em excesso é prejudicial. Até mesmo negar a evolução e o progresso. Há até quem diga que ler demasiado é muito perigoso…

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