As sopas da função (II)

A Maria vai todos os domingos ver passar o cortejo da coroação a sair da igreja. Veste-se a preceito como se fosse uma das convidadas. Costuma ir com a mãe. Mas quando esta não pode, ou não quer, vai mesmo sozinha. Assiste sempre ao fim da missa. Gosta de ver coroar. Quando os homens começam a sair da igreja, a Maria também sai. Vai para a frente da venda do senhor Ramiro que é o melhor lugar da freguesia para ver a saída da briança. Se estiver a chover, não se importa. A entrada da venda é recuada e tem uma parte que dá para se abrigar. O pior é o vento. É nesse abrigo que a Maria e a minha sogra esperam pelo cortejo. Quando a mãe não vai, chega a ficar sozinha no largo da igreja. Por vezes as pessoas ficam a olhar para ela com ar de admiração ao vê-la ali à chuva sem mais ninguém. Ela não se importa. Cumprimentam-lhe. Devolve-lhes um sorriso. Quando chega a casa consegue dizer o nome de todas as pessoas que participavam no Império e o que cada uma delas levava vestido. Quem ia a coroar e quem eram os criadores. Chora sempre quando a bandeira pequena aparece à porta da igreja. Prefere que seja uma criança a levá-la. E se quem a transporta é um adolescente ou um adulto, diz que aquela coroação não tem jeito nenhum. Faz muitos reparos à forma como são distribuídas as insígnias, principalmente quando nota que algum membro da família do Imperador fica de fora. “Só pode ter havido ali uma desamanhação!” Umas vezes tem razão, outras, nem por isso, e, na maior parte dos casos, nunca chega a saber a razão deste ou daquele ir ou não ir empregado. Quantos enredos tenho que ouvir para explicar que o filho mais velho do irmão mais velho do Imperador, que o ajudou tanto quando ele estava a passar necessidade, em vez de ir a coroar, vai com uma insígnia, e do lado esquerdo. “Um dia, se Deus quiser, hei de ser Empanatriz!” diz ela todos os oito domingos do Espírito Santo. Eu não digo nada.

Só vou à igreja ver o Espírito Santo se me convidarem. Faz anos que lá não vou, nem mesmo nos domingos de Bodo. Costumo chegar ao terreiro só na altura em que já estão a distribuir o pão e o vinho. Bebo sempre um copo. Naquele dia tem outro sabor. Ainda tentei arrematar uma terrina de sopas para fazer uma surpresa à Maria e à mãe, mas alguém deu mais dinheiro do que eu e lá foi com as sopas para casa. Podia ter dado mais cinco euros. Não era por isso que havia de ficar mais pobre e levava alguma alegria para casa, coisa que anda por lá a fazer falta. Por isso, no ano passado, sopas, nem vê-las. Ela briga comigo. Diz que a culpa é minha. Que não nos convidam para nada porque eu não saio de casa e não me dou com ninguém. Quando era solteira ia a muitas funções. Às vezes até ia empregada. Fala muito disso. Principalmente nesta altura.

Gostava dos terços e de ir aos Biscoitos nos carros-de-bois no dia de ir buscar o vinho para as mordomias. Depois que casámos, os convites foram cada vez menos. Num Natal aí para trás ofereci-lhe uma coroa do Senhor Espírito Santo – uma daquelas que se guarda debaixo de uma redoma de vidro – para ela rezar o terço à noite antes de se ir deitar. Todos as noites o faz. Mas diz que lhe faltam as outras pessoas. Que lhe falta ouvir os mistérios, os homens a começarem a rezar as Ave Marias e as mulheres a dar continuação com os Santa Maria Mãe de Deus. Falta-lhe ouvir a sineta e o Glória ao Pai e de ver o cetro a circular de mão em mão para que todos beijem a pombinha do Senhor Espírito Santo e durante alguns momentos pensarem que os seus pecados, pensamentos negativos e rancores ficam ali perdoados naquele beijo e naquele silêncio. Mas a parte de que ela mais tem saudades é de quando as pessoas todas juntas, mesmo aquelas senhoras mais idosas que estiveram sentadas a maior parte do tempo porque as pernas já não aguentam, se levantam e, em comunhão, sem distinção de homem ou mulher, recitam a Salve Rainha. “Até as lágrimas me vêm aos olhos” costuma ela dizer. A culpa é minha. Eu sei. Mas o que posso eu fazer?

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