fui só tomar um café

Sentei-me só a tomar um café. Curto, sem açúcar, como é habitual. Gosto de sentir aquele sabor intenso de uma só vez, como se fosse um shot de cafeína, o forte aroma e o calor provocado pela chávena quando a aconchegamos por entre as mãos. O objetivo era ocupar o tempo enquanto o carro ficava na oficina a ser curado de um dos seus achaques causado pela idade o que, nos automóveis, começam bem mais cedo. Com o uso, o material começa a degradar-se e, se não tivermos a paciência e o cuidado de o irmos mantendo, daqui por nada parece uma sucata velha. Já tem dez anos e, se tudo correr bem, espero que fique nas minhas mãos por muito mais tempo.

Quando entrei no café, o que mais me surpreendeu foi a escuridão. Os pequenos apliques encastrados no teto de madeira envernizada de castanho-escuro emitiam uma luz amarelada de fraca voltagem dando ao espaço um ar de casa antiga onde o tempo estagnou e as lâmpadas não foram substituídas desde que os avós do proprietário as compraram há umas décadas atrás.

Depois dos meus olhos se habituarem àquele ambiente, reparei que não era o único freguês. Num canto sombrio da sala, junto à parede coberta de fotografias de touros, touradas à corda e recortes de jornal alusivos ao tema, estava um rapaz sentado à mesa a fumar um cigarro. Não lhe consegui ver o rosto, mas o cheiro ao fumo do tabaco impunha uma presença dominadora quase anacrónica, tal foi a forma que, aos poucos, nos fomos desabituando daquela fumaça cinzenta e que agora, neste novo mundo acético e sem vícios, nos parece estranha, mas desafiadora.

Coloquei a minha mochila numa cadeira e deixei o telefone sobre a mesa de tampo de granito plástico. Dirigi-me ao balcão. Atendeu-me um homem de camisa branca, sem ser farda, óculos graduados com uma armação de massa preta e com uma expressão neutra no rosto, daquelas que nos deixam incomodados por não sabermos se somos ou não bem-vindos. Pedi um café. Está bom assim? Mão percebi. Se está curto o suficiente? Sim, está perfeito! Sessenta cêntimos. O preço que se paga na maioria dos cafés da ilha. Cento e vinte escudos na moeda antiga. Só de pensar que antes do euro chegar um café custava cinquenta escudos, vinte e cinco cêntimos… isto é que foi subir preços!

A única luz forte, de um branco azulado, provinha de um pequeno ecrã da televisão colocada numa prateleira quase junto ao teto na parede do fundo. Para ver o que lá se passava era preciso inclinar bastante a cabeça, tal era a altura em que se encontrava. Nem prestei muita atenção à emissão, distraído que fiquei com os comentários permanentes de um velhote que, concentrado no televisor, ia atirando para o ar, na esperança de que alguém lhe desse atenção e desenvolvesse assunto. Em vão. Nem eu, nem o homem de óculos atrás do balcão, nem o rapaz sentado no canto escuro fizemos o mais ligeiro comentário.

Foi então que espreitei para o monitor. Tourada à corda. Fui percebendo pelos comentários que era na Fonte da Ribeirinha. Segundo o homem, o touro não prestava. Tinha pouca gente. Foram quatro touradas no primeiro de maio. Olha para aquilo. Não vale mesmo nada. Das paredes, os touros retratados nas fotografias pareciam indignar-se com os comentários… o homem olhava à volta, ninguém respondia, e lá regressava ao seu estado de apatia concentrada provocada por aquelas imagens.

Bebi o café, atualizei os emails e mensagens, vi as notícias e levantei-me. Pus a mochila às costas e, em jeito de despedida, voltei a olhar para a televisão. Fiquei parado por algum tempo, grudado naquelas imagens que, não sei como, me prenderam durante longos minutos. A figura do touro é magnetizante e não nos deixa indiferentes. Entretanto, entraram mais clientes e, à medida que o faziam, de pé, ficavam a olhar para a televisão e comentavam. O velhote virou-se para trás, e com um ar confiante, devolveu aos novos fregueses um sorriso de vitória. Nesse instante, pareceu-me ouvir o estoirar de um foguete. Eram os sinos da igreja da Senhora do Guadalupe. Eram dez e meia e o carro já devia estar pronto.

Crónica semanal radiofónica apresentada, hoje, nas rádios radioportugalusa.com; radiolusalandia.com; radiotvartesia.com; radiovozdosacores.com e radioazorescanada.com

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