“Roubar à Europa não é pecado”

Numa região que vive e sobrevive à custa dos subsídios e apoios da União Europeia, não se compreende porque razão os açorianos viram as costas a estas eleições quando, na realidade, são elas que determinam o seu futuro e a sobrevivência económica e financeira das famílias, empresas e demais instituições públicas, privadas, associativas ou de solidariedade social.

O principal motivo talvez assente num equívoco frequente determinado pelo discurso político das forças partidárias locais e regionais. Explico. É voz corrente dizer-se que se recebeu um subsídio da câmara municipal, uma ajuda da junta de freguesia ou um apoio financeiro do governo. Também é comum ouvirem-se estas entidades públicas anunciarem trabalho, que fizeram isto ou aquilo, obra feita e subsídio dado como se o dinheiro saísse do seu próprio bolso ou da capacidade das organizações que dirigem gerarem receita e riqueza própria. No fundo, fazerem brilharetes com o dinheiro dos outros sem referirem que tal só é possível porque existe uma organização política supranacional da qual fazemos parte e se chama União Europeia e que é muito mais do que uma espécie de cofre sem fundo onde se vai sacar dinheiro. Não é gralha. Usei o termo “sacar” de forma propositada porque é essa a ideia que trespassa dos discursos oficiais num quase “vamos sugar-lhes o tutano”. Eles não dão nada, nós é que somos muito bons e rapamos-lhe tudo. O que não é dito é que quem define o que se pode ou não fazer, o que se deve ou não apoiar ou que áreas ou setores deverão ser alvo de investimento, quem define essas políticas é a União Europeia, quem investe é a Europa que também somos nós. Pior, quando é preciso encontrar um bode expiatório, um mau da fita ou justificar algum não investimento, a culpada é da Europa. Tão conveniente esta forma de ter os cidadãos desinformados e equivocados.

Faltarão também causas mobilizadoras do eleitorado e a prova disso são precisamente os resultados eleitorais do último domingo. Os partidos sensação desta eleição foram precisamente aqueles que conseguiram encontrar causas que as fizeram suas, concordemos ou não com elas, e as souberam comunicar. O PAN é disso um bom exemplo. Encontrou um leque de propostas em que os outros se mantêm afastados, abordam com pinças ou consideram secundárias porque os partidos ditos sérios não falam destas coisas. Há quem diga que se trata de uma questão de moda, um epifenómeno. Pode ser. Mas quem diz isto esquece-se como nasceu e cresceu o Bloco de Esquerda. Começou por ser um partido de causas fraturantes com forte impacto social e cultural. Causas de grande popularidade junto dos mais jovens, aqueles que não votam e estão afastados do sistema. Foi chamado de partido dos drogados, dos homossexuais e do aborto. Dizia-se que eram temas de minorias e que nunca vingariam num país conservador como o nosso. Apesar disso, defenderam-nas, lutaram por elas, contra tudo e contra muitos, e conseguiram alcançar os seus objetivos. Hoje, são a terceira força política a nível nacional logo a seguir ao PS e ao PSD, uma das mais jovens.

Talvez seja mesmo isso que falta à política portuguesa: causas, coragem e determinação para as defender até ao fim. Não é isso que deveria ser? Não é para isso que os partidos políticos existem? Começo a ter dúvidas…

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