A festa da mangueira

Há sensivelmente dois anos os praienses foram surpreendidos com a ideia de fazer da Praia da Vitória capital europeia da cultura. Estávamos em plena pré-campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 2017 e o eleitorado ansiava por saber o que a candidata vinda de Bruxelas propunha para o concelho.
A ideia foi recebida em tons de chacota e com a arrogância habitual com que se recebem ideias desconhecidas, fora dos cânones pré-estabelecidos da política local de sacristia e, pior ainda, que não pensadas por aqueles que têm a exclusividade da inovação, da proposta trasvestida de moderna ou do soundbite que nunca verá a luz do dia, por muitos “likes” que tenha nas redes sociais.

De facto, a ideia surpreendeu. De facto, a ideia era ambiciosa demais para a nossa cidade que só deveria limitar-se a ser pequena na sua dimensão geográfica.

A originalidade da proposta depressa se tornou uma anedota de campanha. Passados dois anos, questiono-me sobre as consequências da mesma caso não tivesse sido apresentada por uma “pequena” nova, desconhecida da grande maioria das pessoas, e que trabalhava e vivia na Europa onde o mundo é muito mais do que se saber tocar rabeca? A este propósito, aliás, está mais que provado que o domínio deste “skill” musical não é condição para se ser bom presidente de câmara ou mesmo bom presidente de um partido político…adiante…

Se a proposta tivesse sido apresentada por um homem, de preferência com perfil de senador, é muito provável que o acolhimento tivesse sido outro. É muito provável que estivéssemos a discutir neste momento a melhor forma de apresentar a candidatura, mesmo sem o apoio de Angra ou Ponta Delgada.

Infelizmente, as questões de género e de idade ainda têm um forte peso na nossa perceção das propostas e na ação política. Olhamos com desconfiança para os jovens e não levamos a sério as mulheres.

Talvez, por isso, os partidos políticos, particularmente da oposição, têm vindo a esvaziar-se de elementos do sexo feminino em lugar cimeiro nas suas direções, transmitindo uma ideia de que são organizações profundamente machistas, conservadoras, utilizando a presença de mulheres como mero elemento decorativo, dando-lhes funções secundárias.

Apesar do grande e longo caminho ainda a percorrer, a sociedade mudou e já sacudiu muito do pó bafiento que a mantém amarrada a hábitos, costumes e tradições que veem o progresso como inimigo ou então como aliado de Belzebu. Algum desse pó, no entanto, criou raízes profundas e agarrou-se à roupa e aos móveis de uma tal forma que nem a lixívia pura ou o “rundap” conseguem eliminar. Algumas reuniões, conferências de imprensa ou ações de campanha transformaram-se numa espécie de “festa da mangueira” onde menina não entra.

Felizmente, no mundo real, mesmo na sociedade onde vivemos, essa mentalidade ultraconservadora já foi ultrapassada.

A ideia de fazer da Praia da Vitória capital europeia da cultura podia até ser adjetivada de absurda, mas, comparado com isto, só o era por tão inovadora.

A foto foi retirada do Pinterest.

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