São Miguel ficou sem asas

Nem amarelo, nem verde, nem vermelho, nem sequer laranja. Era dia de eleições e qualquer referência a cores poderia ser entendida como apelo ao voto. A verdade é que fez vento. Muito vento. Uma daquelas ventanias surpresa que nem um Santo consegue prever.

Estavam todos com um ar ensonado. Terão ido para a cama tarde. Ou insónias. Alguma coisa pode ter caído mal no estômago. Morcela? Sangria? Torresmos? A noite nem esteve má. Durou até às tantas, para lá das quatro e meia da manhã. Pelo menos nas tascas onde havia comida.

Desde que mudaram a ordenação dos cadernos eleitorais sinto-me mais novo. Agora voto sempre na mesa dos jovens e tantos eram os que no domingo da procissão ficaram impedidos de ir à festa. Isso não se faz. Deitaram-se tarde e, ainda por cima, têm que gramar a estopada de ficar um dia inteiro fechados na escola. É domingo.

Almoço de festa é almoço de festa. Sopas do Espírito Santo, cozido e sobremesas à escolha. A família reunida. Faltam alguns. Sempre faltam alguns. Barriga cheia e o vento começa a crescer.

A rua principal é enfeitada com bandeiras, colchas garridas nas janelas e varanda e tapetes de flores ou farelo colorido. Levam horas a preparar o passeio dos santinhos que todo o ano ficam fechados na igreja.

Ainda antes da saída, o vento começou a deitar ao chão mastros e bandeiras. Alguns tiveram mesmo que ser recolhidos. Temia-se que a procissão não saísse.

As urnas continuaram abertas por mais umas horas. Quando fechassem, a procissão ainda estaria na rua ou prestes a recolher. Os jovens encarregados de receber o nosso cartão de cidadão e que descarregavam o nosso nome do caderno eleitoral para depois nos dar o boletim de voto estavam longe de imaginar o que na rua principal da vila estava para acontecer.

O vento insistia em que não se fizessem os tapetes. As hortênsias voavam. Não conseguiam manter-se sossegadas no seu lugar. Não havia flor que resistisse. O farelo era regado com insistência para que ficasse pesado e colado ao asfalto. Algum foi-se aguentado. Outro, à medida que a tarde envelhecia, ia secando, arrastando-se para a berma da estrada.

O guião seguia em frente, como é o costume. Mas saiu deitado para se proteger do vento. As opas esvoaçavam, as senhoras seguravam as saias e os penteados resistiam na proporção direta da quantidade de laca pulverizada. Passaram os santinhos todos e aqueles que os acompanhavam olhavam para o chão na esperança de que o céu se acalmasse.

À passagem do Arcanjo, gabava-se a valentia dos que o transportavam. Uma espécie de Via Sacra. A fé fala mais alto. Aqueles homens, só por essa provação, já terão os pecados perdoados por muitos e bons anos!! A procissão ainda mal tinha saído do adro e a viagem era longa.

O pálio cumpriu a sua missão, mas a estola do padre que presidia à procissão teimava em cobrir-lhe a cabeça. Uma mantilha desgovernada. O povo seguia atrás da filarmónica e fechava-se a primeira parte.

A abstenção foi elevada. Por essa hora já se sabia disso.

Ainda o cortejo não chegara a meio, uma decisão inédita foi tomada. O vento não amainava. Era preciso fazer alguma coisa. Aliviar as costas dos homens e proteger o Santo.

Quando começaram a sair os primeiros resultados, não houve surpresas. O que se esperava.

Este ano, quando a procissão recolheu, o Arcanjo ia mais leve. Pela primeira vez, desde que me lembro como gente, as asas foram retiradas a São Miguel… sem aviso prévio.

Foi melhor assim.

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