as sopas da função

Sozinha, junto à campa de mármore branco, Maria chorava. A imagem esculpida do Sagrado Coração de Jesus olhava-a nos olhos. Um olhar gelado como a pedra de que era feita. “Porque me fizeste isto?” era a pergunta que tantas vezes fizera a si própria durante todo aquele ano e da qual nunca conseguira obter uma resposta. Era uma manhã triste. Os foguetes estoiravam no ar. O céu estava limpo naquele azul que só o mês de maio consegue oferecer. Um dia bonito. Um dia de festa.

Conheço o dono daquela casa ali adiante. A das barras azuis. Eu sei que são azuis, mas a esta hora da noite já não se conseguem ver. A rua está pouco iluminada. Está escuro. O carro do Amílcar não está estacionado à porta e as luzes estão todas apagadas. Nem sequer a da casa de despejo está acesa. Será que aconteceu alguma coisa? A sogra tem andado meio atrapalhada e já foi parar ao hospital umas quantas vezes. Será que a velha se finou? Não ouvi sinais. Quando chegar a casa a Maria logo me diz. Têm penado com ela, coitados. A velha é teimosa e confiada. Não quer que ninguém a ajude. Ainda a semana passada cismou que havia de fazer um caldo temperado para o almoço do já defunto marido. A neta, que não tem mais de onze anos, estava em casa e começou a sentir o cheiro a queimado. Foi à cozinha. O feijão já estava preso ao fundo da panela e já não era feijão. Era uma coisa preta mais escura do que a fumaceira pestilenta que inundava a cozinha. Podia ter sido pior! Durante a noite é que é o cabo dos trabalhos. Ouvem-na gemer ou a falar sozinha. Conversa com o Ti José, o marido. De vez em quando, um estrondo. A velha caiu da cama abaixo. A coitada já não se sente e nem sabe muito bem que anda neste mundo. Dizem que tem dias que olha para a filha e começa a brigar com ela. Manda-a embora. Pergunta-lhe o que é que anda ali a fazer. Porque mexe nas suas coisas? Que as quer roubar. Até lhe tenta bater. Ameaça chamar o marido. Chama-lhe corsária e diz que se vai a ver com o seu homem. A princípio, a Fatinha ficava ofendida e chorava. Com o tempo foi-se acostumando às crises da mãe. Não teve outro remédio. O Ti José morreu já lá vão mais de vinte anos. Mas continua vivo no quotidiano da sogra do Amílcar e para a sua terrível doença que a vai consumindo um dia atrás do outro. Uma mulher que no seu tempo era cheia de vida e amiga de toda a gente. Todos na freguesia conheciam a Tia Mariquinhas. Todos, pelo menos uma vez na vida, um dia lhe foram bater à porta. Era uma mulher como poucas. Sempre disponível a ajudar fosse quem fosse, mesmo aqueles de quem o marido não gostava. Preferia levar um ralhete do seu homem a deixar alguém a passar necessidade. Hoje, ninguém faz caso dela. Nem se lembram que a Tia Mariquinhas existe. Está a morrer devagarinho. Que Nosso Senhor se lembrasse dela. Seria uma esmola para todos. Ao que chega uma pessoa.

O carro, afinal, está parado ali ao pé do Império. É verdade, o Amílcar faz parte da Comissão. Também já me convidaram uma vez. Mas também foi só uma vez. Não tenho pachorra. Gosto do Senhor Espírito Santo. Vou ao bodo e, sempre que posso, vou comer umas sopinhas. Faz tempo que não como sopas numa função…

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