Duas unidades exteriores de ar condicionado

Se havia fraqueza terrena de que a Madre Superiora do Mosteiro da Luz padecia, esse pecado mortal era o da soberba. Por pura vaidade, ordenou que se instalassem nas muralhas da cerca do complexo religioso existente entre a rua da Alfândega e o mar, dois aparelhos de ar condicionado produzidos no Extremo Oriente, vindos cá parar transportados em caravela porta-contentores, protegidos por placas de esferovite, entre sacas de canela e cópias da mais fina porcelana made in china.

A ilustre freira franciscana, de quem não sabemos o nome, queixava-se da humidade excessiva destas ilhas, do calor, e temia uma invasão de mosquitos, aqueles protegidos e financiados pelo projeto Life, habitantes das águas paradas existentes junto ao tank farm, alimentados pelos excedentes de combustível americano que, ao longo de muitas décadas, se foram depositando nas suas profundezas.

Estávamos nos finais do século XV e o progresso chegava à Villa da Praya muito antes desta ser da Victória e de voltar a ser vila, de facto.

Passados mais de quinhentos anos, aqueles dois objetos, ainda ali estão, bem preservados, para contar a sua história. Resistiram a terramotos, a batalhas, a demolições, a remodelações. Até José Silvestre Ribeiro, o original, não teve coragem para os mandar retirar, ainda que nos idos de oitocentos a aplicação da Lei e da regulamentação de gestão territorial fosse alvo de uma interpretação livre, elástica, diria mesmo que criativa, quanto ao que aquela zona da então vila, agora cidade, diz respeito. Felizmente, no século XXI, a Lei é para cumprir… e cumpre-se, não olhando a quem ou ao que se aplica ou à forma de financiamentos.

Lei é Lei e o garante disso começa pela formação académica e experiência profissional de quem nos gere, aliados ao seu grande sentido ético e de justiça, dando-nos garantias acrescidas de equidade no tratamento, acesso à informação e conhecimento do futuro. Aqui não há quem saia privilegiado. Aqui não há quem seja prejudicado.

Álvaro Martins Homem, desde o início, foi contra a instalação daquele equipamento que, segundo ele, diminuiria a capacidade defensiva do burgo praiense. Contudo, a Madre era poderosa, levando a sua avante. Ninguém sabe com que linhas se cosia a senhora, mas o certo é que nem a polícia da cultura daquele tempo, tão lesta na culpabilização dos fracos, fez o que quer que seja, permitindo que se desvirtuasse, demolisse, enterrasse e ocultasse património que nem se preocupou em saber se existia. Talvez até nem existisse. Ou existe?

Passados cinco séculos, finalmente, em boa hora, recorrendo à mais rigorosa e engenhosa técnica financeira, a Câmara Municipal conseguiu arranjar seis mil contos para executar a obra. Sim, foi preciso arranjar essa exorbitância monetária, seis mil contos, trinta mil euros, para que, agora, a grande obra se concretizasse e, nas palavras do autarca, demonstrar que o município “tem uma sustentabilidade financeira que lhe permite estar na vanguarda na execução e captação de investimento europeu”. Menos senhor presidente, menos…. Seis mil contos… Se ter trinta mil euros para investir é vanguarda…. vou ali e já venho!! E quanto ao “captar investimento”, por favor senhor presidente…

Enfim, se há assim tanta capacidade financeira e de financiamento para áreas como a cultura, quando é que pensa construir um verdadeiro museu da cidade? Um local onde os praienses, pronto, os turistas possam conhecer a história da cidade, as suas muralhas, os conventos, o que resta deles, as suas cercas, as ermidas e igrejas que foram desaparecendo, as portas da vila, as suas figuras verdadeiramente históricas, enfim, as nossas reais origens e, quem sabe, alguns objetos futuristas que, sem percebermos como, cá vieram parar, há séculos, vindos dos quatro cantos do mundo e até do futuro.

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