Pela tolerância de ponto na Terça-feira das Lajes

reencontro (bodo de leite de 2004)

Quando o interesse comum se sobrepõe aos interesses individuais e partidários, é possível encontrarem-se pontos de entendimento, unirem-se esforços e enfrentarem-se batalhas. Nem sempre é possível vencê-las. Outras vezes, o caminho para chegar à vitória é difícil, longo e tortuoso. 

Nem são muitos os obstáculos. Bem vistas as coisas, só existe um: a vontade política por parte do Governo Regional para devolver a tolerância de ponto, na sua terça-feira das festas, às Lajes da Terceira, aquela vila que acolhe a Base militar, aquela vila que ao longo de décadas tem passado muitas noites sem dormir sempre que é preciso restabelecer a paz e a democracia em qualquer ponto do mundo servindo, sem queixas, os Açores e Portugal.

Somos o Coração do Ramo Grande, bairristas e prezados no que tudo de bom estas adjetivações encerram. Somos um povoado com mais de quinhentos anos sem que os tivéssemos desperdiçado. 

Crescemos, desenvolvemo-nos, criámos riqueza, modernizámo-nos e absorvemos como poucos a cultura e os costumes de outras gentes, designadamente dos militares vindos de todas as regiões de Portugal Continental, das outras ilhas dos Açores e dos Estados Unidos da América. Apesar disso, tivemos a capacidade de preservar as nossas tradições, mantendo-as genuínas e cheias de vida.

O Carnaval é disso um bom exemplo. Mas também o são as filarmónicas, materializadas nas Sociedades Recreio e Progresso Lajense (a Velha e a Nova), e as festividades do Espírito Santo com as suas oito Coroações e as duas Mordomias anuais, tão características destas Lajes do Arcanjo Miguel. Mas as nossas tradições não se ficam por aqui. Apesar da grandiosidade das Sanjoaninas, nas Lajes conseguimos manter duas festas que se assemelham muito a festas de bairro em honra de São João. Alterou-se ligeiramente o calendário para que não se esvaziassem e a tradição se pudesse manter. Refiro-me às festas do Largo de São João e às Festas da Serra de Santiago. A estas, junta-se, ainda, em julho, a Festa do Carmo que, outrora realizada por detrás da Igreja Paroquial, agora anima o jardim da vila. É a procissão do Carmo. Como o são, também, a dos Passos, a do Senhor Morto, a das velas em honra de Nossa Senhora de Fátima, a do Corpo de Deus e a de Nossa Senhora do Rosário no primeiro domingo de outubro que marca as festas tradicionais das Lajes.

Cortejo da Rainha, fogo preso, procissão, excursões ao mato, touradas, cantoria e bodo de leite são alguns dos momentos tradicionais que as Lajes insistem manter nas suas festas. Alguns, com as dificuldades inerentes à sua execução e aos constrangimentos financeiros. Faz-se o que se pode. Outros, no entanto, são dificultados pela intransigência governamental em ceder às Lajes a tolerância de ponto na sua Terça-feira de Bodo de Leite. 

O cortejo de carros alegóricos realiza-se em horário laboral, por volta do meio-dia, já com o ano letivo a decorrer. Como tal, nem os alunos das escolas podem participar dele sem que tenham de faltar às aulas. Mas este não é um cortejo infantil. É um cortejo feito pelas crianças, jovens, adultos e séniores da comunidade para todos quantos podem visitar as Lajes nesse dia. Apesar de tudo, ainda são muitos. Mas podiam ser muitos mais.

O que se pede não é uma tolerância de ponto para ir assistir a uma tourada à corda que se realiza ao fim do dia. Pede-se, isso sim, que se valorizem as nossas festas tradicionais, feitas pelas nossas comunidades rurais, e profundamente enraizadas na nossa cultura popular.

As festas das Lajes marcam o fim do ciclo das festas de verão da ilha Terceira que sempre tem sido fechado com chave de ouro. A tolerância de ponto da terça-feira é, também por isso, uma justa homenagem, não só ao povo das Lajes, mas a todos os habitantes do concelho da Praia e, porque não dizê-lo, a todos os terceirenses que vivem e preservam as tradições da sua terra.

O caminho tem-se revelado difícil, mas não vale desistir.

Estou certo que, como diz o Arcebispo José Tolentino Mendonça, ”como o espinho no troço da rosa ou como a rosa que, sem sabermos como, floresce no cimo improvável daquela sucessão de espinhos”, a tolerância de ponto, um dia, será uma realidade. Somos gente de fé!Pela tolerância de ponto na Terça-feira das LajesEstou certo que, como diz o Arcebispo José Tolentino Mendonça, ”como o espinho no troço da rosa ou como a rosa que, sem sabermos como, floresce no cimo improvável daquela sucessão de espinhos”, a tolerância de ponto, um dia, será uma realidade. Somos gente de fé!

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