Geringonça 9.4.2

Enquanto almoçava, no restaurante, os canais de notícias nacionais estavam todos, àquela hora, a dissecar a crise política do fim-de-semana e a tentarem compreender, tal como eu, a geringonça 9.4.2 que consegue ser, ainda, mais anti natura que a original. Já lá diz o ditado que a cópia consegue ser sempre pior. Declarações de Costa, declarações das deputadas distraídas, declarações de Cristas, declarações de Rio, momento de tensão de Costa, recuo de Cristas, ânimos exaltados de Rio… e a foto do acordo que, contrariamente às dos acordos que depuseram Passos Coelho, facilitou bastante a vida aos órgãos de comunicação social que, só com uma imagem, conseguiram mostrar o ambiente do coletivo. Tão apropriado!

Subitamente, notificação no meu telemóvel: “Meghan Markle entrou em trabalho de parto”. Ato contínuo, nas televisões, enquanto Catarina Martins, a meio do segundo ato, faz aquela expressão treinada de Daenerys com ares de santa, mas que pouco falta para ser uma Cersei, em rodapé, passa a informação “Meghan Markle… vai parir”. Desde esse dia para cá, nos jornais online de referência, não se fala de outra coisa. O que a criança come, que nome vai ter, os humores da rainha, os humores do Primeiro-ministro e o silêncio do Presidente da República, algo que tem sido considerado preocupante…

Ver o PSD juntar-se ao PCP e ao BE para reverter uma medida implementada pelo próprio em nome da boa gestão e da necessidade de introduzir rigor nas contas públicas foi algo que me incomodou profundamente. Fui daqueles que ao longo do consulado Passos Coelho defendi a austeridade em nome de um bem maior que é o país, mesmo tendo sido, eu e a minha mulher, vítimas da crise que nos levou ao desemprego. Fui daqueles que condenou António Costa por se juntar à esquerda radical e, com ela, reverter medidas, repondo tudo a quase todos como se não tivesse havido uma crise monumental e o país tivesse ficado à beira da bancarrota. Não percebo, agora, porque o PSD se junta à extrema-esquerda portuguesa de quem tanto falou mal por se ter juntado ao PS para o apear do Governo depois de ter ganho as eleições legislativas.

Ideologicamente – se é que nos dias de hoje isso significa alguma coisa – não sou socialista, nem apoiante deste Governo, nem da solução parlamentar que geriu os destinos do país nos últimos três anos e meio. Agora, é triste ver-se o BE e o PCP, naquela atitude hipócrita habitual, a criticar António Costa e o PS como se nada tivessem que ver com a solução encontrada e com esta governação. É hipocrisia, insisto, falta de seriedade e de vergonha. É o que temos e pouco difere da extrema-direita, embora sejam mais acarinhados e poupados. Basta ver o que pensam e dizem de Maduro, Putin, Castro e do Kim Jong qualquer coisa.

Neste fim-de-semana, os políticos, a política e os partidos prestaram um péssimo serviço à democracia. Neste momento, já ninguém sabe que partido defende o quê, que princípios têm cada um deles ou que garantia de confiança podem dar. Todos ficamos de boca aberta quando olhamos para os resultados das eleições que se vão realizando nos outros países e constatamos que os partidos fora do sistema e extremistas vão ganhando expressão. O que se passou em Portugal nos últimos dias é perigoso e fez com que os cidadãos se desacreditassem ainda mais dos seus representantes. A muralha ruiu e abriu caminho para a invasão.

Não se percebe tanta excitação. Afinal de contas, foi só mais uma criança que nasceu… com saúde. Felizmente!

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