aprender com Notre Dame

Hoje não haverá cerimónia de lava-pés em Notre Dame. No silêncio da escuridão da catástrofe, a Catedral permanecerá fechada, com os círios apagados e os cânticos adormecidos. Fica lá longe, em Paris, mas as imagens do incêndio transmitidas e divulgadas por todo o mundo não nos deixaram indiferentes, trazendo-nos à memória o incêndio da nossa própria Sé Catedral, o incêndio do Chiado ou tragédias como a do sismo de oitenta onde muito do nosso património cultural e religioso caiu por terra, estando algum dele ainda por recuperar, passados que estão quarenta anos.

Por duas vezes estive em Notre Dame. Numa delas chovia torrencialmente, sendo que a arte, a cultura, a apreciação e contemplação do monumento deram lugar aos aspetos mais práticos da vida de um turista desprevenido sem guarda-chuva ou capa-de-água, encontrar abrigo. As portas, embora gigantescas, foram pequenas para tanto visitante, acabei por me escapar para a patisserie mais próxima. Os pórticos majestosos de Notre Dame pareciam a porta de entrada das Nações Unidas, tal era a variedade de nacionalidades ali presentes na busca de abrigo. Mais do que um monumento religioso, a casa de Quasimodo é um símbolo de uma Civilização e de uma forma de estar e de ver o mundo. É um símbolo identitário. A vê-lo arder, ao ver o seu “farol” ruir, é parte de nós que com ele se perde, é uma referência que desaparece. Será reerguido!

Quando o pináculo em chamas colapsou, ficámos consternados. Foi cultura, foi história, foi identidade, foi herança. Tantos séculos de criação e inovação caídos por terra em poucas horas. Lá longe, na pequena Île de la Cité, aquilo a que se tem chamado torre central da Catedral de Notre Dame, transformou-se em cinzas após um incêndio que terá sido originado acidentalmente. Por cá, na ilha Terceira, os nossos pináculos, símbolos e parte integrante da nossa paisagem e identidade cultural, vão caindo, vão sendo destruídos. As chaminés de mãos postas não estão a desaparecer por ação de catástrofe ou de acidente. Há intervenção humana direta. Com elas, atrás delas, seguem também as casas, as construções típicas da nossa terra, em pedra, com telhado em madeira que, embora não sendo góticas nem constarem dos livros de história da arte e da arquitetura universais, são nossas e constituem um património de que nos deveríamos orgulhar e, por isso, preservar. Cuidar dos nossos monumentos é um dever de todos, de nós todos e não só das entidades oficiais e competentes.

Hoje não há cerimónia de lava-pés em Notre Dame, mas irá decorrer uma celebração semelhante em todas as igrejas católicas espalhas pelo mundo incluindo, necessariamente, as nossas. Para os que lá forem, peço para apreciarem as imagens, os altares, as alfaias, o edifício como um todo e as pinturas dos tetos, no caso de ainda as terem, ou imaginarem aquilo que foram ou poderiam ter sido. Para os que não se deslocarem às igrejas, reparem no património que vão encontrando pelo caminho, no interior dos edifícios, nas nossas freguesias, perdido em canadas, nas nossas vilas e nos chamados centros históricos das nossas cidades. Tudo o que estiverem a ver só existe porque alguém decidiu que assim deveria ser. Tudo o que desapareceu também só aconteceu porque alguém ou entendeu demolir ou preferiu não recuperar. A decisão é sempre nossa e cabe-nos a nós, primeiro do que tudo, tomar consciência disso. Felizmente, Notre Dame não ficou num estado em que não possa ser recuperada. Mas será restaurada no século XXI, aquele em que nós vivemos. Daqui por cem, duzentos, trezentos, mil anos, outros cá estarão e, no seu tempo julgarão os nossos atos.

Mandatory Credit: Photo by CHRISTOPHE PETIT TESSON/POOL/EPA-EFE/REX/Shutterstock (10205506cs) A view of the cross and the sculpture ‘Pieta’ by Nicholas Coustou behind debris inside the Notre-Dame de Paris in the aftermath of a fire that devastated the cathedral, in Paris, France, 16 April 2019. The fire started in the late afternoon on 15 April in one of the most visited monuments of the French capital. Cathedral of Notre-Dame of Paris fire aftermath, France – 16 Apr 2019

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