Fascista!

Provavelmente o maior insulto político que pode ser feito a alguém. Contudo, nos dias que correm, a vulgarização deste qualificativo tem feito com que, no mesmo saco, caiba tudo e caibam todos os que o são verdadeiramente e todos os outros que se pretende silenciar ou descredibilizar. No discurso corrente, tudo o que vai contra o politicamente correto oficial ditado pelos guardiões e guardiãs da verdade suprema pertencem a esta estirpe ideológica. Esquecem-se, contudo, os Torquemadas dos tempos modernos que a sua própria atitude e intolerância se transformou no novo lápis azul.

Passados que são 45 anos desde a conquista da liberdade, muitos são os ganhos que se vão desvanecendo traduzíveis pela intolerância e incapacidade de aceitar o outro e a sua opinião. É verdade que somos livres de pensar, dizer e escrever o que pensamos, desde que tenhamos o cuidado de cumprir os ditames da bíblia sem género e sem cor. Mas também é verdade que depois de quatro décadas e meia de regime democrático ainda não saibamos destrinçar opinião de crítica pessoal. Para a grande maioria das pessoas, apontar o dedo a uma qualquer sua ação ou opinião é como se a estivéssemos a insultar no seu carácter quando, na verdade, o que está em causa é simplesmente a mensagem e não o mensageiro. Isto aplica-se não só às pessoas individualmente, mas também às instituições e aos cargos que ocupam ou representam.

Lidamos mal com a denúncia, por muito justa ou verdadeira que seja. Aos seus autores, chamamos-lhes chibos ou pides. Por isso, não somos de fazer queixas. Preferimos deixar a coisa rolar na esperança que se resolva por si. Quarenta e cinco anos não foram suficientes para amadurecermos a este nível, nem arrumarmos os fantasmas do tempo da outra senhora. Continuamos a olhar à volta sempre que pretendemos falar de um assunto mais melindroso e procuramos garantir que “aqui entre os dois que ninguém nos ouve”…

Apesar das conquistas, continuamos a preferir ficar calados e a não emitir opinião com medo de eventuais represálias que podem vir de muitas formas e das origens mais improváveis. Desistimos de ser cidadãos de pleno direito para passarmos a ser meros instrumentos de manipulação. Fantoches. Recuso-me ser uma marioneta ao serviço de quem quer que seja e, por essa razão, vou-me esforçando, todos os dias e a cada semana nesta minha rua de jesus, a cumprir e a levar ao limite a liberdade de expressão que alguém, a 25 de abril de 1974, conquistou para mim. Não o fazer é dar espaço a que os silenciadores ganhem a batalha contra a liberdade, sendo que muitos deles, por baixo das lustrosas vestes vermelhas da democracia, ostentam os cinzentos e bafientos fatos do fascismo conservados pela naftalina que alimenta uma vida fácil.

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